Ai, não, para!
Chega dessas fotos mostrando café, sorvete, comida japonesa, porção de batata frita, chega! Você não me engana. Não está tão gostoso quanto parece.
Chega de postar você e o seu morzão, abraçados na ilha da fantasia, na cama dos sonhos, no jardim perfeito da vovó. O que é de verdade não precisa de publicidade nem autoafirmação.
Chega dos flashes com a família dó-ré-mi, você e seu bebê com cara de joelho, gritando para o mundo que ter filhos é padecer no paraíso, enquanto tenta se convencer dese engodo, feito sob medida aos desprovidos de personalidade e culhões.
Chega dos cliques nas festas incríveis, onde você aparece com roupa chique e maquiagem caprichada, tentando provar sua pseudo-beleza a um mundo que adora um photoshop na alma.
Chega das poses com os centenas de amigos no carnaval mais animado, no acampamento mais descolado, no retiro mais harmonioso e na pizzaria mais disputada. Sabia que amigos de verdade, para o que der e vier, são uma lenda?
Chega das frases feitas e pretensiosas, como se você tivesse conquistado alguma sabedoria, algum mérito, como se tivesse lido algum livro relevante. Só sabe repetir, copiar e colar, tem síndrome de papagaio. O verdadeiro conhecimento descansa no silêncio dos que sabem colocá-lo em prática, não no limbo virtual, povoado de ideias vazias e perecíveis.
Chega desse constrangimento de mostrar a todo mundo o que comprou na sua última ida ao shopping. Tem CDs, DVDs, cupcakes, a última temporada de Lost? Preferia ver um episódio ao seu lado, durante uma conversa despida de vaidade, em que me mostraria algo mais abstrato e menos tolo do que essa ânsia besta de exibir a matéria.
Chega de postar essas fotos da despedida cafona da turma do trabalho, a desculpa perfeita para você gritar a plenos pulmões como está sendo fabulosa a sua promoção.
Chega das charges engraçadinhas. Elas só me arrancam um sorriso amarelo e não são prova alguma de sua suposta espirituosidade.
Chega do diário do seu cachorro, das fotos de estupradores punidos com a mutilação de seus pênis, das suas sugestões vergonhosas de música e videos. Pior do que isso só mesmo você postando suas fotos ao acordar, em ação no trabalho, comendo pastel, fazendo carão, só para se convencer de que tem charme a qualquer hora. Parou pra pensar que talvez não tenha uma vida?
Ah, me responda: dar bom dia no Face, assim que você abre olhos, ou boa noite, quando bate o sono, não é o cúmulo da dependência, da solidão, do vício e da luta pela sobrevivência? Também vi que, dia desses, mudou seu status para: "Mais feliz, impossível". Para quê? É a prova definitiva de que a felicidade, essa bendita que perseguimos diariamente e que, vez por outra, dá o ar da graça, não faz nem sombra nesse seu universo mambembe, embaçado, desequilibrado, recheado da falsa e incompetente propaganda que cada um faz de si mesmo.
Por que eu estou aqui, então? Pelo blog, embora num momento de hesitação. Para exercitar minha paciência. Para achar graça e tristeza na humanidade. Para me solidarizar com os apaixonados pelos animais, estes, sim, seres iluminados e autênticos. E para discutir as últimas e frívolas novidades sobre a Rainha do Pop. Afinal, como seria possível tanta ojeriza a esse seu planeta se eu mesmo não tivesse uma pitadinha de futilidade?





