quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Reaprendendo

Nada acontece por acaso






O que o filme francês “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain”, o clipe da música “So What?”, da Pink, a atual novela das oito “Viver a Vida” e a cantora Whitney Houston têm em comum? Como ainda me recupero do fim de um relacionamento tumultuado, vejo sinais em tudo. Vamos por partes. Noite dessas, vi, finalmente, o tal filme francês, vencedor do Oscar de melhor produção estrangeira em 2005. História cândida, com edição ágil, bela fotografia e efeitos fofos. Em resumo, moça bonita resolve operar pequenos milagres na vida das pessoas ao seu redor, mas quase se esquece de si mesma. Até que, finalmente, ela se convence de que também é merecedora da felicidade e se permite amar. Há milagre maior?
Para Pink, em “So What?” (“E daí?”), o buraco, digo, o milagre, é mais embaixo. A cantora, famosa por satirizar o cotidiano em seus clipes, se revolta contra todos os casais que encontra pelo caminho. Chega a vandalizar uma limusine que transporta dois pombinhos recém-casados para a lua-de-mel. O vídeo tem uma mensagem tão irônica quanto bem-humorada: basta que estejamos com o coração partido para que todo tipo de manifestação apaixonada brote justamente do nosso lado.
Teoria que eu pude comprovar ao ver alguns capítulos de “Viver a Vida”, o mais novo melodrama de Manoel Carlos. É impressionante a sucessão de beijos e abraços, ao som de Roberto Carlos ou Mariah Carey. Parece que fazem de propósito. Manoel Carlos esfrega na minha cara, noite após noite, que a vida vale muito mais a pena quando estamos apaixonados por alguém. Bem agora em que eu tento me convencer de que não é bem assim. De que a vida pode ser boa de qualquer jeito. Basta que estejamos apaixonados por nós mesmos. O resto acontece, certo? Eu estou chegando lá.
É aqui que Whitney Houston faz a diferença. A cantora, consagrada pela trilha do filme “O Guarda-Costas”, ficou conhecida como “a voz”, tamanha a potência de suas cordas vocais. Mesmo com um tesouro na garganta, há quase dez anos Whitney se afundou nas drogas e no fracassado casamento com o rapper Bobby Brown. Agora, com um CD novo, livre dos tóxicos e do marido violento, ela concedeu uma entrevista inspiradora para Oprah Winfrey, a apresentadora mais famosa e rica dos Estados Unidos. Como hoje entendo que, de fato, nada é por acaso, tive a sorte de ligar a TV no instante em que a entrevista começava. Foi, no mínimo, transformador.
Diante da dor e dos problemas que Whitney superou, comecei a me dar conta de que, por mais espinhosos que sejam os meus obstáculos, eles não são intransponíveis. E que, assim como ela, eu também tenho força para vencê-los. Não me senti melhor por ver que existe no mundo uma pessoa com problemas muito mais sérios do que os meus. Até porque, se são meus, eles são maiores do que os de qualquer um. Me senti, sim, esperançoso e, de certa forma, amparado. Em determinado momento, Whitney revelou que nunca poderia ter ressurgido das cinzas sem ajuda. Declarou seu amor por Deus, sua mãe, irmãos e sua filha, hoje uma adolescente de 16 anos, porém amadurecida pelos percalços que foi obrigada a encarar. Whitney, assim como eu, tem quem nunca largue de sua mão, mesmo nos episódios mais obscuros. Hoje, mantém-se de pé. E destaca que, após uma montanha-russa tão violenta, reaprendeu a se amar, recuperando a valiosa autoestima.
Em muitos aspectos, me vi em Whitney Houston. Se ela conseguiu, por que não eu? E foi maravilhoso poder vê-la cantar, no fim do programa, com a voz que lhe é tão peculiar, a faixa “I didn´t know my own strength”, cuja tradução literal é: “Eu não conhecia minha própria força”. Na música, a trajetória de alguém que, assim como Amelie Poulin, conseguiu operar o milagre do amor. O amor por si mesmo, pela vida, o amor que nos permite levantar depois de uma queda, ainda que muito machucados, e que nos cura, pouco a pouco, para nos deixar prontos a recomeçar. O amor próprio que nos leva, finalmente, a poder sentir um amor maduro e enriquecedor por outros.
Assim, vejo minha querida Pink com compaixão. Obviamente, ela está com problemas em “So What?”. Problemas que eu conheço de perto. Um relacionamento traumático pode mesmo comprometer o bom-senso e nos fazer olhar para o amor romântico como uma armadilha, na qual nunca mais queremos cair. Daí a raiva, a revolta, o cinismo, a ironia, as lágrimas e a aversão a capítulos açucarados de “Viver a Vida”, em que os casais estão quase sempre felizes e passam a errada impressão de que precisamos de alguém para então voltar a sorrir.
Como se todos esses sinais não fossem suficientes, recebi por e-mail uma mensagem, dessas repletas de sabedoria anônima. Mas que caem como uma capa de seda curativa em um coração ferido. O texto, intitulado de “Nada acontece por acaso”, é muito mais profundo do que sugere o tema. Diz o seguinte: “Com o tempo, você vai percebendo que, para ser feliz com uma outra pessoa, precisa, em primeiro lugar, não precisar dela. Percebe também que aquele alguém que você ama (ou acha que ama) e que não quer nada com você, definitivamente não é o ´alguém´ da sua vida. Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você. O segredo é não correr atrás das borboletas... é cuidar do jardim para que elas venham até você. No final das contas, você vai achar não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você!”.
Desculpe, leitor, pela pieguice. É que estas palavras me calaram fundo. Assim como o filme francês e a entrevista da Whitney, que foram capazes de me fazer amadurecer até mesmo frente a clipes bobinhos e aos amassos incômodos da novela. Tudo se encaixa. E isso, certamente, me faz admirar a vida com olhos mais tranqüilos, serenos e inteligentes. A cor está voltando aos poucos à minha rotina cinza. O amor é lindo, sim. E os meus milagres, grandes e pequenos, já estão sendo regados para que possam brotar no jardim da minha vida. As borboletas serão muito bem-vindas.

3 comentários:

  1. Rô, confesso que esse é o recomeço mais maduro que já "conheci".
    Costumo dizer que ninguém passa por aquilo que temos que passar e que bom que é assim, né?
    Também assisti essa entrevista na Oprah e, é sim uma lição de vida.
    Espero que permita-se mais, torne-se mais e mais completo e claro, com o apoio dos seus pilares (amigos, família e pessoas queridas que conseguem fazer diferença positiva na sua vida).
    Força na peruca!
    Beijos

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  2. Nossa...fiquei feliz em ler que uma mensagem que enviei, retirada de um site de reflexões, fez parte de um dos seus textos (que honra!). Já assisti ao filme "Amelie...", eu adorei. E com relação à música da Pink...atire a primeira pedra quem nunca teve seu momento "Pink" na vida...(I've already had). Rodrigo...resolvi te mandar uma mensagem pra te animar...vc sabe que vou falar de mim, né...não quero te desanimar...pelo amor de Deus...mas comentando essa mensagem que mandei sobre as borboletas...para uma amiga minha tb...fiz o seguinte comentário: "Mas do que eu cuido do meu jardim...impossível...chego à conclusão que só pode ter nascido erva daninha nele"...rs.Aprendi, sabe Rodrigo,que em alguns momentos da vida, temos que visualizar um pouco de humor...pra não deixarmos o que é sério ficar mais sério ainda. Sei que é difícil...mas comece a tentar...ok? Beijão...Luciana.

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  3. Queridas Lu e Luciana, vcs são mesmo tudo de bom. A peruca, Lu, aos poucos, tá ficando forte de novo, hehe. Luciana, se tá nascendo erva daninha no jardim da sua amiga, é porque ela não tá cuidando direito!! No meu, tô atento, rsrs. Bjão nas duas.

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