quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Eu dou três palmas

Anitta, me explica?
Anitta, em foto de divulgação: ela tem seu valor, mas mensagens são ambíguas. 

Eu não ouço Anitta nem ligo para os clipes dela. Não digo isso porque a acho ruim. Ou porque meu gosto musical é o mais apurado do planeta. A mulher é gata e tem seu valor artístico. Só não há nada no pacote que tenha me fisgado.

Anitta, porém, ganhou meu respeito. O motivo é uma entrevista que ela concedeu, logo depois da abertura das Olimpíadas, a um desses jornalistas experientes que adoram cantar de galo. Ele quis botar banca com a Anitta e...tomou na testa.

Vou resumir: o tal jornalista insinuou que a Anitta que cantou no Maracanã foi uma personagem criada convenientemente para a ocasião, porque não rebolou, não abusou da sensualidade, não mandou o show das poderosas na cara da society. Ele também deu a entender que a cantora não era merecedora de se apresentar ao lado de Caetano e Gil, por ser de uma outra geração.

É claro que o digníssimo apresentador não usou exatamente estas minhas palavras. Como também sou jornalista, no entanto, decifrei o tom, as intenções, as cutucadas disfarçadas. A minha interpretação pode até não corresponder às intenções do meu colega de profissão. O fato é que o discurso só circula a partir da sua leitura pelo outro. Ao que tudo indica, Anitta "leu" seu inquisidor da mesma maneira.

E aí eu preciso bater três palmas para a garota. Com elegância, ela respondeu que não está limitada às músicas que canta. Disse que, quando nasceu, Caetano e Gil já existiam, portanto já os ouvia e os conhece bem. Segundo Anitta, a música se renova para dar lugar a outros talentos, sem que isso signifique apagar a história.

Cá com a gente: a moça foi direta, articulada e não se intimidou. Mostrou ter cultura, conhecimento. O jornalista, coitado, deve enxergá-la só como um par de seios perfeitos e uma bunda em que jamais vai encostar a mão.

Não o culpo, a despeito da antipatia. Anitta faz parte de uma levada de cantoras pop comunicadoras de mensagens ambíguas. Diante da obra que nos é apresentada, é mesmo difícil saber o que estão querendo dizer. 

Testemunhamos essas beldades rebolativas se insinuando para os homens nos clipes, nos shows, na TV e nas redes sociais. Tudo bem. A liberdade sexual (com consciência) deve ser celebrada, contudo nos faz esquecer que pode haver mais por trás dela do que o exibicionismo faz supor.

Anitta vem na mesma esteira de outras celebridades que surpreendem pela postura de mulher empoderada em seus espaços associados, ou seja, longe dos palcos. Valeska Popozuda, acreditem, não é só um mulherão com voz rouca e duas coxas plus size. Prestem atenção no que ela fala (não necessariamente no que ela canta). Nas músicas, Valeskão solta palavrão e quer transar, sim, e daí? Nas entrevistas, o buraco (sem duplo sentido) é mais embaixo. 

Lá nos States, a música pop tem cenário similar. Taylor Swift, Rihanna e Ariana Grande, por exemplo, estão imersas nessa temática sexualizada e, ao mesmo tempo, conscientes de seu papel no mundo. As três adoram namorar, são jovens, nada mais natural. Cantam e dançam como se estivessem no cio. Faz parte desse jogo teen nas paradas de sucesso. Em entrevistas publicadas mundo afora, esforçam-se para passar outra ideia. Aparentemente, nenhuma delas quer ou precisa de um homem pra se validar. Como mulheres, protestam. Como artistas, alimentam o jogo machista bancado pela indústria da música.

Beyoncè em ação: empoderamento só nos palcos.

Assim, nesse festival de ambivalências, a vida segue também para Beyoncè, numa lógica do avesso. A artista lançou um disco sobre o relacionamento conturbado com o rapper Jay Z (que a teria traído mais de um vez), mas não ousa separar-se dele e tocar o próprio barco. Nas músicas, a cantora grita feminismo, independência, igualdade racial. Na vida privada, submete-se ao patriarcado, afina o nariz, embranquece a pele e manda um recado, no mínimo, contraditório.  

Imagino o quão difícil deve ser colocar-se como mulher neste mundo formatado pelos e para os homens. As divas do pop, sob a luz dos novos tempos, são reflexos inconstantes dessa transformação que talvez as leve para uma expressão mais coerente de seus trabalhos e biografias. Por enquanto, muito se fala, pouco se faz. 

Mulher tem todo o direito de ser gostosa, bonita, rebolar e ainda mostrar talento, inteligência, versatilidade. Merece respeito com ou sem minissaia. Disso não tenho dúvidas. O desafio é convencer os jornalistas do mundo que a geração de Valeska e suas contemporâneas pode ser todo esse mosaico aleatório. Bateu confusão? Já sei! Anitta, me explica?   

2 comentários:

  1. Boa noite, Rodrigo! Percebi que não tem nenhum comentário com relação ao assunto citado acima, e quero deixar a minha opinião. Pois tinha assistido a reportagem e também percebi frustração do repórter e também dos meus familiares pois minhas sobrinhas são fãs da cantora.
    Lembro que uma delas tinha comentado que ela não cantou "BANG" e murmurou "se eu soubesse que ela ia cantar isso, eu não teria assistido". O que me incomodou foi a influência que essas celebridades exerce sobre as crianças, pois na minha opinião essa geração está fardada ao egoismo, ao desinteresse e também o desrespeito com as coisas da vida. Pois as crianças não percebe a ambiguidade e os perigos que essas músicas com clipes sensuais a expõem. Como o abuso sexual e situações de pedofilia. O amadurecimento sexual está sendo precoce atualmente, e o assédio pode vir de pessoas próximas ou não. O que me deixa mais intrigado é que os pais dessas crianças em parte são responsáveis por gerar estas situações de perigos, pois vêem as crianças dançando e rebolando e ainda diz: "olha que bonitinha". Ah! Sem contar que são publicados vídeos nos perfis da internet.
    Acho legal, quando as pessoas admira o trabalho de outras pessoas, o problema é a intensidade e o modo que as pessoas enxergam estes artistas. Ignora que nos shows eles interpretam um "personagem" para conquistar o carinho do público e ou outro é que "fora dos palcos" são pessoas comuns, que tem qualidades de defeitos e que futuramente esses artistas potencialmente terão filhos, e que esses filhos também talvez poderão conviver com uma situação de risco durante as fases da vida.

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    1. Caro anônimo, agradeço a você pelo comentário. Mas meu texto não se refere exatamente ao "amadurecimento sexual" que você menciona. Não acho que Anitta ou qualquer outra cantora seja uma má influência para crianças e adolescentes, desde que haja educação sexual a esses jovens e que todos consigam lidar com as questões acerca da sexualidade de maneira saudável, aberta, sem hipocrisia ou falso moralismo. Concordo que, em alguns casos, as crianças demonstram um comportamento sexual exacerbado, e que a música e seus ídolos podem ter um papel importante nessa história. Mas, novamente, acredito que seja um problema resolvido por educação e diálogo. No mais, as mulheres têm direito de exercer livremente a sexualidade, assim como os homens. O ponto nevrálgico, que eu aponto na minha crônica, é que muitas dessas pop stars pregam o feminismo, mas, ao mesmo tempo, colocam-se como mulheres-objeto, sempre satisfazendo o desejo da parcela masculina do público. O que, a meu ver, é um reflexo do discurso machista do qual a música ainda não conseguiu se desvencilhar. Enfim, um abraço e obrigado pela visita.

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