segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Flashdance

Recordar é viver


Revi "Flashdance" pela enésima vez, mas com gostinho de novidade. Assim é a arte, quando a redescobrimos.

O filme, de 1983, não apenas conservou a capacidade de entreter, como passou a enriquecer o debate acerca de temas diversos. 

A atriz Jennifer Beals encarna uma dançarina que pode ser considerada uma das primeiras personagens essencialmente feministas do cinema norte-americano.

Independente, e com aquele visual irresistivelmente cafona da época, Jennifer ganha a vida como soldadora, uma função que costuma ser atribuída aos homens.

Jovem e descolada, ela mora com um charmoso pit bull num galpão improvisado. A dança, sua paixão, ela exercita num bar que dá espaço a performances explosivas, sempre com uma proposta artística e sensual.


A personagem tem outros atributos interessantes: só anda de bicicleta e não aceita ser domada pelo parceiro (que também é seu patrão), ao recusar, de forma veemente, a ajuda dele.

As mulheres do filme se apoiam, são inspirações mútuas, algo que se perdeu de trinta anos para cá e agora emerge nas discussões feministas.

A sequência em que a dançarina é aprovada numa audição exigente continua emocionante. E embora receba um buquê de flores do namorado, é ela quem oferta ao parceiro uma rosa na cena derradeira.


Além de um poderoso discurso pela igualdade de gêneros, logo após a infame queima de sutiãs em praça pública, "Flashdance" representa a retomada da feminilização da mulher, sem que isso seja necessariamente um sinal de fraqueza.

A trilha sonora é tão poderosa quanto as performances, todas ligadas, de alguma forma, ao estado emocional das personagens e às mensagens trabalhadas com apurado senso estético.

Detalhe: nas principais cenas de dança, Jennifer contou com a ajudinha de uma dublê, dançarina de verdade.

Irene Cara, que interpreta a canção-tema, levou o Grammy. Dançar "What a feeling", com o volume lá no alto, é daqueles prazeres que todo mundo tem, mas pouca gente assume. 

O filme é um entre muitos sucessos do diretor Adrian Lyne. "Flashdance" foi indicado ao Oscar em quatro categorias e permanece como um libelo pela diversão, misturada à política dos sexos e dos relacionamentos que rege a vida de todos nós.

É o tipo de filme cujo status, por si só, impede qualquer tentativa mequetrefe de refilmagem. Simplesmente porque se encaixa com perfeição em seu contexto sócio-histórico, o da deliciosa década de 1980, ao mesmo tempo em que o extrapola.


Visualmente, era o começo do culto ao corpo, da mania pelas academias e da paixão pelas polainas, colãs e sessões de aeróbica. O look mudou, porém a essência, cativante, é atemporal. 

Rever "Flashdance", tanto tempo depois, foi uma experiência curiosa que, por tabela, reforçou aquele sábio ditado de que recordar é, sim, uma forma respeitável de viver.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Mantenha distância

Sobre o jornalista racista

racismo
substantivo masculino
  1. 1.
    conjunto de teorias e crenças que estabelecem uma hierarquia entre as raças, entre as etnias.
  2. 2.
    doutrina ou sistema político fundado sobre o direito de uma raça (considerada pura e superior) de dominar outras.


Sim, o que o tal jornalista da Globo comentou foi racista.

Sim, ele tinha de ser afastado de imediato, e a emissora agiu corretamente. Comunicadores precisam ter responsabilidade e ética, mesmo longe dos holofotes. 

Sim, todo mundo sabe que o apresentador em questão é conhecido pela sua arrogância.

Sim, a vida se encarrega de colocar cada um em seu devido lugar. Causa e efeito. Ouvi um amém?

Sim, a internet está repleta de idiotas lamentando o afastamento do jornalista e criticando quem o denunciou, tentando minimizar o preconceito. Haja paciência.

Sim, precisamos combater o racismo com veemência e mostrar que isso vai ser coibido, até que esses supremacistas disfarçados de gente do bem aprendam a lição. 

Sim, eu sou a favor do dia da Consciência Negra, porque dá visibilidade a uma minoria que ainda sofre. Que a data saia do calendário apenas quando todos tiverem o mesmo tratamento.


Não, branco nunca sentiu na pele o que é ser discriminado pela cor.

Não, a televisão e o Brasil não perdem nada com a saída de um profissional racista do vídeo.

Não, não é mimimi, papo de esquerdista ou discurso de coitadinho. Racismo é crime e de uma ignorância sem tamanho.

Não, eu não quero mais "amigos" que misturam questões humanas e de bom senso com política de direita ou esquerda. Se você é desses, mantenha distância.

Não, não cola mais fazer piadinhas e depois dizer que foi só brincadeira. Brincando, a gente pode dizer tudo, inclusive os preconceitos que a gente tenta esconder.

Não, eu não vou mais aturar nenhum asno querendo desqualificar o combate à discriminação, seja por gênero, cor ou sexualidade. Todos merecem respeito!

Por fim, esse jornalista que "caiu", apenas por curiosidade, é o mesmo que, dizem, deu cotoveladas em um colega de profissão durante uma coletiva de imprensa pra pegar a entrevista primeiro. 

É o mesmo que tentou diminuir a Anitta numa entrevista (escrevi sobre isso aqui), só porque ela canta funk e é sensual. 

É o mesmo que ganhou fama por ser agressivo e antipático. E, cá entre nós, ele nem é tão bom na bancada. Mesmo que fosse, ser um profissional competente não autoriza a babaquice.

Sim, sou jornalista. Sim, sou branco. Não, nada disso importa. O que importa mesmo é ser humano.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Casado ou solteiro?

À primeira vista

Já vou logo avisando que não acredito em amor à primeira vista. Interesse, sim. Atração, com certeza. Mas o amor, aquele que faz a gente suspirar só de ver o outro dormindo, esse leva tempo, paciência.

Na TV, ironicamente, um dos meus programas preferidos se chama "À primeira vista". Vejo mais pelos casais constrangedores que topam tamanha exposição do que pela qualidade da atração, provavelmente cópia de um similar estrangeiro. 

Ali, casais dos mais variados perfis se jogam num encontro às escuras, durante um jantar. O resultado é hilário. Além do fator entretenimento (afinal, o ridículo alheio sempre nos diverte, seja por identificação ou repulsa), o programa se revela um curioso laboratório sociológico.

É possível constatar, por exemplo, como o ser humano pode ser diverso e complicado. Tem mulher com mais de 50 anos que não topa ter sexo antes do casamento; tem cara bissexual procurando parceira de mente aberta; tem garota geek rejeitando pretendente porque ele não é fã de Star Wars; sem falar nos rapazes que só falam em musculação, e por aí vai.

O que mais chama a atenção, porém, não é o cardápio insípido que circula pelas mãos dos solteiros em busca de um par, mas os motivos óbvios que levam tanta gente a continuar avulsa contra a vontade. A maioria não aceita o diferente e reforça a teoria de que somos todos narcisistas buscando confirmar no outro nossas próprias características. 

Uma coisa é certa: no universo afetivo, se não abrirmos exceção na lista de exigências, ninguém entra. Não existe ser humano capaz de preencher todas as caixinhas dos nossos caprichos. Se você deseja alguém que seja, ao mesmo tempo, rico, bonito, jovem, inteligente, sexy, bom de cama, fiel até diante do Thor pelado, que baixe a cabeça pra tudo e jamais escreva uma frase com erros de português, é melhor reconsiderar.

O programa "À primeira vista" é, assim, uma vitrine da nossa inflexibilidade, irmã bastarda da solidão. Reflete ainda, em tons agressivos, o machismo que pulsa forte nas próprias mulheres. Raras são as que racham a conta sem reclamar. Quase todas consideram isso uma falta de cavalheirismo do sujeito. Não se iluda: ainda tem mulher achando que, para ser bem tratada, precisa de homem puxando a cadeira e abrindo a carteira.

Nos episódios, os pretendentes concordam ou não com um segundo encontro. A minoria arrisca. Quase todo mundo declina da oportunidade de conhecer melhor o outro porque o santo não bateu. Até entendo. Mas tem muita gente ali que dispensa o par por critérios tolos. E elimina a chance de, quem sabe, descobrir um verdadeiro amor.

Esse "verdadeiro", é bom que se diga, só aparece com um tripé clássico, formado por condições indispensáveis ao prazer afetivo: a química (que geralmente vem primeiro), as afinidades (sim, objetivos em comum são importantes) e diferenças que sejam complementares, conciliáveis. É com as diferenças, e não com as similaridades, que a gente vai ser testado e perceber se ama mesmo. É com elas que a gente vai aprender a respeitar o outro e a enriquecer a alma. 

Claro que tem diferença que não cola. Lógico que tem afinidade que não basta. Sem a química, nada disso dá liga. Vai de cada um perceber se vale a pena. O que se vê na TV, contudo, é um festival de rejeições bestas porque o par falha em ser idêntico, o que, humildemente, acho um erro.

Da minha parte, o que posso dizer é que, de alguma forma, houve um encaixe. Não perfeito, mas muito satisfatório. Pra mim, se é do bem, escova os dentes, batalha e me respeita, fechou. O resto aprendi a negociar. Além disso, não considero a solteirice uma moléstia mortal, não me desespero pra ter alguém e não sou adepto de fazer propaganda do relacionamento. Talvez por isso me divirta tanto com esse circo desenfreado, agora televisionado.

Receita de bolo? Não tem. Arrisco uns palpites. Acho que ansiedade zero ajuda. E a negociação constante, com todos os ônus e bônus. Amor que dura é isso, um contrato tácito entre amantes, com condições e cláusulas reavaliadas o tempo inteiro. Se o saldo é a infelicidade, pra quem quer que seja, não há margem de lucro pra ninguém. 

Pra ter saldo, vamos combinar, só com calma, análise e pé no chão, com uma pitada de bons sentimentos. Almas gêmeas, amor instantâneo, paixão fast food? Desconfie. À primeira vista, só o programa mesmo.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Annabelle 2

Boa de susto


O filme "Annabelle 2" é melhor que o primeiro no que mais importa: sustos e tensão. A produção é de James Wan (o homem por trás de todo o universo de "Invocação do Mal"), e lá estão várias cenas com a sua assinatura, explorando todos os clichês possíveis do terror, porém com um toque de classe e, por vezes, de humor.

O que a sequência fica devendo ao primeiro é um roteiro mais crível. Há inúmeras passagens em que o absurdo é tão absurdo que faz mais rir do que tremer de medo. Um exemplo: o elenco, que ora se borra, ora se comporta como se nada estivesse acontecendo. Outro: gritos ensurdecedores que ninguém escuta, nem mesmo quem está perto ou dormindo. Conta outra.

No mais, "Annabelle 2" cumpre a função de assustar, muito mais do que o filme antecessor. Os méritos do diretor David Sandberg estão nos enquadramentos e planos-sequência muito eficientes e acima da média para as produções do gênero. A história da boneca é bem contada e não deixa dúvidas sobre os motivos da maldição.

Pra quem não viu nem o primeiro, eu recomendo. "Annabelle" não faz parte nem de longe do amontoado trash já produzido por Hollywood sobre brinquedos endemoniados. Não tem nada a ver com Chucky e companhia. Até porque a boneca mal se mexe. É o que existe por trás dela que amedronta.

O que mais chama a atenção, porém, são alguns personagens paralelos (o que já se tornou uma tradição nas produções de Wan, de olho nos próximos milhões). Dica: fique até o fim dos créditos. Tem uma cena de "A freira", próximo horror da franquia de Wan, apresentada em "Invocação do Mal 2". O filme estreia no ano que vem. Outro detalhe bacana desse novo "Annabelle" é um espantalho que também deve ganhar um filme só pra ele.

Por fim: vá numa sessão tranquila, de preferência no meio da semana e tarde da noite. Só assim vai ficar livre dos chatos que lotam as estreias de terror só pra dar risadinhas e tirar fotos. Eu já sabia disso, mas a minha ansiedade pra ver a boneca surtada me colocou neste verdadeiro horror da vida real. Em "Annabelle 2", no meu caso, a platéia estava mais possuída que a protagonista. 

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Shine

Years & Years


Há muito tempo não me animava com uma novidade na música. Quando isso acontece, sinto uma enorme necessidade de compartilhar.

O trio de música electro-pop Years & Years é da Inglaterra e, no circuito alternativo, faz muito sucesso. Conheci por acaso, madrugada dessas, zapeando pela TV até chegar à MTV, que exibia uma apresentação deles num festival europeu. A plateia sabia as letras e cantava aos berros.

O que me chamou a atenção, de cara, foi o visual do vocalista Olly Alexander: franzino, meio orelhudo, corte de cabelo irregular, algum glitter e uma roupa vermelha, frente única, que sugeria uma saia no lugar das calças. Junto com ele, logo atrás, os demais integrantes (o baixista Mikey Goldsworthy e o tecladista Emre Türkmen) tocavam, tímidos, num visual meio retrô.

Olly tem 26 anos e já se declarou uma pessoa de gênero fluido. Ora está de camiseta, bermuda e tênis, ora de sunga dourada ou vestido. Foi alçado a porta-voz da galera GLBTQ e lançou até um documentário sobre o tema.

O cara é a alma do Years & Years, que lançou o primeiro disco, o excelente Communion, em 2015, e já amealhou alguns prêmios. A riqueza da produção e das composições é de fazer inveja aos grandes da cena radiofônica.


Os clipes são meio bizarros, com uma linguagem visual rústica e, por vezes, soturna. As músicas e vídeos exploram bastante a dualidade entre sexo e religião, sem menosprezar a cartilha do pop, marcada por histórias de desilusão amorosa e superação.

A faixa King é a de mais sucesso até agora. É genial, dançante e dá vontade de cantar junto. A maior parte do repertório, porém, é mid-tempo, com direito também a uma ou outra balada, a exemplo da maravilhosa Eyes Shut. Outros momentos brilhantes são RealTies, Worship, Desire e Take Shelter.

No palco, é notável que a força da música supera a ainda inconsistente atitude do trio (Olly, especialmente, precisa aprender a explodir, fazer aquela entrada, caprichar mais na dança, impor sua presença etc), algo que deve melhorar naturalmente com os anos e o lançamento do próximo disco, já no forno e cercado de expectativa.

Gostei tanto dessa tchurma que fui lá no Instagram da Madonna e deixei um recado. Years & Years na produção do próximo disco da Madonna seria meu sonho? Claro ou com certeza? 

Pra terminar, o vídeo de Shine, minha música favorita da banda (até agora). Lots of love and thanks!

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Lixo ou luxo?

O pop e a arte

"Artpop", de Lady Gaga: vendeu pouco porque é arte, ou é arte porque vendeu pouco?

Desde que Andy Warhol proclamou a era em que todos teriam 15 minutos de fama, a discussão sobre o que pode ser considerado arte só ficou mais confusa.

Digo isso baseado numa conversa com amigos em que esse debate, a certo ponto, ficou acalorado. Falávamos de Pablo Vittar, cantora drag queen brasileira, e a visibilidade que a artista vem alcançando na grande mídia (e não só em nichos específicos, como as boates GLS).

Se você já viu algum clipe de Pablo, vai concordar que a produção é caprichada, nível mainstream. As músicas do disco "Vai passar mal" (sucesso em streamings) remetem à MPB, ao funk, ao pop e ao eletrônico. Algumas faixas ganharam o toque de Diplo, um dos DJs mais famosos do mundo.

A voz é discutível. Mas é absolutamente louvável que uma drag esteja provocando o debate e, principalmente, fazendo seu ninho na imensa e democrática árvore da música. A recente parceria de Pablo com Anitta é apenas mais um indício.

A drag teve a faixa mais tocada no Carnaval do Nordeste ("Todo Dia") e começa agora a quebrar barreiras nas emissoras de rádio e TV voltadas ao grande público. Afinal, o que é pop e o que é arte nessa história?

Meus amigos não curtiram Pablo Vittar. Uma querida chegou a afirmar que esse sucesso todo faz parte de uma conspiração para emburrecer o público que consome música, a fim de que tenhamos uma geração ainda mais apática cultural e politicamente. Hummm...não sei.

No universo da música pop, é pouco provável que exista uma entidade, ou um governo, ou seja lá o que for, comandando um projeto ultrassecreto de emburrecimento em massa. O que temos é a famosa cultura massificadora, cujo alvo é mesmo o comércio, em distintos patamares.

Quando a ênfase é no desempenho comercial, a arte fica no prejuízo, é verdade. Mas não se apaga totalmente. Exemplo disso são os grandes artistas nacionais e internacionais, de Marisa Monte a Michael Jackson, detentores de vendas vultosas e, ao mesmo tempo, de trabalhos louváveis.

drag Pablo Vittar em "K.O.", recordista de views na internet.

A música e a dança, mesmo que resumidas ao funk libidinoso dos bailes cariocas, invocam expressões artísticas intrínsecas e indivisíveis, dificilmente aliadas ao descartável, mas facilmente atreladas ao lúdico. Daí a confusão em estabelecer o limite entre a quantidade (volátil e fundamental para o comércio) e a qualidade (perene e associada a manifestações mais sofisticadas).

Por muito tempo, acreditou-se que a arte só poderia ligar-se ao sublime, ao lírico, a uma espécie de luxo cultural, avesso ao popular, uma ideia que, aos poucos, vai sendo desconstruída.

Se partirmos do princípio de que arte é tudo aquilo que permanece e provoca reflexão (e nada mais), então ficaremos presos aos quadros, pinturas, instalações e esculturas das grandes e pomposas exposições. Por outro lado, se entendermos que da natureza da arte também floresce o entretenimento, o mundo ganha novos tons e possibilidades.

Não precisamos gostar de tudo. Nem negar o óbvio. É claro que nem toda arte entretém, e vice-versa. Há, por vezes, uma linha tênue entre ambos. Pode haver, num só pacote, mais arte e menos diversão. Ou mais diversão e menos arte. 

Prefiro considerar um show de Ariana Grande (ou da nem tão pop Tove Lo) uma espécie de simbiose composta pelos interesses da indústria e a arte de entreter. Recuso-me, assim, a desmerecer a arte implícita no canto, nos movimentos, nos figurinos e na própria iluminação que ajuda a incendiar as sensações.

Voltando a Pablo Vittar, não comprei o disco, não ponho pra tocar em casa, mas, vez por outra, gosto de admirar os vídeos e a classe com que essa drag queen consegue se expressar nesse mundo ainda tão opressor das minorias e atrapalhado quanto aos gêneros. 

Ouso dizer que a drag, por si só, incorpora na sua apresentação uma qualidade artística primordial, aquela que favorece, de uma forma mais ou menos cultural, a mudança, a transformação.

Não por acaso, Lady Gaga (que é quase uma drag, vai) deu o nome de "Artpop" a um de seus discos. Vendeu pouco, é verdade. Porque é arte. Mas vendeu. Porque é pop. É bem por aí.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Danos morais

Marcela Tavares é gozação

Marcela Tavares em Ribeirão Preto: eu tô ali, na primeira fileira. 

Não sei se foi só impressão, mas achei a Marcela Tavares menos engraçada ao vivo do que na internet. No Teatro Municipal de Ribeirão Preto, onde a facebooker (sim, você leu certo) apresentou o stand up "Danos Morais", foi tudo, sei lá, meio pombo.

A carioca que faz fama na rede social com seus vídeos politicamente incorretos (quase sempre descendo o sarrafo nos corruptos ou reclamando de quem escreve errado) pareceu meio nervosa e teve dificuldade para arrancar gargalhadas do engessado público ribeirãopretano.

Marcela foi mais aplaudida quando fez piada com a ex-prefeita Dárcy Vera e o atual Duarte Nogueira, um truque manjado dos humoristas pra ganhar a plateia da cidade onde se apresentam. A moça também se rendeu a outros clichês do teatro, como pegar um infeliz da plateia pra Cristo (dessa vez, foi um tal de Luiz, que ela insistia em chamar de feio).

Fora isso, teve "Fora, Temer" e de tudo um pouco que a gente já viu por aí: piadinhas escatológicas (muitas de mau gosto), palavrões e comentários duvidosos sobre minorias. Marcela Tavares até tentou ser espontânea, mas, assim como em qualquer stand up, as piadinhas, acredite, são programadas. 

Descalça, com um vestido curto (que, em alguns momentos, deixava sua calcinha à mostra para quem estava na primeira fileira) e usando brincos no formato de laranjas, a comediante se transformou, em pouco tempo, numa caricatura de si mesma e, tenho convicção, sente a pressão pra ser engraçada o tempo todo, o que, por vezes, soa exaustivo.

Foto do perfil de Marcela Tavares no Facebook.

Rápida no gatilho quanto o assunto é internet, onde costuma ser bem mais desenvolta que no palco, Marcela acertou em cheio em alguns detalhes. Antes de entrar, por exemplo, a gata troca mensagens e fotos engraçadas por whatsapp com a plateia, através de um telão, pra esquentar o público. Genial.

O vídeo de introdução do espetáculo, nesse mesmo telão, é hilário, talvez o melhor momento do show, com instruções e sugestões absurdas para os espectadores. No mais, é Marcela, baixinha que só ela, fazendo piadas, algumas razoáveis. Poucas são sensacionais. A maioria é chatinha, abaixo do nível de qualquer vídeo dela corrigindo os analfabetos funcionais desse mundo.

Não foi o melhor stand up que já vi. Aliás, não sou muito fã desse formato, a exemplo do que já escrevi sobre Paulo Gustavo em "Hiperativo" neste blog. Por outro lado, tenho um profundo respeito por quem se arrisca a ganhar dinheiro no teatro e, acima de tudo, dá a cara a tapa, correndo o risco de tomar processo, como é o caso da Marcela com sua metralhadora giratória.

Em "Danos Morais", sobra pra todo mundo: Temer, Marcela (a do Temer), Dilma, homens, mulheres, héteros, gays, religiosos, magros, gordos, bonitos e feios. Tem que levar na brincadeira, esse é o espírito. A gente sabe que por trás dessas piadas há algumas verdades, descontadas as provocações. 

Cabe a nós, com bom senso, fazer a distinção. E, no final, mesmo que com um sorriso amarelo, reconhecer o esforço da facebooker pra conquistar o seu lugar ao Sol nesse mundo tão chato, onde dar risada tá cada vez mais difícil. 

A nossa sorte é que o Brasil é piada pronta. E a Marcela Tavares é pura gozação.