domingo, 22 de março de 2009

Armadilha


Quando o comércio subjuga a arte
Antes de entrar no cerne da questão, gostaria de esclarecer aqui que a minha primeira intenção era escrever um artigo com pitadas filosóficas sobre a saga cinematográfica de Matrix, aproveitando o sucesso da série nos cinemas há alguns anos. Afinal, estávamos todos diante de uma revolução da sétima arte, em que efeitos especiais se misturam a uma profunda reflexão sobre realidade e fantasia, dominação e submissão, sentimentos e máquinas, humanidade e tecnologia.
Há seis anos, sentado na poltrona de um multiplex, determinado a decifrar The Matrix: Reloaded em seus mínimos detalhes, logo veio o balde de água fria. A sala, lotada, não me dava a opção de trocar de lugar. Por duas horas e meia, fui obrigado a aturar um trio de adolescentes deslumbradas conversando em voz alta, rindo e trocando mensagens de texto pelo celular. A certa altura, perdi a paciência (alguém tinha que fazê-lo, afinal) e ordenei que se calassem. Caso contrário, chamaria algum segurança. De pouco adiantou. Resultado: Não assimilei The Matrix: Reloaded como desejava. Durante as cenas mais confusas, nas quais de fato somos convidados a refletir sobre o mundo, eu acabava sempre distraído pelas gracinhas e idiotices daquelas três patricinhas infernais, que queriam tudo naquele momento, menos entender Matrix.
No fim da sessão, nocauteado pela memorável sucessão de efeitos especiais e atormentado pelo ódio que aquelas piranhas de fralda me provocaram, refleti. Não sobre a intrigante produção que acabara de ver, mas a respeito dos motivos que levam tanta gente a cair de pára-quedas numa sala de projeção. Em suma, Matrix foi mais uma vítima da superexposição.
A maldição de Titanic
A estratégia de lançamento para cada um dos três filmes da saga Matrix foi agressiva. As produções frequentaram as capas das principais revistas de circulação semanal, que analisaram minuciosamente o processo de filmagem, a preparação do elenco, a digitalização da maioria das cenas e o recheio espiritual e histórico que permeia o enredo.
Na televisão, o trailer era exibido a cada 15 minutos. Fora o espaço dedicado aos filmes pelos noticiários, que não se cansavam de rotulá-los como "os mais esperados do ano".
Era de se esperar que todo mundo – inclusive pessoas que dificilmente largam a novela ou a cerveja pelo cinema – quisesse ver a continuação de Matrix. Percebi, então, que a maioria dos que a assistiram comigo nem sabe do que se trata. Ou seja, desconhece a própria razão pela qual o primeiro filme foi feito e o porquê de tanta expectativa acerca da segunda e da terceira parte. Desse modo, não é difícil concluir que boa parte das platéias – empurrada cinema adentro pela força da propaganda – estava se deliciando apenas com as estripulias visuais de The Matrix: Reloaded, sem se preocupar em compreender uma ínfima parte daquilo que baseia essa produção, considerada inovadora pela crítica especializada e por cinéfilos.
As conseqüências mais nefastas, contudo, são geradas pelos engenhosos mecanismos da indústria cultural. Antes de tudo, a trilogia de Matrix tornou-se um produto destinado a arrecadar milhões de dólares. Sua função primeira é econômica, e não reflexiva ou filosófica. A superexposição na mídia é, naturalmente, o caminho mais fácil para torná-lo comercialmente viável. Daí os trailers incessantes, as incontáveis capas de revistas, os exagerados destaques nos noticiários, o estardalhaço, enfim. Mas se, por um lado, essa gigantesca onda midiática desperta a curiosidade das massas sobre o filme, por outro, acaba causando repulsa nos que desistem de vê-lo justamente pela publicidade insistente.
É mais ou menos o que aconteceu com Titanic. Muita gente deu de ombros ao premiado filme de James Cameron, porque achou desnecessário vê-lo após a profusão de making offs, cenas exclusivas, entrevistas com os atores e segredos da filmagem. No fim das contas, Titanic, mesmo com 11 estatuetas do Oscar e tendo arrecadado a soma imponente de 1,8 bilhão de dólares, tornou-se chato, medonho, bobo, sem graça, batido, porque não havia mais o que descobrir sobre ele. Para o elenco, a experiência foi traumática. Por muito tempo, o astro Leonardo DiCaprio não pôde sair de casa sem ser agarrado por fãs ensandecidas. Também passou a ser mal visto pelos críticos, já que atores competentes, via de regra, não costumam ser fenômenos de popularidade entre adolescentes com os hormônios à flor da pele.
O mesmo fenômeno ocorreu com Matrix. Keanu Reeves, o protagonista, é boa pinta e dá um show de presença, mas sua imagem ficou gasta e irritante. A culpa não é dele. Simplesmente não tínhamos escolha. Para onde olhávamos, lá estava Keanu, com seus óculos escuros e seu sobretudo negro, nos obrigando a ver The Matrix: Reloaded, ainda que só para nos entorpecer com as espetaculares cenas de ação ou, no caso da juventude boboca, apreciar seu charme e bela estampa.
Triste antítese
No mundo da música, não é diferente. Algumas boas canções costumam perder o valor depois de tanto tocar. O que faz com que, de tempos em tempos, artistas talentosos sejam subjugados por interesses econômicos, uma tendência que foi se delineando com mais força a partir da década de 90. Madonna é um exemplo clássico. Por causa da superexposição, precisou percorrer um caminho tortuoso até conquistar o respeito de público e crítica. Mesmo assim, ainda carrega o título de material girl ousada e sexualmente agressiva, imagem cultivada em excesso tempos atrás.
Britney Spears espelha o mesmo drama. Apesar dos irresistíveis hits e do talento indiscutível como show woman – e não necessariamente como cantora –, há quem não suporte mais ouvir falar no nome dela, em razão do circo propagandístico que a cercou – e nos sufocou – nos últimos anos. O estrago, portanto, já foi feito. Uma injustiça, se pensarmos em quantas pessoas estão deixando de apreciar a arte que pode existir por trás de tanta persuasão comercial.
Assim, a indústria cultural, no ímpeto de atender apenas às diretrizes numéricas e quantitativas, gera a triste antítese do que deveria ser uma obra-de-arte, cuja finalidade precípua é atrair o público para fazê-lo pensar.

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