sexta-feira, 24 de março de 2017

De graça?

O preço da vida


"Você se tornou não apenas um pesquisador melhor, mas uma pessoa melhor". Ouvi essas palavras da minha orientadora, Marília Rodrigues, ao final da defesa de minha dissertação de mestrado, na Universidade de Franca. O comentário generoso tirou uma tonelada das minhas costas.

O peso foi acumulado durante os dois anos em que me dediquei à pesquisa. Nesse período, fiz um acordo tácito com o universo. Para ter sucesso no mestrado, abri mão de quase todos os finais de semana e me afastei das distrações, de amigos, colegas e até do blog. 

O mais difícil foi lidar com a instabilidade emocional. Por vezes, chorei sozinho. Fazer um mestrado requer foco e paciência. Foram muitas as noites em claro para ler e escrever. A orientação nem sempre segue os caminhos que prevemos. Além disso, é preciso escolher muito bem as palavras no meio acadêmico, tão vaidoso quanto o televisivo.  

Pensei em desistir. O clima opressor, os prazos curtos, a exigência de inúmeras leituras e o cansaço me fizeram questionar a escolha. Porém, consegui uma bolsa com muito suor e estudo. Achei estupidez chutar o balde antes de chegar ao fim.

Cheguei, contrariando o senso comum sobre os geminianos, conhecidos por abandonarem o jogo no meio da partida. Isso me deixa ainda mais orgulhoso da minha dissertação, "A prática discursiva de Madonna: transgressão e conservadorismo na cena pop". 

Engana-se quem acha que foi fácil e que escolhi o tema só pra falar bem da Madonna. Foi um árduo processo de pesquisa para explicar o funcionamento discursivo da obra da artista, a partir dos pressupostos teóricos e metodológicos de Dominique Maingueneau, em "Gênese dos Discursos".

Escrevi 111 páginas (todas formatadas de acordo com as infinitas regras da ABNT), a maioria com desconstruções da imagem que eu nutria sobre a cantora, cujas mensagens comunicadas através de sua arte podem ser contraditórias e, para meu espanto, conservadoras.

Não vou entrar no cerne do trabalho. Logo ele estará disponível on-line, e pretendo disponibilizar o link por aqui. O meu intuito, neste momento, é reconhecer a força de algumas leis universais. Uma delas é que não se pode ter tudo. Precisamos escolher e focar. A outra é a lei do retorno. O bumerangue da vida é implacável. 

Não acabou. Estou no meio de um relatório para a Capes (que me concedeu a bolsa). Também preciso escrever um artigo acadêmico (a ser publicado numa revista) e fazer as últimas correções na dissertação, sugeridas pela banca (composta também pelas doutoras Camila e Aline, a quem serei eternamente agradecido). Só depois, nas minhas férias, vou comer um pastel na praia.


Essa caminhada me deu provas de que tudo tem seu preço. Toma lá, dá cá. Ganhei olheiras, perdi preconceitos. Trabalhar e estudar, sem muito descanso, testou minha resiliência e expandiu meus pensamentos. 

O conhecimento me faz poderoso de uma forma humilde e me permite falar, sem titubeios, sobre efeitos de sentido, enunciadores, enunciatários, semântica global, competência discursiva e outros termos, antes tão assustadores, hoje tão corriqueiros no meu linguajar.

Essa reconstrução de mim mesmo custou sessões de cinema, festas e até a convivência com meu companheiro, Ricardo, que se mostrou a melhor pessoa e merecedor do meu respeito, amor e consideração. Ele não só me deu o tempo de que precisava pra estudar, sempre que precisei, como foi assistir à minha defesa, ao lado da minha irmã, outro ser de luz, ambos com olhos de admiração e carinho.

Sou só gratidão. Inclusive ao meu chefe na TV, Chico Ferreira, pela compreensão, e à Maria Isabel, de Franca, por me hospedar por algumas noites. 

Ainda não sei para aonde esse mestrado vai me levar. Talvez para as salas de aula, como professor. Ou como aluno de um provável doutorado. Neste momento, entretanto, faço planos para voltar a ler os livros do Stephen King e ir ao cinema uma vez por semana. 

Mereço o descanso. Ser mestre, afinal, deu trabalho. Paguei o preço. Espero a recompensa. Em alguns aspectos, a experiência foi como uma cerca de espinhos entre mim e uma doce plantação de morangos. Foram vários os arranhões ao passar pela cerca. Chegou a hora de degustar as delícias.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Speak your mind

Cartilha de sobrevivência


Por conta do mestrado e outras prioridades, não atualizei o blog como gostaria este ano. Na verdade, como o considero um psicólogo virtual, posso concluir que, por uma série de motivos, estive mais equilibrado e precisei menos dessa minha terapia particular.

Como última postagem do ano, pensei em escrever sobre o tempo nos tornar menos pacientes com certas bobagens. Dizem que envelhecer traz sabedoria e tolerância. No meu caso, trouxe a habilidade de separar o joio do trigo com mais rapidez e eliminar da minha rotina o que (e quem) me irrita.

Isso inclui o monte de bestificados que postam foto de comida ou de seus relacionamentos de fachada. Também dei um basta aos sociopatas com transtorno narcisista e aos que chegam ao cúmulo de desejar feliz aniversário a si mesmos, com textos autoengrandecedores. Nunca dei conta de tanta asneira. Agora, menos ainda.

Gente, sério, tá feio demais. Busquem ajuda. Ou, pelo menos, fiquem longe de mim. Porém, em vez de vociferar sobre minha paciência esgotada, prefiro deixar aqui, como despedida de 2016 (tchau, querido!), o discurso de Madonna no Billboard Women in Music, que deu a ela o prêmio de mulher do ano.

Madonna não foi reconhecida só por sua extraordinária carreira, mas principalmente pelo que ela representa: uma artista que se notabiliza pelo combate a tudo aquilo que engessa a humanidade, de preconceitos a política. 

As palavras de Madonna calaram tão fundo na plateia, e repercutiram tão bem na internet, que passaram a ser usadas como cartilha de sobrevivência em publicações de autoajuda e manuais de sucesso para empresários e empreendedores. 

Eu sempre digo: Madonna nunca é só sobre música, megashows, clipes e fama estratosférica. Madonna sempre foi sobre a vida. Se você é um ser humano que anseia por um mundo melhor, e se identifica com pessoas fortes e verdadeiras, impossível, ao menos, não admirar essa mulher fantástica. Com vocês, a mulher do ano. E do último século. E do último milênio. Não precisa ficar de pé, mas pode chorar, se não aguentar. Por mais Madonnas no mundo. E um feliz 2017.



“Estou aqui, em frente a vocês, como um capacho. Quero dizer, como uma artista feminina. Obrigada por reconhecerem minha habilidade de dar continuidade à minha carreira por 34 anos diante do sexismo, da misoginia gritante, do bullying e do abuso constante.
As pessoas estavam morrendo de AIDS em todos os lugares. Não era seguro ser gay, não era legal ser associada à comunidade gay. Era 1979, e Nova York era um lugar muito assustador. No meu primeiro ano [na cidade], eu fiquei sob a mira de uma arma de fogo, fui estuprada num terraço com uma faca na minha garganta e tive meu apartamento invadido e roubado tantas vezes que parei de trancar as portas. Com o passar do tempo, perdi para a AIDS, ou para as drogas, ou para as armas quase todos os amigos que tinha. Como vocês podem imaginar, todos esses acontecimentos inesperados não apenas me ajudaram a me tornar a mulher ousada que está aqui, mas também me lembraram que sou vulnerável e que, na vida, não há segurança verdadeira exceto sua autoconfiança.
Eu me inspirei, é claro, em Debbie Harry, Chrissie Hynde e Aretha Franklin, mas meu muso verdadeiro era David Bowie. Ele personificava o espírito masculino e feminino, e isso me agradava. Ele me fez pensar que não havia regras. Mas eu estava errada. Não há regras se você é um garoto. Há regras se você é uma garota. Se você é uma garota, você tem que jogar o jogo. E que jogo é esse? Você tem permissão para ser bonita, fofa e sexy. Mas não pareça muito esperta. Não aja como se tivesse uma opinião que vá contra o status quo. Você pode ser objetificada pelos homens e pode se vestir como uma prostituta, mas não assuma e não se orgulhe da vadia em você. E não, eu repito, não compartilhe suas próprias fantasias sexuais com o mundo. Seja o que homens querem que você seja e, o mais importante, seja alguém com quem as mulheres se sintam confortáveis por você estar perto de outros homens. E, por fim, não envelheça. Porque envelhecer é um pecado. Você vai ser criticada, humilhada e, definitivamente, não tocará nas rádios.
Eventualmente, fui deixada em paz porque me casei com Sean Penn e estava fora do mercado. Por um tempo eu não fui considerada uma ameaça. Anos depois, divorciada e solteira, fiz meu álbum ‘Erotica’, e meu livro ‘Sex’ foi lançado. Eu me lembro de ser a manchete de cada jornal e revista. Tudo que lia sobre mim era ruim. Eu era chamada de vagabunda e de bruxa. Uma das manchetes me comparava ao demônio. Eu disse: ‘Espera, o Prince não está correndo por aí, usando meia-calça, salto alto, batom e mostrando a bunda?’ Sim, ele estava. Mas ele era um homem. Essa foi a primeira vez que eu realmente entendi que mulheres não têm a mesma liberdade dos homens.
Eu me lembro de desejar ter uma mulher para me apoiar. Camille Paglia, a famosa escritora feminista, disse que eu fiz as mulheres retrocederem ao me objetificar sexualmente. Então, eu pensei: ‘Se você é uma feminista, você não tem sexualidade, você a nega’. E eu disse: ‘Dane-se. Eu sou um tipo diferente de feminista. Sou uma feminista má’.
Eu acho que a coisa mais controversa que eu já fiz foi ficar aqui. Michael se foi. Tupac se foi. Prince se foi. Whitney se foi. Amy Winehouse se foi. David Bowie se foi. Mas eu continuo aqui. Eu sou uma das sortudas, e todo dia agradeço por isso. O que eu gostaria de dizer para todas as mulheres que estão aqui hoje é que as mulheres têm sido oprimidas por tanto tempo que elas acreditam no que os homens falam sobre elas. Elas acreditam que elas precisam apoiar um homem. E há alguns homens bons e dignos de serem apoiados, mas não por serem homens, mas porque valem a pena. Como mulheres, nós temos que começar a apreciar nosso próprio mérito. Procurem mulheres fortes para que sejam amigas, para que sejam aliadas, para aprender com elas, para que se inspirem, se apoiem e se instruam.
Estou aqui mais porque quero agradecer do que para receber esse prêmio. Agradecer não apenas a todos que me amaram e me apoiaram ao longo do caminho. Vocês não têm ideia de quanto o apoio de vocês significa. Mas para aqueles que duvidam e para todos que me disseram que eu não poderia, que eu não iria e que eu não deveria. Sua resistência me fez mais forte, me fez insistir ainda mais, me fez a lutadora que sou hoje, me fez a mulher que sou hoje. Então, obrigada.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Bateu no poste

Mamada!



Vi "A garota no trem" no cinema e aviso: se o Oscar não for para Emily Blunt, farei um protesto, nu, na Avenida Paulista. Mentira. Mas é fato que Blunt entrou para o hall das grandes atrizes, cuja cadeira de honra ainda é de Meryl Streep.

O filme nem é tudo isso, fica devendo ao livro, ao contrário de "Garota exemplar", suspense na mesma linha e que foi brilhantemente adaptado para as telonas por David Fincher. O que mais me chamou a atenção, porém, foi a personagem central de "A garota no trem", uma alcoólatra triste, desacreditada e suspeita de um crime brutal.

Já escrevi um par de textos sobre os constrangimentos que os bêbados podem protagonizar. Eu mesmo não escapei de alguns. Sem falar no risco à segurança. Não vou negar o prazer que um copo de cerveja gelada ou um bom vinho podem proporcionar. Também gosto de tomar um Cosmopolitan de vez em quando. Aí é que mora o segredo: no "de vez em quando".

Nossa sociedade, contudo, segue embriagada com a cultura de incentivo ao consumo de álcool, sem se dar conta da dimensão do perigo. Nas redes sociais, as fotos de festas, geralmente com bebida envolvida, são as campeãs de curtidas. Há um consenso de que segurar um copo é legal, bacana, sinônimo de gente descolada, que sabe o que faz. Não sabe.

Outro dia, uma colega enfiou a cara no poste depois de sair de um bar onde encheu a cara com a turma. Saiu gargalhando. Agora, chora de dor pra dormir, ficou toda arregaçada. Está cercada de gente mamada, que fala em beber o tempo todo, em sair pra tomar uma, que discute preços de caixas de cerveja, combina o próximo porre, acha graça quando alguém passa mal e parece disputar quem tem a relação mais próxima com a divindade alcoólica a quem os mamados parecem servir.  

O Deus da cachaça, é bom que se diga, é da pá-virada e não costuma mostrar sinais de compaixão. Quer mais é ver o circo pegar fogo e deve estar rindo à toa com os mais alegres, aqueles que bebem até cair e chamam o Hugo com a cara na privada.


A publicidade se encarrega de agregar ao álcool a farra na praia e a mulher boazuda. As redes sociais promovem perfis específicos para cachaceiros, com frases mergulhadas no bom humor. E algumas garrafas são pura zombaria no próprio rótulo. Beber tem associação direta com o riso. Só que quando o corotinho passa a ser necessário a qualquer diversão, só o "AA" ou Jesus na causa.

Aí me lembrei daquela garota que fez um perfil falso e postou fotos com bebidas, para depois revelar que era alcoólatra e que não havia motivo para as milhões de curtidas. Aí me lembrei da moça que, anos atrás, se espantou quando revelei a ela que prefiro refrigerante a cerveja. Aí me lembrei de "A garota no trem", da colega que enfiou o carro no poste e de tantos outros que se acostumaram a viver entorpecidos, porque isso, para a nossa sociedade alcoolizada, é o padrão.

Não estou dizendo que sou melhor que os outros, mas daqui, do lado sóbrio da vida, tenho uma visão cinzenta dos que estão do lado de lá, com seus copos em punho. Folks, please, menos álcool, mais consciência. Pipoca, pizza, música boa, conversas saudáveis e beijo na boca, sem gosto de pinga, também são divertidos, acreditem. 

Concordo que a realidade pode ser um porre, que uma cervejinha ajuda a relaxar e a aliviar o lado assustador da sobriedade. O problema é casar com a ceva. Melhor deixar a gelada como amante, para momentos transgressores. Para os demais, que tal variar? Ao contrário do que dizem, brinde com água não dá azar. E faz bem para à saúde. 

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Pop deprê

Tirem o Instagram da Madonna

Acreditem: essa é a Madonna, de palhaça, no Halloween.

Madonna ficou meio boba. Eu sei, pareço louco escrevendo isso. Quem me conhece sabe que admiro e estudo essa mulher desde a adolescência. Mas a rainha do pop é mais uma vítima da imbecilização provocada pelas redes sociais.

Assim como milhares de fãs, estava acostumado com Madonna lançando discos e clipes maravilhosos, fazendo turnês fantásticas, sendo incrível e quase intocável. Seu contato com o mundo e a imprensa, na minha cabeça, era mediado por uma assessoria competente, à sua altura. Só que não.

Alguém tira o Instagram da Madonna? A conta da cantora na rede é uma bagunça. Fotos embaçadas, frases bestas, exposição desnecessária da família e prova de que a mulher já teve dias mais produtivos e ocupados.

Por outro lado, Madonna está feliz. Genuinamente. As postagens soam tão tolas quanto sinceras. Tem a Madonna de palhaça, a Madonna zoando os próprios filhos, a Madonna em festas com os amigos, a Madonna bem-vestida, a Madonna malvestida, a Madonna feia, a Madonna bonita, a Madonna espirituosa (sim, algumas postagens se salvam), a Madonna batendo boca com internautas (às vezes, ela esquece que é a Madonna), a Madonna sem maquiagem, a Madonna sem foco, a Madonna em HD, a Madonna de tudo que é jeito, com e sem filtro.

No Insta, Madonna sabe ser linda, quando quer.

Não sei quando teremos um novo disco ou turnê (o último, Rebel Heart, é de 2015), mas a Madonna anda serena, com um sorriso típico de quem já faturou um bilhão, ajuda a salvar a África e tá andando pro resto. Diferente de outras aí que, vira e mexe, revelam ser um poço cada vez mais fundo de problemas, a despeito dos perfis irretocáveis na internet. Adele? Sempre digo: de tão chata, nem ela se aguenta. Em recente entrevista para a revista Vanity Fair, a fofinha revelou que já teve depressão e que odeia fazer shows, não quer mais aplausos, só quer filhos. Em uma palavra? Problemática.

Lady Gaga lançou disco novo, meio country, dividiu a base de fãs com a mudança de estilo e soltou na mídia que também é deprê. A tresloucada surgiu em 2008, com um quê de revolucionária, é talentosa, mas logo foi se apagando até se tornar confusa. Quando está no palco, não consegue disfarçar a melancolia por ter se tornado escrava da indústria, monstro que alimentou, e agora agoniza para tentar se desvencilhar de seus tentáculos. Em resumo: problemática.

Britney Spears é o melhor exemplo de como é possível ser decadente com pose. Não emplaca mais nada, não influencia mais ninguém, não consegue se virar nem com o videoclipe, plataforma que dominava. Faz show em Las Vegas e mantém o status de diva adolescente que teria dado a volta por cima, após anos drogada e perseguida pelos paparazzi. De certa forma, deu. Emagreceu e cria os filhos com dignidade. Artisticamente, no entanto, definhou. A voz piorou. Não dança com o vigor de outrora. Esticou a boca até o limite do ridículo. E o último CD, apesar de uma ou outra faixa interessante, fracassou. Detalhe: Britney age como um robô sob os holofotes, sendo obrigada a se apresentar, a dar entrevistas (constrangedoras), a fingir que canta. Seu nome, afinal, ainda rende uns trocados aos empresários e à família que controlam sua carreira. De novo: problemática.

Entre as mais jovens, vamos lá: Selena Gomez se internou em uma clínica de reabilitação. Ariana Grande, após um começo promissor, agora faz a piranha, cantando uma música sobre transar até não conseguir mais andar. Beyoncè grita independência, mas é submissa ao marido. E Rihanna é muito louca pro meu gosto.

Madonna em montagem com Hillary no Instagram: apoio.

Você pode achar que este texto é uma maneira disfarçada de confirmar o que friso com frequência, que a Madonna é superior a qualquer candidata ao estrelato supremo. Pois deixa eu te dizer uma coisa: é exatamente isso. Por mais que a veja hoje como um ser humano sujeito às mesmas idiotices nossas, não tem jeito: tá ali, num nível acima, rindo de si mesma, gozando do que já conquistou, do nome intocável que construiu, sem se afundar nessa teia de embaraços que engole as demais. Nunca vi Madonna drogada, caindo de bêbada. Nunca vi Madonna deprimida. Nunca vi Madonna fazer um show ruim. Nunca vi Madonna reclamona. Nunca vi Madonna numa entrevista tosca. Nunca vi Madonna decadente. As vendas diminuíram, é verdade, mas me refiro à decadência moral, pessoal e artística. NUNCA. 

Que me desculpem os admiradores das outras divas. Admiro muitas delas, em algum nível. Mas é fato: Madonna, QUASE SESSENTONA, depois de revolucionar o pop e as polêmicas por mais de três décadas, continua em voga, continua digna, continua moderna e, acima de tudo, íntegra. O trono dela, ainda que seu Instagram seja todo errado, jamais será de outra. Aceitem. Mas, por favor...alguém tira o Instagram da Madonna? Melhor: tira não! Mudei de ideia. Morro de dó, mas me divirto.

domingo, 25 de setembro de 2016

Lealdade

Prefiro os cães


"Quanto mais conheço as pessoas, mais amo meus cachorros". Concorda? Eu, sim. Tive dois peludos que significaram mais para mim do que muita gente. De lá pra cá, pouca coisa mudou na minha relação com os humanos. Eu não sou muito fã de gente. Prefiro os animais.

Vou me abster dos clichês. Não quero ficar de "mimimi". Basta dizer que cachorro não fala, mas ama. Já os homens... Coitados, quanta pretensão!

Meu apreço pelos bichos só cresce quando os comparo com essa raça que se autodenomina superior. Muito dessa comparação é automática e vem da profissão. Como jornalista, tenho feito muitas reportagens sobre coisas ruins, retratos do mal-feito relacionados a depositários da confiança coletiva.  

Corrupção, mentira, hipocrisia, interesses mesquinhos, dinheiro sujo, políticos que não valem um sorriso. Tudo isso é uma amostra da natureza humana. Não acredito que todos sejam assim. Mas aposto que a maioria faria a mesma coisa se tivesse a chance. O lema é se dar bem, e nem precisa ser letrado em História do Brasil pra chegar a essa conclusão. Basta olhar ao redor. 

Humanos gostam de enganar e de ser enganados. Gostam do teatro. Relacionamentos amorosos, especialmente os das celebridades, são campos férteis para esse tipo de demonstração corrupta. Fátima e Bonner, Angelina e Brad... Alguém acha mesmo que eram famílias de comercial de margarina? Com os cachorros, é muito mais simples: ou gostam, ou não. Não há publicidade nem encenação.

Sejamos honestos: Brangelina era puro marketing. Lindos de morrer. E mergulhados em traumas e vícios invisíveis aos meros mortais. As fofocas dão conta de que estavam separados há muito tempo. Assim como o casal global. Mas só agora tudo veio à tona, disfarçado de formalidade. Fomos enganados. Adoramos a farsa. Alguns latidos e rosnados teriam soado mais sinceros, porém menos espetaculares.

Sabemos, afinal, que o amor pode acabar. Pode virar amizade. Pode virar nada. Entre os humanos, fim de relacionamento virou circo. Entre os peludos, a gente nem repara que acabou. E sempre continuam amigos, percebe?


Não sei se os cães seriam tão leais e amáveis se soubessem se comunicar como a gente. Seriam também corruptíveis, volúveis, egocêntricos e malvados? A incapacidade de se comunicar com palavras e produzir cultura é um impeditivo para o caráter torto? Talvez.

Mas ainda tenho convicção de que todos, humanos e animais, temos uma natureza que se expande conforme as oportunidades. Os cães (e outros tantos bichos), sempre que estimulados, desenvolvem-se sem abandonar a lealdade, a amizade, o bem-querer. Agem por instinto e também pelo coração. Muitos de nós (racionais?) passamos vergonha.

Conheço boas pessoas, não vou mentir. Tão boas quanto os cães que já cruzaram o meu caminho. Mas, que me desculpem, não coloco a mão no fogo por nenhuma. Talvez porque eu tenha consciência das minhas próprias limitações, diante do esforço em me manter honesto, haja o que houver. Miro, portanto, os cães. Não os meus tristes semelhantes. 

Esse da foto é o Fred, cachorro adotado pelo meu companheiro. É um vira-latas simpático e estabanado. Pulou tanto em mim que cheguei a achar que a nossa amizade não daria certo. Foi questão de tempo até ele se acalmar, me lamber e perceber que prefiro ficar "na minha". Posou pra selfie. Ganhou petiscos. Simples assim. 

Mais simples só Marylin Monroe em sua perspicaz e elementar observação: "Os cães nunca me mordem. Só os humanos".

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Eu dou três palmas

Anitta, me explica?
Anitta, em foto de divulgação: ela tem seu valor, mas mensagens são ambíguas. 

Eu não ouço Anitta nem ligo para os clipes dela. Não digo isso porque a acho ruim. Ou porque meu gosto musical é o mais apurado do planeta. A mulher é gata e tem seu valor artístico. Só não há nada no pacote que tenha me fisgado.

Anitta, porém, ganhou meu respeito. O motivo é uma entrevista que ela concedeu, logo depois da abertura das Olimpíadas, a um desses jornalistas experientes que adoram cantar de galo. Ele quis botar banca com a Anitta e...tomou na testa.

Vou resumir: o tal jornalista insinuou que a Anitta que cantou no Maracanã foi uma personagem criada convenientemente para a ocasião, porque não rebolou, não abusou da sensualidade, não mandou o show das poderosas na cara da society. Ele também deu a entender que a cantora não era merecedora de se apresentar ao lado de Caetano e Gil, por ser de uma outra geração.

É claro que o digníssimo apresentador não usou exatamente estas minhas palavras. Como também sou jornalista, no entanto, decifrei o tom, as intenções, as cutucadas disfarçadas. A minha interpretação pode até não corresponder às intenções do meu colega de profissão. O fato é que o discurso só circula a partir da sua leitura pelo outro. Ao que tudo indica, Anitta "leu" seu inquisidor da mesma maneira.

E aí eu preciso bater três palmas para a garota. Com elegância, ela respondeu que não está limitada às músicas que canta. Disse que, quando nasceu, Caetano e Gil já existiam, portanto já os ouvia e os conhece bem. Segundo Anitta, a música se renova para dar lugar a outros talentos, sem que isso signifique apagar a história.

Cá com a gente: a moça foi direta, articulada e não se intimidou. Mostrou ter cultura, conhecimento. O jornalista, coitado, deve enxergá-la só como um par de seios perfeitos e uma bunda em que jamais vai encostar a mão.

Não o culpo, a despeito da antipatia. Anitta faz parte de uma levada de cantoras pop comunicadoras de mensagens ambíguas. Diante da obra que nos é apresentada, é mesmo difícil saber o que estão querendo dizer. 

Testemunhamos essas beldades rebolativas se insinuando para os homens nos clipes, nos shows, na TV e nas redes sociais. Tudo bem. A liberdade sexual (com consciência) deve ser celebrada, contudo nos faz esquecer que pode haver mais por trás dela do que o exibicionismo faz supor.

Anitta vem na mesma esteira de outras celebridades que surpreendem pela postura de mulher empoderada em seus espaços associados, ou seja, longe dos palcos. Valeska Popozuda, acreditem, não é só um mulherão com voz rouca e duas coxas plus size. Prestem atenção no que ela fala (não necessariamente no que ela canta). Nas músicas, Valeskão solta palavrão e quer transar, sim, e daí? Nas entrevistas, o buraco (sem duplo sentido) é mais embaixo. 

Lá nos States, a música pop tem cenário similar. Taylor Swift, Rihanna e Ariana Grande, por exemplo, estão imersas nessa temática sexualizada e, ao mesmo tempo, conscientes de seu papel no mundo. As três adoram namorar, são jovens, nada mais natural. Cantam e dançam como se estivessem no cio. Faz parte desse jogo teen nas paradas de sucesso. Em entrevistas publicadas mundo afora, esforçam-se para passar outra ideia. Aparentemente, nenhuma delas quer ou precisa de um homem pra se validar. Como mulheres, protestam. Como artistas, alimentam o jogo machista bancado pela indústria da música.

Beyoncè em ação: empoderamento só nos palcos.

Assim, nesse festival de ambivalências, a vida segue também para Beyoncè, numa lógica do avesso. A artista lançou um disco sobre o relacionamento conturbado com o rapper Jay Z (que a teria traído mais de um vez), mas não ousa separar-se dele e tocar o próprio barco. Nas músicas, a cantora grita feminismo, independência, igualdade racial. Na vida privada, submete-se ao patriarcado, afina o nariz, embranquece a pele e manda um recado, no mínimo, contraditório.  

Imagino o quão difícil deve ser colocar-se como mulher neste mundo formatado pelos e para os homens. As divas do pop, sob a luz dos novos tempos, são reflexos inconstantes dessa transformação que talvez as leve para uma expressão mais coerente de seus trabalhos e biografias. Por enquanto, muito se fala, pouco se faz. 

Mulher tem todo o direito de ser gostosa, bonita, rebolar e ainda mostrar talento, inteligência, versatilidade. Merece respeito com ou sem minissaia. Disso não tenho dúvidas. O desafio é convencer os jornalistas do mundo que a geração de Valeska e suas contemporâneas pode ser todo esse mosaico aleatório. Bateu confusão? Já sei! Anitta, me explica?   

sábado, 14 de maio de 2016

Escrava de curtidas

Prazer, Jujuba


Jujuba é uma balzaca que adora rede social. Curte um monte de fotos e adora ser "curtida". É uma escrava de likes.

Sempre que se sente deprimida, posta foto fazendo biquinho e ganha um monte de fãs que a acham gostosa. Na verdade, é insegura, mas ninguém sabe. Debaixo do cobertor, desarrumada, Jujuba se sente solitária e pouco atraente. Nada que algumas curtidas não resolvam. 

Jujuba tem amigos de balada, sai bastante e tira muitas fotos. Ela posta pelo menos uma por dia, virou vício. Quando vê o coraçãozinho vermelho pulsando de curtidas no Insta, vibra por alguns minutos. A felicidade é instantânea, quase uma droga. Jujuba precisa de mais, muito mais.

Então, ela posta foto da comida que preparou, ou da barca com salmão que chegou na mesa do bar. Ela posta foto com a colega loira e sarada de quem sente um pouquinho de inveja, mas...ninguém sabe. Ela posta foto de biquíni na piscina da chácara dos tios, com óculos escuros e cabelos ao vento, exibindo a barriga chapada. Logo abaixo, uma frase de Caio Fernando de Abreu, só pra disfarçar o impulso narcisista. 

A cada foto, inúmeras cantadas, versos safados de moças e rapazes protegidos pelas telas de seus celulares e que oferecem, no lugar de uma boa pegada em carne e osso, uma carinha simulando uma piscada de olho, ou com a linguinha de fora. Jujuba fica feliz, sem se dar conta de que essa roda viva só aumenta o vazio existencial do qual ela sempre reclama.


Jujuba não lê muito, só alguns posts nas redes sociais. Também não vai ao cinema, acha chato, os filmes são longos. Vê muita TV, sem prestar muita atenção. Fez faculdade, conseguiu um emprego num escritório e ganha o suficiente pra pagar o aluguel, comida, roupas e maquiagem. 

Jujuba já teve alguns namorados, mas agora está na caça. Não gosta de ficar solteira, mesmo já tendo experimentado a terrível solidão a dois. Não sabe conversar sobre muita coisa, mas tem uma bela bunda. Dá uns beijos de vez em quando. E posta frases de mulher bem resolvida assinadas por uma tal de Clarice Lispector.

Jujuba vai à academia três vezes por semana, às vezes duas. Malha menos do que deveria. Fica distraída com o celular, sempre na mão. Curte caras sem camisa e a Rihanna. Não sabe se é a favor ou contra o impeachment da Dilma. Posta foto em frente ao espelho, com roupa de ginástica, depois volta pra casa e posta outra, na cama, mandando beijinho de boa noite aos seguidores.

No dia seguinte, antes de sair para o trabalho, já maquiada, posta foto para dar bom dia. No carro, olhando pelo retrovisor com jeito sexy, tira mais uma e posta também. Por instantes, sente-se interessante. As fotos são um sucesso. Mas o coração que Jujuba ganha, por enquanto, é só aquele do Insta mesmo, vibrante, não para nunca! Tá tranquilo. Tá favorável. Ela vai se sentir triste. Não vai entender o porquê. Sem problemas. Daqui a pouco ela posta outra foto. E todo mundo ama a Jujuba. Tudo numa boa.

**As fotos que acompanham o texto são meramente ilustrativas. Jujuba é personagem fictícia, apenas inspirada em tantas Jujubas que saltitam por aí. Se você se identificou com ela, ou conhece alguém assim, guarde para a terapia.