segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Medinho de nada

"A Freira": 
pode correr sem medo


O filme "A Freira" estreou quebrando tudo nas bilheterias e se firmando como mais um sucesso incontestável no universo de "Invocação de Mal". Mas, para quem esperava uma história sombria e realmente assustadora, deparou-se com uma obra de argumentos infantilizados e truques manjados do terror nas telonas. Enfim, ficou devendo. Rola aí pra baixo o meu top 10 dos motivos pra sair correndo dessa freira, sem medo.

1 - "A Freira" era o terror mais aguardado dos últimos dois anos, desde que a personagem apareceu no ótimo "Invocação do Mal 2", sombria e misteriosa. No seu voo solo, foi desperdiçada. Talvez porque James Wan (o pai de "Invocação do Mal"), que deveria ter dirigido o filme, tenha ficado na retaguarda da produção executiva.

2 - Os sustos, através do jump scare, são todos previsíveis. Não apavoram. Deixam apenas aquele sorrisinho amarelo. 

3 - A freira aparece mais quando o filme, graças a Deus, está acabando. Até a maldita dar as caras, tome freirinhas coadjuvantes, cruzes invertidas em chamas e muita neblina no cemitério que rodeia o convento.

4 - O roteiro e o texto parecem ter sido escritos por uma criança de doze anos, acostumada com vídeos do Youtube e conversas de Whatsapp. O argumento usado para explicar a existência do demônio é tolo e fantasioso.

5 - Por conta da linguagem fragmentada (sinal desses tempos internéticos), "A Freira" se salva por umas cinco cenas, aqui e ali, mais pelo apelo estético. Duas das melhores são a do ritual sobre um pentagrama e a da freira na água, porém nada que justifique o ingresso numa sala IMAX, de imersão total, como a que eu escolhi pra ver o filme.


6 - O alívio cômico nos filmes de terror, por meio de um ou mais personagens, vem se tornando muito frequente e irritante. Já vimos isso em "It- A Coisa" e na própria continuação de "Invocação do Mal". Funciona para quebrar a tensão, QUANDO O FILME É TENSO DE VERDADE. 

7 - Também ficou cansativo o discurso do sexo relacionado ao mal, à dúvida, à fraqueza de caráter e à culpa, ingredientes explorados por todo demônio que se preze. O começo e o fim de "A Freira" trazem, ainda que com certa timidez, sugestões eróticas entre os personagens principais, devidamente punidos em consequência disso. Sem mencionar o clichê máximo do mocinho salvando a mocinha nos momentos finais. Já deu.

8 - Os marqueteiros de "A Freira" estão de parabéns! A produção, orçada em 22 milhões de dólares, arrecadou mais do que o dobro disso, só nos Estados Unidos, no primeiro final de semana de exibição. Mérito da propaganda pesada, e não do terror, que fica só na superfície.  

9 - O trailer é muito melhor do que o longa. Acho genial como vende bem uma história que...não se sustenta. 

10 - Por causa do sucesso de bilheteria, já se fala numa sequência para 2020. Pode ajoelhar e começar a rezar por um filme mais empolgante.

**PS: O filme pode ser frustrante, mas eu exijo a bonequinha da freira pra fazer par com meu Freddy Krugger. Quero na minha mesa até o Natal. Fica a dica. 

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Livre

Adeus, Insta!


Colecionamos bons momentos, não tenho dúvidas. Lembra da nossa foto mais curtida, aquela selfie na Praia do Futuro, em Fortaleza? Ficou ótima.

Aos olhos do mundo, éramos um casal interessante. Nosso namoro durou bastante, foram cinco anos! Para os dias de hoje, em que amor pode ser sinônimo de voláteis corações digitalizados, isso é uma vida.

Mas...a vida muda, os sentimentos também, e as peças trocam de lugar, naturalmente. Você evoluiu muito desde que te conheci. Nossos cliques, embora esporádicos, ganharam filtros e um certo charme.

Eu também evoluí. Quando deixei meu caso anterior com aquele tal de Face, você parecia a opção mais leve e agradável nesse mundo "filtrado" pela imagem, do qual nos apropriamos tão bem.

Com os anos, fui percebendo que meu interesse diminuiu, embora estivéssemos mais juntos. Você, cada vez mais solto, colorido, interativo. Eu, na minha, querendo e precisando me autopreservar. Gosto do mistério.

Num último suspiro, tentamos abrir a relação e lucrar com a parceria. O desconto rechonchudo que ganhamos daquele sujeito que vitrificou a pintura do carro, em troca de um post, teria sido maravilhoso, caso eu não tivesse me sentido tão fútil e vendido.

A minha decisão de acabar com a nossa história não surgiu do dia pra noite, é bom que você saiba. Venho amadurecendo minha posição há meses, em silêncio. Finalmente, estou livre.




Não quis dar um tempo pra depois voltar. Não tive medo de errar no meu julgamento ou de confiar cegamente nos meus instintos. Eu tenho certeza. Excluí você definitivamente, e não foi fácil encontrar o caminho. Agora, posso me dedicar a refletir sobre o que vejo, ouço e leio, sem me render à sua demanda por instantaneidade, ansiedade, paquera e consumo. 

"Sacrifícios temporários, conquistas permanentes". Li isso num livro de motivação que se encaixou perfeitamente no nosso emaranhado existencial. Vou sacrificar as ilusões que me proporcionou e os "likes" que pouco me importam por mais serenidade e amadurecimento.

Não fique triste. Você tem companhia de sobra, gente realmente apaixonada, que faz questão de te carregar no bolso, ficar junto toda hora, fazer você de janela para o mundo, sempre sorrindo. Eu fechei a minha, porque gosto de abrir só de vez em quando, para o Sol entrar, junto com alguns poucos que escolhi.

Passear de mãos dadas contigo por esse vasto universo virtual foi delicioso, por um tempo. Cansei. Preciso mudar a rota, de tempos em tempos. Desse novo caminho, desculpa, você não faz parte. 

Guardarei as lembranças com carinho. Aviso, porém, que não vou olhar para trás. Não quero mais pequenos corações de canto, à espera de tentar preencher meus vazios ocasionais. 

Também dispenso os comparativos sociais permanentes que pulsam pela sua superfície. Sinto-me inteiro, com outras possibilidades, mais reais e palpáveis, à minha frente. Estou achando o máximo seguir só de agora em diante.

Um beijo, meu finado Instagram. Fique em paz, porque eu estou. Parei com os "likes". Prefiro comer fruta do pé.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Madonna, 60

A grande incompreendida

Madonna, by Romero Brito.
Imagem em: https://flog.vip/verluci/12450875

Eis que chegamos a este dia: 16 de agosto de 2018. Há exatos 60 anos, nascia Madonna. Preciso aproveitar a deixa para colocar alguns pingos nos "is". Em alguns casos, desenhar para quem ainda não entendeu como essa mulher, hoje praticamente uma lisboeta (entendedores entenderão), traçou (e ainda traça) contornos indeléveis nesta sociedade conturbada e carente de líderes de verdade.

Primeira lição: não sou um fã, desses inconsequentes, cegos, incautos. Sou um estudioso de Madonna. Fiz pós-graduação em Linguagens Midiáticas e Mestrado em Linguística, tendo como pano de fundo a obra riquíssima e contraditória da rainha do pop. Traduzindo: eu sei do que falo.

Em quase 35 anos de carreira, Madonna serviu como fio condutor para inúmeras transformações sociais que extrapolam o pop, entre elas a liberação sexual pós-Aids (com camisinha), o respeito às minorias (negros, gays), o empoderamento feminino (sem queimar sutiã) e a liberdade de gênero e pensamento.

Tudo o que se verbaliza hoje, em tons berrantes, seja nas redes sociais ou fora delas, Madonna já falou e continua falando. Do feminismo de batom à homofobia, passando pelo racismo e pelo sexismo, nomeie. Madonna se apoderou desses discursos desde os anos 1980, com propriedade e ousadia, no verbo e na arte.

A cantora durante show, este ano, no baile anual do Met Gala.
Foto em: https://www.breatheheavy.com/hallelujah-watch-madonnas-surprise-performance-at-the-met-gala/

A cartilha seguida à risca pelas cantoras pop contemporâneas (nos discos, nas roupas, nos discursos e nos shows), Madonna escreveu na raça. Ela não é Deus. Inclusive, nutre uma ideia bastante peculiar (mas não menos respeitosa) sobre Ele. Mas é preciso admitir que, se não inventou as montanhas e os oceanos, é a responsável por muitas das fórmulas que a cultura de massa embala e apresenta a essa geração de Arianas e Lovatos.

Madonna não é uma cantora de potência vocal. Sua voz é comercial, agradável, de alcance razoável e que, ao vivo, pode soar desafinada. Porém, encarnou com perfeição o espírito imagético dos tempos pós-modernos. 

É na imagem (do videoclipe aos shows) e nas mensagens (libertárias e até conservadoras, em alguns momentos) que Madonna se engrandece. É uma artista que se apropria de sexo, religião, família, casamento e comportamentos para oferecer sempre uma leitura do mundo à frente de seu tempo.

No trono, em homenagem a Prince, durante o Billboard Music Awards de 2016.
Foto: Chris Pizzello.

A rainha (título que lhe outorgamos por mérito), agora sexagenária, cometeu vários pecados mortais numa sociedade que insiste em silenciar não apenas mulheres fortes, mas todos os sujeitos que desafiam a moral e os bons costumes. Madonna foi uma das pioneiras no universo pop a encampar o sexo por prazer e fazer dessa rebeldia uma forma de contestação e provocação à hipócrita sociedade norte-americana.

Madonna falou pelos gays numa época em que ninguém ousaria. Madonna falou pelos negros quando Michael Jackson embranquecia. Madonna levou todas as minorias para o palco para que fossem protagonistas de seus espetáculos, onde mostra realmente a que veio. 

Nos estádios, na plenitude da ribalta, ela canta, dança e faz referências esteticamente perfeitas a cineastas, pintores, escultores, personalidades políticas e humanitárias que, como ela, recusaram-se a se apequenar diante dos desafios.

Como filantropa, Madonna faz mais pelos pobres da África (e até do Brasil, onde coordena projetos anônimos nas favelas) do que os políticos. No Malawi, onde adotou quatro filhos, a cantora ergue centros cirúrgicos e escolas. Mais do que saúde e educação, as obras representam esperança a um povo que só conhecia a fome e a morte.

Não vou detalhar aqui a discografia e a filmografia, repletas de sucessos que estarão para sempre no imaginário coletivo. Também vou pular a apimentada biografia que, em breve, estará nos cinemas para mostrar como Madonna enfrentou a pobreza e os abusos para se tornar um ícone incontestável de um século para outro. Aos 60, ela não parou, como muitos desejavam e esperavam. Prepara novo disco, vai dirigir mais um filme e promete outra turnê milionária.

Assim, Madonna, neste ponto de sua existência, desafia o discurso da decrepitude, da aposentadoria e da sexualidade proibida a quem envelhece. Entre seus maiores detratores estão as próprias mulheres, a quem, ironicamente, ela sempre deu voz. Muitas preferem que Madonna cale a boca, desapareça. 

Há as que a massacram pela aparência plastificada, pelo esforço em parecer jovem a qualquer custo, pelas roupas sensuais demais para "uma senhora" e pelo fetiche por homens mais novos. Pois acostumem-se: essa é Madonna, enfrentando, a seu modo, o mundo que condena, à revelia, quem ousa derrubar o padrão de juventude.

Madonna chega ao Met Gala 2018, cujo tema foi sexo e religião, sua praia.
Foto em https://www.jamesnews.com/met-gala-best-dressed-2018-rihanna-kim-kardashian-selena-gomez-more/2018-metropolitan-museum-of-art-costume-institute-benefit-red-carpet-new-york-usa-07-may-2018/

Madonna envelhece como quer, em público. Faz exercícios, alimenta-se bem e se submete a tratamentos estéticos caros, porque pode e precisa. Madonna é conteúdo e imagem. É escolha dela fazer o que achar necessário para se manter vendável no mercado machista e etarista da música. Sobretudo, é sua prerrogativa recorrer ao que bem entender para se sentir bem consigo mesma, sexy, ativa. 

Mãe de seis filhos, patrona da comunidade LGBTQ, celebridade solidária, cantora mais rica e famosa de todos os tempos. Madonna é tudo isso e também um ser humano. Ímpar. Em quem eu me espelho diariamente para atingir ao menos um décimo de sua grandeza, tão subestimada. Nesse vilarejo chamado Terra, habituado a se despedir cedo demais de seus grandes (Jackson, Whitney, Amy, Donna, Hendrix, Elvis, Prince, George...), Madonna se mantém como um pilar de força e obstinação.

Aos que a criticam, especialmente pela aparência "retocada", sugiro que façam uma autoavaliação. Encarem o espelho e depois as próprias fotos "filtradas" no Instagram, a fim de esconder as imperfeições a um bandinho de seguidores fúteis. 

Madonna se expõe para milhões, dá a cara (e o espírito) a tapa, para tornar esse planeta um lugar menos insuportável. Só por isso, seus críticos deveriam se recolher à sua insignificância. E, quem sabe, juntar-se aos que batem palmas para essa mulher, que não é perfeita. Mas tá quase lá.

terça-feira, 12 de junho de 2018

12 de junho

A gente escolhe

Imagem: https://www.expertnoamor.com.br/inseguranca-no-namoro/

Neste "Dia dos Namorados", nenhuma surpresa. Pencas de casais nas redes sociais celebrando o amor. Se você é desses que avalia o mundo pelo Instagram, então vai achar que o mundo está casado. Bobagem.

Os solteiros, arrisco a dizer, são maioria. O que acontece é que ficam intimidados e botam um pezinho na depressão quando se deparam com tanto "mela-mela". Entendo, mas é pura insegurança. A vida, sendo casado ou não, pode ser fabulosa.

Preferi fazer um post sobre o amor além das selfies. Defendo que é importante se amar primeiro (com toda a complexidade que essa descoberta envolve), antes de se meter num namoro. Aquele blá, blá, blá de autoestima que eu adoro. 

Choque: alguns seguidores deram unfollow imediatamente. Suponho que sejam os desprovidos de amor próprio e que gostam de um "relacionamento-tampão" pra disfarçar a solidão e outros demônios. Tá tudo bem, vão com Deus.

Pelo viés feminino, o 12 de junho ganha outra perspectiva. Muitas comentaram o post com entusiasmo, e não foram só as solteiras. Isso me encheu de esperança. Tem gente que pensa.

Aí me lembrei de outras mulheres que ainda pensam miúdo no universo amoroso. Famosas inclusive. 


A saudosa Whitney Houston cantava a independência emocional, mas fazia o contrário na vida privada. "It's not right but it's ok" é o hino da mulher que não aceita qualquer um nem qualquer coisa. No casamento com Bobby Brown, no entanto, Whitney apanhava e se afundou nas drogas. I will always love you até perde o sentido.

E não são apenas as mulheres que apostam as fichas em ciladas. Os homens também. É compreensível, porque a cobrança é real. 

A enxurrada de selfies de casais é o exemplo mais prosaico (e atual) dessa sociedade que só valoriza quem está acompanhado. E se esquece de que um relacionamento nem sempre é sinônimo de felicidade.

Uma seguidora me mandou um direct, dizendo que estava triste até ler o meu post sobre tocar a vida com alegria, com ou sem namorado. Abri um sorriso.

Logo depois, uma colega chegou perto e reclamou dos pombinhos nas redes sociais. O excesso de romantismo a deixou deprimida. E assim segue o mundo: bipolar. 

Lá vai clichê: se você não tem namorado, e quer um, relaxa. O amor acontece quando menos se espera, quando a gente está bem, sem "mimimi". De amor a gente precisa. Mas o relacionamento a gente escolhe. Beijos de luz.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Para inglês ver

Casamento REAL?


Os pombinhos Harry e Meghan já se casaram tem um tempo, diante dos olhos marejados do mundo, mas só agora venho a público expor o que, pelo menos a mim, soa como uma farsa bem enfeitada. São cinco observações nada românticas. Respira fundo e vai!

1 - Príncipe tem de seguir a tradição e se casar, gente. O ruivinho ficou com medo de passar da hora. Uma bobagem, é verdade. Mas, na monarquia, "ficar pra titio" ainda pega mal. Meghan, então, foi a bela mulher que apareceu na hora e lugar certos. 

2 - Filha de mulher negra, a noiva também é atriz de costumes contemporâneos. Era tudo o que a rainha queria para mostrar ao planeta que, apesar de tradicional, o reino também pode acompanhar o bonde da modernidade.

3 - Assim como a cúpula católica elegeu o descolado Papa Francisco para dar nova cara à Igreja (e, assim, parar a sangria de fiéis), a monarquia britânica escolheu seu casal vanguardista, pra não sair de moda.  

4 - Saca esse detalhe: pouco antes do famigerado "sim", uma leitura labial mais atenta revelou que Harry disse a seguinte frase à sua futura esposa: "Você está linda, eu tenho muita sorte". Suspirou, né? Pra mim, foi de propósito, só para inglês (e o mundo) ver. E vamos combinar que a noiva não estava lá nenhuma Lady Di.

5 - Moral da história: por mais que se tente dar um F5 no casamento, seja da realeza ou da plebe, não cola. O conto do príncipe e da princesa é a catarse perfeita para uma sociedade que ainda se ilude com o "felizes para sempre", mesmo sabendo que o "para sempre" sempre acaba (MPB feelings). União estável ou morar cada um no seu apê, nem pensar, né? Tá.

Aos que me acham demasiadamente cínico, peço calma e um chocolate. Sempre digo: acredito no amor. Só não deposito fé nesse teatro falido das convenções. Não nego que existe uma (remota) possibilidade de que o ruivinho e sua eleita estejam, de fato, apaixonados. O problema é a embalagem, descolada de seu tempo. 

REAL mesmo foi a Diana, mãe do Harry, que se divorciou, expôs sua tristeza, fez ruir o castelo de areia do reino perfeito e, tragicamente, morreu querendo ser apenas humana. O resto é fake. Ah, antes que eu me esqueça...Deus salve a rainha!

Do lado de cá

Vida de jornalista


A greve dos caminhoneiros foi a prova cabal de que vida de jornalista está longe, mas muito longe mesmo, de ser glamourosa.

Os vídeos de manifestantes colocando fogo nos carros de algumas emissoras são apenas a ponta do iceberg de uma realidade alimentada pela paranoia.

Primeira coisa: ninguém estava contra a greve. Nem a Globo. As reportagens deixaram isso claro e em momento algum vilanizaram os grevistas.

Segundo: a maioria dos caminhoneiros entendeu e tratou a gente com respeito. Mas houve uma minoria barulhenta. Colegas meus, entre repórteres, motoristas e cinegrafistas, foram agredidos, verbal e/ou fisicamente.

De microfone em punho, fui xingado mais de uma vez por gente que, quero acreditar, nem se dava ao trabalho de assistir à nossa cobertura na TV, sempre generosa com o movimento.

O que muita gente precisa saber é que não existe, da nossa parte, ninguém mancomunado com este ou aquele lado. Nessas horas, o que rola é a informação que transborda de todos os cantos.

A nossa missão é falar com todo mundo e dar um tratamento adequado à linguagem. A notícia não tem dois lados, como se presume. Tem vários.


Repórter não pode abrir o microfone só para um lado e abafar o outro. Temos a obrigação de ouvir quem parou de trabalhar, escutar seus motivos e reivindicações. 

Assim como temos de buscar a notícia nas outras pontas, sejam elas o governo, os comerciantes, os agricultores ou os motoristas que ficaram sem gasolina. 

Há uma falsa percepção, inclusive respaldada por algumas teorias do jornalismo, de que a imprensa é movida unicamente por interesses políticos escusos. 

Diante dos acontecimentos, o que vi foi um batalhão de jornalistas tentando passar a informação mais isenta possível. 

Graças ao que se viu na TV e nos jornais, em se tratando das consequências da greve, a pressão chegou. E a pauta foi atendida.

Não adianta bater na gente, xingar, botar fogo em carro e pedir intervenção militar. Até porque, numa ditadura, não é só a livre imprensa que cai. Caem junto os direitos individuais e os coletivos, INCLUSIVE O DE GREVE, garantido hoje pela Constituição.

Aplausos, aqui, aos caminhoneiros de bem que, unidos, provaram a sua força, sem violência, e deram um exemplo digno à sociedade. Estamos todos juntos na luta por um país melhor.

E meus cumprimentos aos colegas de imprensa que se arriscaram para levar os fatos (e não porrada) a quem precisava decifrar as múltiplas ramificações desse momento histórico. 

Paz.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Com amor

Valeu, Simon!


Existem duas formas de analisar "Com amor, Simon", em cartaz no Brasil. A primeira: muito "água com açúcar" para retratar a rotina de um jovem homossexual enrustido.

A segunda (e a que mais me interessa): é um filme que, de tão alegre, pode, paradoxalmente, ser um divisor de águas no jeito como os gays são retratados na telona.

Hollywood, convenhamos, sempre foi cruel com a turma do arco-íris. Ou a moçada é motivo de piada, ou morre de Aids, ou é discriminada até pelo cachorro.

Desta vez (oba!), o filme é feliz, um indício animador de que a realidade, antes tão estigmatizada, está mudando. Para melhor.

"Com amor, Simon" é baseado em um livro e tornou-se um filme despretensioso na forma e timidamente ambicioso no conteúdo, sob a batuta do diretor Greg Berlanti.

Simon, interpretado pelo simpático Nick Robinson, é um jovem gay com o dilema clássico: sair ou não do armário? 

Entre algumas lágrimas e muitos sorrisos, a história transcorre com uma mensagem sensata: a de que não importa a orientação sexual, e sim o caráter.

O personagem, portanto, sofre muito mais quando age com malícia do que pelo fato de gostar de rapazes.

O filme também brinca, de maneira leve, com alguns estereótipos equivocados acerca do universo colorido. Por exemplo, o de que os homossexuais são sempre afeminados, ou o de que todos os rapazes transam entre si, simplesmente porque são gays.

Simon faz o tipo heteronormativo: comporta-se como um homem heterossexual, o que não o impede de circular entre seus pares mais alegres.



A trilha do filme é uma belezinha, baseada no som deliciosamente cafona dos anos 1980 e 1990. 

E, nem de longe, o personagem sente o peso do preconceito da família ou fanáticos religiosos. Pelo menos no cinema, o mundo é tolerante e carinhoso com os diferentes.

"Com amor, Simon" é surpreendentemente pra cima e trata do tema com a naturalidade que falta, por exemplo, às novelas da Globo. Simon ainda se dá bem no final, transformado pelo amor que recebe, não pelo ódio.

"O problema de se assumir para o mundo é...e se o mundo não gostar de você?", ele pergunta. Fique tranquilo, garoto. Considerando os 40 milhões de dólares que o filme arrecadou só na terra do homofóbico Trump, eu arrisco a dizer que muita gente curtiu.

Valeu, querido.