sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Casado ou solteiro?

À primeira vista

Já vou logo avisando que não acredito em amor à primeira vista. Interesse, sim. Atração, com certeza. Mas o amor, aquele que faz a gente suspirar só de ver o outro dormindo, esse leva tempo, paciência.

Na TV, ironicamente, um dos meus programas preferidos se chama "À primeira vista". Vejo mais pelos casais constrangedores que topam tamanha exposição do que pela qualidade da atração, provavelmente cópia de um similar estrangeiro. 

Ali, casais dos mais variados perfis se jogam num encontro às escuras, durante um jantar. O resultado é hilário. Além do fator entretenimento (afinal, o ridículo alheio sempre nos diverte, seja por identificação ou repulsa), o programa se revela um curioso laboratório sociológico.

É possível constatar, por exemplo, como o ser humano pode ser diverso e complicado. Tem mulher com mais de 50 anos que não topa ter sexo antes do casamento; tem cara bissexual procurando parceira de mente aberta; tem garota geek rejeitando pretendente porque ele não é fã de Star Wars; sem falar nos rapazes que só falam em musculação, e por aí vai.

O que mais chama a atenção, porém, não é o cardápio insípido que circula pelas mãos dos solteiros em busca de um par, mas os motivos óbvios que levam tanta gente a continuar avulsa contra a vontade. A maioria não aceita o diferente e reforça a teoria de que somos todos narcisistas buscando confirmar no outro nossas próprias características. 

Uma coisa é certa: no universo afetivo, se não abrirmos exceção na lista de exigências, ninguém entra. Não existe ser humano capaz de preencher todas as caixinhas dos nossos caprichos. Se você deseja alguém que seja, ao mesmo tempo, rico, bonito, jovem, inteligente, sexy, bom de cama, fiel até diante do Thor pelado, que baixe a cabeça pra tudo e jamais escreva uma frase com erros de português, é melhor reconsiderar.

O programa "À primeira vista" é, assim, uma vitrine da nossa inflexibilidade, irmã bastarda da solidão. Reflete ainda, em tons agressivos, o machismo que pulsa forte nas próprias mulheres. Raras são as que racham a conta sem reclamar. Quase todas consideram isso uma falta de cavalheirismo do sujeito. Não se iluda: ainda tem mulher achando que, para ser bem tratada, precisa de homem puxando a cadeira e abrindo a carteira.

Nos episódios, os pretendentes concordam ou não com um segundo encontro. A minoria arrisca. Quase todo mundo declina da oportunidade de conhecer melhor o outro porque o santo não bateu. Até entendo. Mas tem muita gente ali que dispensa o par por critérios tolos. E elimina a chance de, quem sabe, descobrir um verdadeiro amor.

Esse "verdadeiro", é bom que se diga, só aparece com um tripé clássico, formado por condições indispensáveis ao prazer afetivo: a química (que geralmente vem primeiro), as afinidades (sim, objetivos em comum são importantes) e diferenças que sejam complementares, conciliáveis. É com as diferenças, e não com as similaridades, que a gente vai ser testado e perceber se ama mesmo. É com elas que a gente vai aprender a respeitar o outro e a enriquecer a alma. 

Claro que tem diferença que não cola. Lógico que tem afinidade que não basta. Sem a química, nada disso dá liga. Vai de cada um perceber se vale a pena. O que se vê na TV, contudo, é um festival de rejeições bestas porque o par falha em ser idêntico, o que, humildemente, acho um erro.

Da minha parte, o que posso dizer é que, de alguma forma, houve um encaixe. Não perfeito, mas muito satisfatório. Pra mim, se é do bem, escova os dentes, batalha e me respeita, fechou. O resto aprendi a negociar. Além disso, não considero a solteirice uma moléstia mortal, não me desespero pra ter alguém e não sou adepto de fazer propaganda do relacionamento. Talvez por isso me divirta tanto com esse circo desenfreado, agora televisionado.

Receita de bolo? Não tem. Arrisco uns palpites. Acho que ansiedade zero ajuda. E a negociação constante, com todos os ônus e bônus. Amor que dura é isso, um contrato tácito entre amantes, com condições e cláusulas reavaliadas o tempo inteiro. Se o saldo é a infelicidade, pra quem quer que seja, não há margem de lucro pra ninguém. 

Pra ter saldo, vamos combinar, só com calma, análise e pé no chão, com uma pitada de bons sentimentos. Almas gêmeas, amor instantâneo, paixão fast food? Desconfie. À primeira vista, só o programa mesmo.

2 comentários:

  1. Hahaha...se é limpinho, tá valendo?
    Eu achava que com a maturidade, ficaria mais crítica, chata mesmo; mas não. Vejo muitas oportunidades evolutivas na necessidade de adaptação, quando o assunto é relacionamento afetivo. Afinal de contas, de nada vale um vocabulário impecável e uma alma empobrecida, né?
    Beijo, Rô. Bora buscar sempre esse saldo!

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  2. Não só limpinho, né, Lu? Olha lá: tem que me respeitar e batalhar pela vida também, rsrs. O resto a gente sempre pode negociar, desde que o relacionamento valha a pena, desde que haja amor, desde que um não anule ou explore o outro, desde que haja amizade. Parece simples, mas a gente vai aprendendo aos poucos, na prática, a deixar entrar quem merece. E a parar de exigir a perfeição, já que também não o somos. Obrigado sempre pela sua visita! Saudades de vc. Beijo

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