sexta-feira, 24 de março de 2017

De graça?

O preço da vida


"Você se tornou não apenas um pesquisador melhor, mas uma pessoa melhor". Ouvi essas palavras da minha orientadora, Marília Rodrigues, ao final da defesa de minha dissertação de mestrado, na Universidade de Franca. O comentário generoso tirou uma tonelada das minhas costas.

O peso foi acumulado durante os dois anos em que me dediquei à pesquisa. Nesse período, fiz um acordo tácito com o universo. Para ter sucesso no mestrado, abri mão de quase todos os finais de semana e me afastei das distrações, de amigos, colegas e até do blog. 

O mais difícil foi lidar com a instabilidade emocional. Por vezes, chorei sozinho. Fazer um mestrado requer foco e paciência. Foram muitas as noites em claro para ler e escrever. A orientação nem sempre segue os caminhos que prevemos. Além disso, é preciso escolher muito bem as palavras no meio acadêmico, tão vaidoso quanto o televisivo.  

Pensei em desistir. O clima opressor, os prazos curtos, a exigência de inúmeras leituras e o cansaço me fizeram questionar a escolha. Porém, consegui uma bolsa com muito suor e estudo. Achei estupidez chutar o balde antes de chegar ao fim.

Cheguei, contrariando o senso comum sobre os geminianos, conhecidos por abandonarem o jogo no meio da partida. Isso me deixa ainda mais orgulhoso da minha dissertação, "A prática discursiva de Madonna: transgressão e conservadorismo na cena pop". 

Engana-se quem acha que foi fácil e que escolhi o tema só pra falar bem da Madonna. Foi um árduo processo de pesquisa para explicar o funcionamento discursivo da obra da artista, a partir dos pressupostos teóricos e metodológicos de Dominique Maingueneau, em "Gênese dos Discursos".

Escrevi 111 páginas (todas formatadas de acordo com as infinitas regras da ABNT), a maioria com desconstruções da imagem que eu nutria sobre a cantora, cujas mensagens comunicadas através de sua arte podem ser contraditórias e, para meu espanto, conservadoras.

Não vou entrar no cerne do trabalho. Logo ele estará disponível on-line, e pretendo disponibilizar o link por aqui. O meu intuito, neste momento, é reconhecer a força de algumas leis universais. Uma delas é que não se pode ter tudo. Precisamos escolher e focar. A outra é a lei do retorno. O bumerangue da vida é implacável. 

Não acabou. Estou no meio de um relatório para a Capes (que me concedeu a bolsa). Também preciso escrever um artigo acadêmico (a ser publicado numa revista) e fazer as últimas correções na dissertação, sugeridas pela banca (composta também pelas doutoras Camila e Aline, a quem serei eternamente agradecido). Só depois, nas minhas férias, vou comer um pastel na praia.


Essa caminhada me deu provas de que tudo tem seu preço. Toma lá, dá cá. Ganhei olheiras, perdi preconceitos. Trabalhar e estudar, sem muito descanso, testou minha resiliência e expandiu meus pensamentos. 

O conhecimento me faz poderoso de uma forma humilde e me permite falar, sem titubeios, sobre efeitos de sentido, enunciadores, enunciatários, semântica global, competência discursiva e outros termos, antes tão assustadores, hoje tão corriqueiros no meu linguajar.

Essa reconstrução de mim mesmo custou sessões de cinema, festas e até a convivência com meu companheiro, Ricardo, que se mostrou a melhor pessoa e merecedor do meu respeito, amor e consideração. Ele não só me deu o tempo de que precisava pra estudar, sempre que precisei, como foi assistir à minha defesa, ao lado da minha irmã, outro ser de luz, ambos com olhos de admiração e carinho.

Sou só gratidão. Inclusive ao meu chefe na TV, Chico Ferreira, pela compreensão, e à Maria Isabel, de Franca, por me hospedar por algumas noites. 

Ainda não sei para aonde esse mestrado vai me levar. Talvez para as salas de aula, como professor. Ou como aluno de um provável doutorado. Neste momento, entretanto, faço planos para voltar a ler os livros do Stephen King e ir ao cinema uma vez por semana. 

Mereço o descanso. Ser mestre, afinal, deu trabalho. Paguei o preço. Espero a recompensa. Em alguns aspectos, a experiência foi como uma cerca de espinhos entre mim e uma doce plantação de morangos. Foram vários os arranhões ao passar pela cerca. Chegou a hora de degustar as delícias.

4 comentários:

  1. Olha, que bonitinho. :)
    Você sempre vai ter meu apoio e admiração.
    Acho que não foi só você que aprendeu no mestrado. Eu também aprendi, e muito, mas o mais importante, aprendemos que juntos podemos superar as dificuldades e ir em direção as nossas conquistas, JUNTOS, EU E VOCÊ!
    Amo muito você!
    Bjos do seu adimirador "anônimo"

    Rick!

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    1. Uma vez ouvi que correr junto com outra pessoa nos estimula a ir mais longe. Acho que é isso, Rick. Vc me provou esse ditado, com muito amor e compreensão. Seu primeiro comentário aqui no blog não poderia ser melhor, rsrs. Amor recíproco e gigante. Obrigado!

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  2. Meu querido amigo, parabéns !!!
    Desde sempre te admiro muito. Minha vida toda, procurei referências positivas, e você sempre foi uma delas.
    Quando digo que admiro você desde sempre, é pelo fato de que, desde o inicio da nossa amizade (anos 90) vejo você correndo atrás do que quer, sempre conquistando o que almeja, e com um foco que poucas pessoas ao meu redor conhecem.
    Me sinto muito feliz e grata por ser sua amiga, pelo Universo ter conspirado e feito você parte da minha vida. Ainda que longe, sempre estive muito conectada a você. Por isso digo, que me orgulha muito saber de mais uma conquista em sua vida, e mais ainda saber que tem mais por vir.
    Feliz demais por você amigo.
    Saudades Mil !!!!

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    1. Fá, fiquei comovido com seu comentário. Honra-me muito saber que posso ser, de alguma forma, uma referência positiva pra você. Principalmente, neste momento. Chego, exausto, ao final de uma etapa em que, para colher alguns elogios, precisei mostrar que era muito mais que um simples admirador de Madonna. Saiba que também torço demais por você e que a nossa conexão é daquelas de verdade, que o tempo e a distância só fortalecem. Obrigado por tudo, minha amiga. Espero ver você muito em breve e te dar um abraço apertado, ao som de "Live to Tell", rsrsrs. Um beijão.

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