domingo, 4 de junho de 2017

Paixão por praia

Eu sou o mar


Sou água, meio verde, meio azul, que não descansa e não se rebaixa. Minha alma tem um pouco de sal, um pouco de algas, peixes, pedras, mistérios profundos.

Sou onda furiosa, onda mansa, posso parecer piscina, posso virar um maremoto. Minha Lua é meu humor, descanso embaixo do céu, da chuva, das nuvens e do Sol.

Secos e molhados, ambos convivem em mim. Minha areia é úmida pela manhã, seca durante à tarde e submersa à luz do luar. Mas tudo muda de lugar, basta uma tempestade ou dias de calmaria.

Encontro-me com o céu no infinito, vejo-me decorado por barcos, lanchas e povaréu, porém é na baixa temporada que me conheço de verdade. Eu, o Sol, a Lua e uns poucos acompanhantes.

Tenho grande capacidade de resiliência. Junto-me ao vento, camuflo-me num tsunami, não brigo com as feras que passam por mim e que se alimentam do que ofereço. Prefiro abrigá-las, nutri-las, dar-lhes a luz e a sombra de que precisam. E descansar na paz que me é inerente.

Resisto ao lixo que me jogam, ao óleo poluente na minha areia, ao petróleo que mancha minha água, ao entulho que se deposita lá no fundo e, aos poucos, vira relíquia, segredo, algo a ser descoberto, parte da história, minha e dos que viveram em mim.


Às vezes, me escondo entre árvores, pedras, protegido por estradas longínquas, esburacadas. Posso ser de difícil acesso e, por isso mesmo, oferecer os prazeres da descoberta, da exploração dos meus tesouros.

Outras vezes, sou das multidões, dos quiosques, componho a orla junto a arranha-céus, dividindo o mesmo céu que testemunha o desespero dos arrastões, a serenidade de um passeio à minha beira, a delícia de um beijo com gosto de maresia, de um carinho na presença das conchas, de uma alegria de cachorro ou criança.

Sou passarela de cruzeiros, de vendedores ambulantes, de restaurantes rústicos, ou chiques, de sorveteiros e baianas munidas de acarajé.

Não importa o lugar do mundo, vejo Deus em mim, nessa junção perfeita de oceano com areia; de montanha com cidade; de céu com água; de humanidade com energia constante, vida perene, beleza única e inconteste.

Sou, antes de tudo, uma ode à democracia. Aberto a todos, sem qualquer tipo de discriminação ou preconceito. Já vi passarem por mim velhos, jovens, ricos, pobres, gordos, magros, deficientes, homens, mulheres, trans, negros, brancos.

Nem todos me veem do mesmo jeito. Poucos me valorizam de verdade, a maioria me quer só pra lazer ou contemplação. Eu não ligo. Sou uma força da natureza. Complacente com o bem que me representa, avesso ao mal que não me reflete, eternamente satisfeito com a solidão que me abraça nos intervalos de convivência.

Sou o divino banhado e mostrado de todas as formas. Sou Rio, Guarujá, Camboriú, Fortaleza, Bombinhas, Miami, escolha. Dentro de mim há força, magnitude, tudo passa, eu fico. Mudo, mas permaneço. Vou e volto a mim mesmo. É o meu movimento. É a minha essência. Sou a onda no mar que o Lulu canta. Sou "P" de paixão, de puta que pariu! 

Sou praia. Sou mar.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

"A Cabana"

O livro é melhor


Vi o filme "A Cabana" e, ao contrário da maioria dos críticos, não achei de todo ruim.

Breve sinopse: pai revoltado com a morte da filha busca se reconectar com Deus para entender o que aconteceu e melhorar sua vida em família.

O livro é melhor, como manda a tradição. Acho que ambos, contudo, têm como mérito questionar os estereótipos da religião, desconstruindo a forma como enxergamos Deus e seus desígnios.

As mensagens são muitas e beiram a obviedade: cada um escolhe seu caminho; toda escolha tem suas consequências; ninguém pode ser juiz de ninguém; a vida se encarrega; e por aí vai.

Acho válido. Algumas passagens são muito bonitas e emocionantes, assim como no livro. Não segurei as lágrimas. No entanto, como filme, tecnicamente falando, poderia ser melhor.

Em alguns momentos, chega a ser tedioso. O elenco é bom, em sua maioria. Mas o ator principal (Sam Worthington, aquele de "Avatar"), é fraco, não segura a onda.

O principal ali, pelo menos para mim, é um ensinamento que não tem preço: o nosso estado mental e as nossas emoções definem o universo à nossa volta, a nossa vida, o nosso céu e o nosso inferno.

"A Cabana", enfim, é menos sobre religião e mais sobre a lei universal da causa e efeito. Podemos dar a essa lei qualquer roupagem, inclusive a religiosa. De seus efeitos ninguém escapa, nem ateu, nem fanático.

No frigir dos ovos, a escolha entre o bem e o mal é nossa. O filme, visto desse modo, firma-se como um libelo por um mundo em que assumamos mais a responsabilidade por nós mesmos.

Porque Deus (seja lá como você o vê) vai continuar nos acompanhando, dando uma mãozinha aqui e ali. Só não é justo deixar tudo no colo Dele.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Corra!

Veja este filme


Sem rodeios: o suspense "Corra!" é um dos melhores filmes do ano. E, talvez, um dos melhores a que eu tenha assistido na vida.

Não por acaso, é uma história original (ou seja, não é uma adaptação, um reboot, uma refilmagem, nada disso). O diretor Jordan Peele aposta na simplicidade e num argumento possível, ainda que fantasioso: a transferência de consciência. Paro por aqui, sem spoilers.

O casal protagonista, interpretado por Daniel Kaluuya e Allison Williams, sustenta com competência a história, repleta de tensão racial. Ele, negro; ela, branca. A família dela, aparentemente, é tolerante e amável. O resto já dá pra imaginar.

Em tempos de Trump, preconceitos exacerbados e a escalada da extrema-direita ao poder, um filme que explora relações inter-raciais de maneira tão inventiva e assustadora chega a ser um alívio para os amantes do bom cinema e um sinal de que a arte deve se interpor como o mais importante contraponto político nessa era de crise generalizada.

O filme está tão bem cotado que anda causando na internet, onde as discussões borbulham. O diretor, animado com a repercussão, liberou um final alternativo, a ser incluído no DVD. 

Com roteiro ágil e cenas perturbadoras, "Corra!" (Get Out) consegue ser cult, sem deixar de ser pop. Ainda está nos cinemas e merece ser visto. Corra! 

O ano promete. Depois dos também ótimos "Fragmentado", "A Autópsia" e "Alien Covenant" (nem sei escolher qual desses três gostei mais), estão pra chegar "Annabelle 2"e "It", aquele do palhaço aterrorizante.

Pronto, 2017 já valeu. Pelo menos a pipoca.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Ciclo automático

"Lava e seca" para presidente


Confúcio disse certa vez: "Quando vires um homem bom, procura seguir seu exemplo, e quando vires um homem mau, examina-te a ti mesmo por seus defeitos". Quero refletir sobre política e sobre nós mesmos, meus caros. Por analogia. Pois bem, venham comigo.

Comprar uma máquina que lava e seca roupas era um desejo de anos e me custou algumas economias. Depois de pesquisar muito, adquiri a minha mais nova companheira pela internet, num site com bom preço e as melhores condições de pagamento. Cumpri com o meu dever e me sinto satisfeito.

A via-sacra em busca de uma lava e seca que me agradasse, no entanto, revelou mais do que a eficiência do promissor mercado online brasileiro. Foi também um bom termômetro de como andam as lojas físicas, já que percorri algumas para checar as ofertas.

O que presenciei foi assustador. E volto a afirmar (como já escrevi em outros textos): a culpa pela situação do Brasil não é só dos políticos especializados em corrupção. É, principalmente, do povo (e aqui tomo a liberdade de generalizar), que ainda não fez seu devido mea culpa. Explico.

Na primeira loja, ninguém se levantou da cadeira para me ajudar, pra perguntar o que eu queria, para me oferecer água ou um bom negócio. Era como se eu não existisse. Olhei rapidamente os modelos de máquinas à disposição e me retirei. 

Na segunda, foi trágico. Pior do que se sentir invisível é perceber que você é um estorvo por tentar um desconto. Eu estava disposto a pagar à vista (minhas economias me permitiam a ousadia), contudo a negociação não avançou. O vendedor queria me cobrar outros duzentos e trinta e cinco reais pela instalação. Agradeci e fui embora.

O fulano tinha o meu telefone. Não ligou. Não se mostrou interessado em convencer o gerente de que ali estava uma boa oportunidade em tempos de crise. Não fez uma nova oferta. Não se esforçou pra ser simpático. Perdeu o cliente.

Na terceira loja, o golpe final. Um dos funcionários apontou onde estava a máquina que eu procurava. Errou o nome da marca. Não conhecia o produto. O preço estava salgado. Dei as mãos para a indiferença que me foi dada a seco e fui pra casa ligar o computador.

Fechei negócio sem contato humano. O site foi cordial e concedeu a possibilidade de negociar o valor. Parcelei sem juros. O atendimento por e-mail, até agora, mostrou-se correto.


Fiquei pensando em como essa experiência pode ser um indicador do nosso momento político e social. Estamos cercados de pessoas e profissionais programados no ciclo automático.

E aí eu me lembro dessa bagunça do Brasil, dessa disputa imbecil entre esquerda e direita, das reformas da previdência, trabalhista, mas não da humana. E aí eu me lembro da primeira vez em que fui maltratado em uma loja, das muitas vezes em que fui mal atendido em restaurantes, pizzarias, de quando dei um boa tarde na rua e não recebi um sorriso de volta. 

E aí eu lembro que a minha dentista atendeu ao celular para falar com a filha enquanto ainda mexia na minha boca. E aí eu lembro que a minha escovação é perfeita, mas ela não quis dar nem um real de desconto pelo serviço.

E aí eu lembro que não acredito em partidos políticos. Creio em pessoas, em caráter, em boas intenções, só que isso tá ficando escasso demais. Ironicamente, é nas lojas, onde reina a nossa (falta de) lógica baseada no consumo, que sentimos como fundamentos importantes estão comprometidos com o superficial, com o imediatismo, com a reificação da própria humanidade, no pior sentido.

Enquanto isso, lá fora, a coisificação toma proporções assustadoras nos congressos, senados, câmaras, prefeituras e onde mais a gente tem o hábito de colocar nossos iguais.

Querem fazer greve contra políticos, contra o mal-feito, contra salário baixo, contra a perda de direitos? Experimentem olhar para si mesmos. Experimentem eliminar os atos de corrupção de seus cotidianos, deixando de levar vantagem nas mínimas atitudes. 

Experimentem tratar melhor o cliente, o amigo. Experimentem fazer o trabalho primeiro, atender ao celular depois. Experimentem separar o lixo, não jogar sujeira na rua. Apenas experimentem. Depois, livres dos vícios e corrupções diárias, experimentem votar em quem tem o currículo limpo e mais potencial para fazer bem ao país. 

Por fim, experimentem comprar uma lava e seca e lidar com as pessoas aí fora. Eu tenho fé de que, um dia, o atendimento de carne e osso vai voltar a ser melhor que o virtual. E de que, num futuro ainda incerto, teremos políticos que reflitam a nossa própria melhora. "A paciência é amarga, mas seu fruto é doce", elaborou J.J. Rousseau. Por enquanto, a tenologia me parece mais humana e capaz. 

Se a tendência da soberania da máquina sobre o homem se confirmar, pretendo lançar minha lava e seca como candidata. Pense bem: ao contrário da maioria aí fora, ela tem vários ciclos além do automático. É honesta. Cumpre o que promete. É eficiente, silenciosa, só abre a tampa com o serviço pronto. Lava e seca para presidente já!

sexta-feira, 24 de março de 2017

De graça?

O preço da vida


"Você se tornou não apenas um pesquisador melhor, mas uma pessoa melhor". Ouvi essas palavras da minha orientadora, Marília Rodrigues, ao final da defesa de minha dissertação de mestrado, na Universidade de Franca. O comentário generoso tirou uma tonelada das minhas costas.

O peso foi acumulado durante os dois anos em que me dediquei à pesquisa. Nesse período, fiz um acordo tácito com o universo. Para ter sucesso no mestrado, abri mão de quase todos os finais de semana e me afastei das distrações, de amigos, colegas e até do blog. 

O mais difícil foi lidar com a instabilidade emocional. Por vezes, chorei sozinho. Fazer um mestrado requer foco e paciência. Foram muitas as noites em claro para ler e escrever. A orientação nem sempre segue os caminhos que prevemos. Além disso, é preciso escolher muito bem as palavras no meio acadêmico, tão vaidoso quanto o televisivo.  

Pensei em desistir. O clima opressor, os prazos curtos, a exigência de inúmeras leituras e o cansaço me fizeram questionar a escolha. Porém, consegui uma bolsa com muito suor e estudo. Achei estupidez chutar o balde antes de chegar ao fim.

Cheguei, contrariando o senso comum sobre os geminianos, conhecidos por abandonarem o jogo no meio da partida. Isso me deixa ainda mais orgulhoso da minha dissertação, "A prática discursiva de Madonna: transgressão e conservadorismo na cena pop". 

Engana-se quem acha que foi fácil e que escolhi o tema só pra falar bem da Madonna. Foi um árduo processo de pesquisa para explicar o funcionamento discursivo da obra da artista, a partir dos pressupostos teóricos e metodológicos de Dominique Maingueneau, em "Gênese dos Discursos".

Escrevi 111 páginas (todas formatadas de acordo com as infinitas regras da ABNT), a maioria com desconstruções da imagem que eu nutria sobre a cantora, cujas mensagens comunicadas através de sua arte podem ser contraditórias e, para meu espanto, conservadoras.

Não vou entrar no cerne do trabalho. Logo ele estará disponível on-line, e pretendo disponibilizar o link por aqui. O meu intuito, neste momento, é reconhecer a força de algumas leis universais. Uma delas é que não se pode ter tudo. Precisamos escolher e focar. A outra é a lei do retorno. O bumerangue da vida é implacável. 

Não acabou. Estou no meio de um relatório para a Capes (que me concedeu a bolsa). Também preciso escrever um artigo acadêmico (a ser publicado numa revista) e fazer as últimas correções na dissertação, sugeridas pela banca (composta também pelas doutoras Camila e Aline, a quem serei eternamente agradecido). Só depois, nas minhas férias, vou comer um pastel na praia.


Essa caminhada me deu provas de que tudo tem seu preço. Toma lá, dá cá. Ganhei olheiras, perdi preconceitos. Trabalhar e estudar, sem muito descanso, testou minha resiliência e expandiu meus pensamentos. 

O conhecimento me faz poderoso de uma forma humilde e me permite falar, sem titubeios, sobre efeitos de sentido, enunciadores, enunciatários, semântica global, competência discursiva e outros termos, antes tão assustadores, hoje tão corriqueiros no meu linguajar.

Essa reconstrução de mim mesmo custou sessões de cinema, festas e até a convivência com meu companheiro, Ricardo, que se mostrou a melhor pessoa e merecedor do meu respeito, amor e consideração. Ele não só me deu o tempo de que precisava pra estudar, sempre que precisei, como foi assistir à minha defesa, ao lado da minha irmã, outro ser de luz, ambos com olhos de admiração e carinho.

Sou só gratidão. Inclusive ao meu chefe na TV, Chico Ferreira, pela compreensão, e à Maria Isabel, de Franca, por me hospedar por algumas noites. 

Ainda não sei para aonde esse mestrado vai me levar. Talvez para as salas de aula, como professor. Ou como aluno de um provável doutorado. Neste momento, entretanto, faço planos para voltar a ler os livros do Stephen King e ir ao cinema uma vez por semana. 

Mereço o descanso. Ser mestre, afinal, deu trabalho. Paguei o preço. Espero a recompensa. Em alguns aspectos, a experiência foi como uma cerca de espinhos entre mim e uma doce plantação de morangos. Foram vários os arranhões ao passar pela cerca. Chegou a hora de degustar as delícias.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Speak your mind

Cartilha de sobrevivência

Por conta do mestrado e outras prioridades, não atualizei o blog como gostaria este ano. Na verdade, como o considero um psicólogo virtual, posso concluir que, por uma série de motivos, estive mais equilibrado e precisei menos dessa minha terapia particular.

Como última postagem do ano, pensei em escrever sobre o tempo nos tornar menos pacientes com certas bobagens. Dizem que envelhecer traz sabedoria e tolerância. No meu caso, trouxe a habilidade de separar o joio do trigo com mais rapidez e eliminar da minha rotina o que (e quem) me irrita.

Isso inclui o monte de bestificados que postam foto de comida ou de seus relacionamentos de fachada. Também dei um basta aos sociopatas com transtorno narcisista e aos que chegam ao cúmulo de desejar feliz aniversário a si mesmos, com textos autoengrandecedores. Nunca dei conta de tanta asneira. Agora, menos ainda.

Gente, sério, tá feio demais. Busquem ajuda. Ou, pelo menos, fiquem longe de mim. Porém, em vez de vociferar sobre minha paciência esgotada, prefiro deixar aqui, como despedida de 2016 (tchau, querido!), o discurso de Madonna no Billboard Women in Music, que deu a ela o prêmio de mulher do ano.

Madonna não foi reconhecida só por sua extraordinária carreira, mas principalmente pelo que ela representa: uma artista que se notabiliza pelo combate a tudo aquilo que engessa a humanidade, de preconceitos a política. 

As palavras de Madonna calaram tão fundo na plateia, e repercutiram tão bem na internet, que passaram a ser usadas como cartilha de sobrevivência em publicações de autoajuda e manuais de sucesso para empresários e empreendedores. 

Eu sempre digo: Madonna nunca é só sobre música, megashows, clipes e fama estratosférica. Madonna sempre foi sobre a vida. Se você é um ser humano que anseia por um mundo melhor, e se identifica com pessoas fortes e verdadeiras, impossível, ao menos, não admirar essa mulher fantástica. Com vocês, a mulher do ano. E do último século. E do último milênio. Não precisa ficar de pé, mas pode chorar, se não aguentar. Por mais Madonnas no mundo. E um feliz 2017.


“Estou aqui, em frente a vocês, como um capacho. Quero dizer, como uma artista feminina. Obrigada por reconhecerem minha habilidade de dar continuidade à minha carreira por 34 anos diante do sexismo, da misoginia gritante, do bullying e do abuso constante.
As pessoas estavam morrendo de AIDS em todos os lugares. Não era seguro ser gay, não era legal ser associada à comunidade gay. Era 1979, e Nova York era um lugar muito assustador. No meu primeiro ano [na cidade], eu fiquei sob a mira de uma arma de fogo, fui estuprada num terraço com uma faca na minha garganta e tive meu apartamento invadido e roubado tantas vezes que parei de trancar as portas. Com o passar do tempo, perdi para a AIDS, ou para as drogas, ou para as armas quase todos os amigos que tinha. Como vocês podem imaginar, todos esses acontecimentos inesperados não apenas me ajudaram a me tornar a mulher ousada que está aqui, mas também me lembraram que sou vulnerável e que, na vida, não há segurança verdadeira exceto sua autoconfiança.
Eu me inspirei, é claro, em Debbie Harry, Chrissie Hynde e Aretha Franklin, mas meu muso verdadeiro era David Bowie. Ele personificava o espírito masculino e feminino, e isso me agradava. Ele me fez pensar que não havia regras. Mas eu estava errada. Não há regras se você é um garoto. Há regras se você é uma garota. Se você é uma garota, você tem que jogar o jogo. E que jogo é esse? Você tem permissão para ser bonita, fofa e sexy. Mas não pareça muito esperta. Não aja como se tivesse uma opinião que vá contra o status quo. Você pode ser objetificada pelos homens e pode se vestir como uma prostituta, mas não assuma e não se orgulhe da vadia em você. E não, eu repito, não compartilhe suas próprias fantasias sexuais com o mundo. Seja o que homens querem que você seja e, o mais importante, seja alguém com quem as mulheres se sintam confortáveis por você estar perto de outros homens. E, por fim, não envelheça. Porque envelhecer é um pecado. Você vai ser criticada, humilhada e, definitivamente, não tocará nas rádios.
Eventualmente, fui deixada em paz porque me casei com Sean Penn e estava fora do mercado. Por um tempo eu não fui considerada uma ameaça. Anos depois, divorciada e solteira, fiz meu álbum ‘Erotica’, e meu livro ‘Sex’ foi lançado. Eu me lembro de ser a manchete de cada jornal e revista. Tudo que lia sobre mim era ruim. Eu era chamada de vagabunda e de bruxa. Uma das manchetes me comparava ao demônio. Eu disse: ‘Espera, o Prince não está correndo por aí, usando meia-calça, salto alto, batom e mostrando a bunda?’ Sim, ele estava. Mas ele era um homem. Essa foi a primeira vez que eu realmente entendi que mulheres não têm a mesma liberdade dos homens.
Eu me lembro de desejar ter uma mulher para me apoiar. Camille Paglia, a famosa escritora feminista, disse que eu fiz as mulheres retrocederem ao me objetificar sexualmente. Então, eu pensei: ‘Se você é uma feminista, você não tem sexualidade, você a nega’. E eu disse: ‘Dane-se. Eu sou um tipo diferente de feminista. Sou uma feminista má’.
Eu acho que a coisa mais controversa que eu já fiz foi ficar aqui. Michael se foi. Tupac se foi. Prince se foi. Whitney se foi. Amy Winehouse se foi. David Bowie se foi. Mas eu continuo aqui. Eu sou uma das sortudas, e todo dia agradeço por isso. O que eu gostaria de dizer para todas as mulheres que estão aqui hoje é que as mulheres têm sido oprimidas por tanto tempo que elas acreditam no que os homens falam sobre elas. Elas acreditam que elas precisam apoiar um homem. E há alguns homens bons e dignos de serem apoiados, mas não por serem homens, mas porque valem a pena. Como mulheres, nós temos que começar a apreciar nosso próprio mérito. Procurem mulheres fortes para que sejam amigas, para que sejam aliadas, para aprender com elas, para que se inspirem, se apoiem e se instruam.
Estou aqui mais porque quero agradecer do que para receber esse prêmio. Agradecer não apenas a todos que me amaram e me apoiaram ao longo do caminho. Vocês não têm ideia de quanto o apoio de vocês significa. Mas para aqueles que duvidam e para todos que me disseram que eu não poderia, que eu não iria e que eu não deveria. Sua resistência me fez mais forte, me fez insistir ainda mais, me fez a lutadora que sou hoje, me fez a mulher que sou hoje. Então, obrigada.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Bateu no poste

Mamada!



Vi "A garota no trem" no cinema e aviso: se o Oscar não for para Emily Blunt, farei um protesto, nu, na Avenida Paulista. Mentira. Mas é fato que Blunt entrou para o hall das grandes atrizes, cuja cadeira de honra ainda é de Meryl Streep.

O filme nem é tudo isso, fica devendo ao livro, ao contrário de "Garota exemplar", suspense na mesma linha e que foi brilhantemente adaptado para as telonas por David Fincher. O que mais me chamou a atenção, porém, foi a personagem central de "A garota no trem", uma alcoólatra triste, desacreditada e suspeita de um crime brutal.

Já escrevi um par de textos sobre os constrangimentos que os bêbados podem protagonizar. Eu mesmo não escapei de alguns. Sem falar no risco à segurança. Não vou negar o prazer que um copo de cerveja gelada ou um bom vinho podem proporcionar. Também gosto de tomar um Cosmopolitan de vez em quando. Aí é que mora o segredo: no "de vez em quando".

Nossa sociedade, contudo, segue embriagada com a cultura de incentivo ao consumo de álcool, sem se dar conta da dimensão do perigo. Nas redes sociais, as fotos de festas, geralmente com bebida envolvida, são as campeãs de curtidas. Há um consenso de que segurar um copo é legal, bacana, sinônimo de gente descolada, que sabe o que faz. Não sabe.

Outro dia, uma colega enfiou a cara no poste depois de sair de um bar onde encheu a cara com a turma. Saiu gargalhando. Agora, chora de dor pra dormir, ficou toda arregaçada. Está cercada de gente mamada, que fala em beber o tempo todo, em sair pra tomar uma, que discute preços de caixas de cerveja, combina o próximo porre, acha graça quando alguém passa mal e parece disputar quem tem a relação mais próxima com a divindade alcoólica a quem os mamados parecem servir.  

O Deus da cachaça, é bom que se diga, é da pá-virada e não costuma mostrar sinais de compaixão. Quer mais é ver o circo pegar fogo e deve estar rindo à toa com os mais alegres, aqueles que bebem até cair e chamam o Hugo com a cara na privada.


A publicidade se encarrega de agregar ao álcool a farra na praia e a mulher boazuda. As redes sociais promovem perfis específicos para cachaceiros, com frases mergulhadas no bom humor. E algumas garrafas são pura zombaria no próprio rótulo. Beber tem associação direta com o riso. Só que quando o corotinho passa a ser necessário a qualquer diversão, só o "AA" ou Jesus na causa.

Aí me lembrei daquela garota que fez um perfil falso e postou fotos com bebidas, para depois revelar que era alcoólatra e que não havia motivo para as milhões de curtidas. Aí me lembrei da moça que, anos atrás, se espantou quando revelei a ela que prefiro refrigerante a cerveja. Aí me lembrei de "A garota no trem", da colega que enfiou o carro no poste e de tantos outros que se acostumaram a viver entorpecidos, porque isso, para a nossa sociedade alcoolizada, é o padrão.

Não estou dizendo que sou melhor que os outros, mas daqui, do lado sóbrio da vida, tenho uma visão cinzenta dos que estão do lado de lá, com seus copos em punho. Folks, please, menos álcool, mais consciência. Pipoca, pizza, música boa, conversas saudáveis e beijo na boca, sem gosto de pinga, também são divertidos, acreditem. 

Concordo que a realidade pode ser um porre, que uma cervejinha ajuda a relaxar e a aliviar o lado assustador da sobriedade. O problema é casar com a ceva. Melhor deixar a gelada como amante, para momentos transgressores. Para os demais, que tal variar? Ao contrário do que dizem, brinde com água não dá azar. E faz bem para à saúde.