quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Morar sozinho

Solidão, sua linda

Eu abro este texto com um clichê: citando Clarice Lispector. "Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite".

Vou traduzir do jeito que eu entendi, após cinco minutos de reflexão: quem se conhece, não teme a si mesmo e, portanto, se torna capaz de gozar da própria companhia. É um raciocínio simplista, mas resume bem a minha experiência de morar sozinho.

Foi por causa da minha necessidade de silêncio e sossego que optei por este estilo de vida. E não largo o osso. Pelo menos por enquanto.

A maioria que conheço acha que viver assim corresponde a tristeza, baderna, solteirice compulsória. No máximo, um caminho passageiro até juntar os trapos com alguém. Morar sozinho, no meu caso, passa longe da esbórnia e da libertinagem. Minha casa não é puteiro. Gosto da ordem.

Há quem prefira a bagunça. A louça acumulada pra lavar, sem ninguém enchendo o saco. A liberdade pra levar quem quiser pro ap.

No meu, só entra quem tem a energia bacana. Ou seja, quase ninguém. A pia está sempre limpa. Estico a cama pouco depois de levantar. E sou chato pra burro com as minhas coisas. Porque elas, apesar de matéria, são uma extensão da minha personalidade.

Morar sozinho tem suas delícias impagáveis: dançar desinibido na sala; usar o banheiro de porta aberta; a cama, o sofá, o som e o controle-remoto sem disputa.

Tem também o outro lado da moeda: ficar doente é um saco; bate saudade e vontade de conversar em momentos inusitados; ter alguém pra fazer o jantar de vez em quando também é bom.

O fato é que, na infância e na adolescência, dividia o quarto. Ter meu canto era desejo antigo. Viver este sonho é precioso. Entre altos e baixos, os altos prevalecem.

Morar sozinho também teve seu efeito paradoxal: passei a valorizar mais a companhia. Não aquela imposta pelas circunstâncias. Mas a voluntária, que a gente escolhe, como a pomba que deixamos pousar no nosso fio. Gosto de receber visitas. De ficar dias na casa da mãe. Também aprecio o romance, passar um tempo junto. Mas continuo achando maravilhoso estar comigo mesmo.

Não faço apologia do meu jeito de viver. Apenas o descrevo aqui. E posso afirmar, sem medo: se o resto dos meus dias for assim, estarei feliz. Preciso da minha bolha para me isolar dos chatos, dos vilões, das chateações. Para me entregar aos CDs, filmes e livros da minha coleção. Aos comes e bebes que gosto de inventar na cozinha. Ah, claro, e ao silêncio.

Neste momento, vivo em parceria. É uma pessoa que já entendeu meu jeito, que respeita meu espaço e me admira por isso. Justamente por ser assim, me desperta mais e mais a vontade de estar junto. Casar? Quem sabe um dia. Tem de ser bom para os dois, de um jeito longe do tradicional. O importante é o companheirismo. Este, já conquistamos.

Pra encerrar, pedi licença à Clarice para escolher outro pensador: Arthur Schopenhauer. "A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais".

Morar sozinho, enfim, não significa ser solitário. E como é fabuloso saber que, se tudo e todos faltarem, ainda terei a mim mesmo.  

9 comentários:

  1. Maravilhoso isso amigo !
    E como descreve realmente a sua essência e todo o seu modo de viver. Acho fantástico, e a mim serve como verdadeira inspiração, mesmo eu seguindo um caminho totalmente contrário deste que me faz falta.
    Mas é assim mesmo, a vida é feita de escolhas e admiro muito as suas que são seguidas fielmente pelo seu espírito livre.
    No momento me sinto como uma cantora de Rock dançando funk carioca, mas sem perder o foco e nunca perdendo a esperança, mesmo se contradizendo.....rsrsrsrs.
    Lindo, sinto muito a sua falta......saudades mil !
    Espero te ver este ano, e olha que está apenas no início.
    Bjus.....
    Faby.

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  2. Faby, "espírito livre" me define, rsrs. Que delícia ler seu comentário. Ri quilos com a "cantora de rock dançando funk carioca", hahahaha!

    Não perca as esperanças. Você vai conseguir cantar e dançar rock novamente, rsrsrs.

    Estarei por aí em breve, me aguarde. Um beijo. Saudades de você também!

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  3. Me lembrei de uma frase do pequeno príncipe... Ele diz que no deserto, se sente um pouco só. E a serpente diz que entre os homens também.
    É exatamente isso... Morar sozinho deve ser uma delícia. Mesmo porque você se sente muito bem acompanhado de pensamentos, delírios, sonhos... Achei muito bacana o texto -- como sempre. Sempre mostrando a dor e a delícia de ser o que é.
    Beijão!!

    www.chadefirulas.com.br

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  4. Sim, Laís, acho uma delícia mesmo. Mas é claro que é preciso ter equilíbrio. Gosto de ressaltar que gosto demais da companhia de quem escolho pra ficar ao meu lado, sejam amigos ou amores. Só não vejo drama nenhum em passar a maior parte do tempo na melhor companhia que eu conheço: a minha. Beijos e obrigado.

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  5. Simplesmente perfeito!!! Abraço (Rose)

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    1. Rose, sua sumida! Que bom reler vc aqui, rsrs. Volte mais vezes. Beijos.

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  6. Muito bom já morei só,é a melhor coisa dessa vida.tudo mesmo podemos fazer ser livre pra sair sem opiniões alheias ou vice versa,tempo pra si conhecer melhor.vc escuta sem eu falar sua memória viaja por outros mundos sem despertar de ninguém muito massa ...parabéns pelo texto de Clarice.

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  7. Bom demais, né, José? Obrigado pela visita. Abraço.

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  8. Morar sozinha... um privilégio que nos permite usufruir de nossa autenticidade...

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