domingo, 4 de junho de 2017

Paixão por praia

Eu sou o mar


Sou água, meio verde, meio azul, que não descansa e não se rebaixa. Minha alma tem um pouco de sal, um pouco de algas, peixes, pedras, mistérios profundos.

Sou onda furiosa, onda mansa, posso parecer piscina, posso virar um maremoto. Minha Lua é meu humor, descanso embaixo do céu, da chuva, das nuvens e do Sol.

Secos e molhados, ambos convivem em mim. Minha areia é úmida pela manhã, seca durante à tarde e submersa à luz do luar. Mas tudo muda de lugar, basta uma tempestade ou dias de calmaria.

Encontro-me com o céu no infinito, vejo-me decorado por barcos, lanchas e povaréu, porém é na baixa temporada que me conheço de verdade. Eu, o Sol, a Lua e uns poucos acompanhantes.

Tenho grande capacidade de resiliência. Junto-me ao vento, camuflo-me num tsunami, não brigo com as feras que passam por mim e que se alimentam do que ofereço. Prefiro abrigá-las, nutri-las, dar-lhes a luz e a sombra de que precisam. E descansar na paz que me é inerente.

Resisto ao lixo que me jogam, ao óleo poluente na minha areia, ao petróleo que mancha minha água, ao entulho que se deposita lá no fundo e, aos poucos, vira relíquia, segredo, algo a ser descoberto, parte da história, minha e dos que viveram em mim.


Às vezes, me escondo entre árvores, pedras, protegido por estradas longínquas, esburacadas. Posso ser de difícil acesso e, por isso mesmo, oferecer os prazeres da descoberta, da exploração dos meus tesouros.

Outras vezes, sou das multidões, dos quiosques, componho a orla junto a arranha-céus, dividindo o mesmo céu que testemunha o desespero dos arrastões, a serenidade de um passeio à minha beira, a delícia de um beijo com gosto de maresia, de um carinho na presença das conchas, de uma alegria de cachorro ou criança.

Sou passarela de cruzeiros, de vendedores ambulantes, de restaurantes rústicos, ou chiques, de sorveteiros e baianas munidas de acarajé.

Não importa o lugar do mundo, vejo Deus em mim, nessa junção perfeita de oceano com areia; de montanha com cidade; de céu com água; de humanidade com energia constante, vida perene, beleza única e inconteste.

Sou, antes de tudo, uma ode à democracia. Aberto a todos, sem qualquer tipo de discriminação ou preconceito. Já vi passarem por mim velhos, jovens, ricos, pobres, gordos, magros, deficientes, homens, mulheres, trans, negros, brancos.

Nem todos me veem do mesmo jeito. Poucos me valorizam de verdade, a maioria me quer só pra lazer ou contemplação. Eu não ligo. Sou uma força da natureza. Complacente com o bem que me representa, avesso ao mal que não me reflete, eternamente satisfeito com a solidão que me abraça nos intervalos de convivência.

Sou o divino banhado e mostrado de todas as formas. Sou Rio, Guarujá, Camboriú, Fortaleza, Bombinhas, Miami, escolha. Dentro de mim há força, magnitude, tudo passa, eu fico. Mudo, mas permaneço. Vou e volto a mim mesmo. É o meu movimento. É a minha essência. Sou a onda no mar que o Lulu canta. Sou "P" de paixão, de puta que pariu! 

Sou praia. Sou mar.

2 comentários:

  1. ���������������� simplesmente demais!

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  2. A praia me inspira, meu amigo Tiago. Obrigado sempre pela presença aqui e um forte abraço!

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