sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A matemática do amor

Um mais um

"O casamento faz de duas pessoas uma só, difícil é determinar qual será".
William Shakespeare


Imagem: http://carreteldesonhos.blogspot.com.br/2011/05/matematica-do-amor.html

Depois de uma amiga me chamar de chato (sou mesmo, beijos) e de um colega dizer que me tornei especialista em poetizar desamores (adorei isso, nem doeu), agora foi a vez de um recém-conhecido me atirar pedras, após saber o que realmente penso sobre casamento.

Pois bem, a figura levou um pé na bunda (quem  nunca?). O dele foi com bota de bico (e quando não é?). Pior: o chute foi depois de cinco anos de uma união que teve até registro em cartório. Agora, está na fase da divisão de bens e de recompor os cacos do coração.

Disse o sujeito que, apesar do fora, ainda ama. Que achou que fosse pra vida inteira (ownnn!). Que não se arrepende de nada (um viva ao clichê!). Que, apesar de tudo, vai continuar acreditando no matrimônio, na família e nos moldes tradicionais que definem a maioria das relações que vão para o esgoto.

Nesse estágio, o da negação da realidade e da autocomiseração, a pessoa rejeitada tem dificuldade para reconhecer que pode ter errado na fórmula. O fato é que a forma como decidimos encarar uma relação, e levá-la adiante, pode definir o futuro dela. E o de nós mesmos, no caso de um rompimento.

Nos Estados Unidos, mais da metade dos casamentos à moda antiga termina em divórcio. No Brasil, segundo o IBGE, os casais permanecem juntos por cada vez menos tempo. Os matrimônios duram, na melhor das hipóteses, 15 anos, dois a menos do que o constatado na pesquisa anterior. A matemática parece clara: convivência + rotina = Titanic. 

Conheço um casal que namorou por 14 anos. Os dois, então, resolveram juntar as escovas de dente em um apezinho no meu prédio, convencidos de que o amor seria eterno. Em seis meses, foi cada um para um lado. Sem vontade de olhar para trás.

Cena do filme "A Matemática do Amor", com Jessica Alba.

Meu repertório vem da observação, da vivência e da família. Meus pais tentaram de tudo, mas se separaram depois de 30 anos. E foram mais felizes sozinhos. Meu irmão namorou por uma década a mesma mulher. Decidiram se casar e, não demorou muito, jogaram a toalha.

Eu mesmo morei junto por duas vezes, só pra me testar. Com a melhor das intenções. Queria mostrar a mim mesmo que as evidências eram equivocadas, ou, quem sabe, relativas. Não deu outra: bastou somar os trapos para acelerar a contagem regressiva.

Por outro lado, percebo que quem tenta um casamento fora dos padrões, por vezes, se sai melhor. Rita Lee e Roberto de Carvalho, por exemplo, descobriram a felicidade conjugal depois de optarem pelo óbvio: cada um no seu apartamento. Trabalhei com um casal que só não se divorciou porque os dois resolveram que seria melhor separar quartos e banheiros.

Não existe regra, é verdade. Acho importante que os pombinhos se conheçam o suficiente para que descubram, enfim, qual embalagem fica mais bonita e confortável para a relação. Mas, pelo menos por enquanto, fico com a minha teoria, a de que os seres humanos precisam de um pouco de distância para preservar o mistério, o romance e a individualidade.

Na matemática do amor, por muito tempo, acreditou-se que, para haver soma, precisava haver também uma subtração. Resultado: uma equação que não saía do lugar. Um mais um era igual a um. Pares que se anulavam e viravam um único ímpar, sem expressão.

Skakespeare concordava, a julgar pela frase de sua autoria que orna o começo deste texto. Mal sabe o autor que Romeu teria fugido com outra, ou pedido o desquite, caso ele e Julieta, ao invés do veneno, tivessem escolhido uma casinha com filhos.


A duras penas, estamos aprendendo que, numa relação, é preciso continuar inteiro. E que casar as almas não significa, necessariamente, casar os corpos. Somos seres sociais, sociáveis, porém carentes de espaço, de identidade, ainda que não percebamos. O casamento, nos moldes em que se consagrou, é, portanto, quase uma agressão contra parte da nossa natureza. 

O amor é lindo e possível sem papel, sem estar debaixo do mesmo teto, sem o romantismo cego que nos obriga a trilhar caminhos já gastos e intransitáveis. Sejamos práticos. Ainda que isso custe ser menos romântico (ou idiota). O amor maduro, da parceria com liberdade, agradece.

Eu prefiro assim. Mas me espanta ver quanta gente vive, ama e cai sem ao menos questionar o velho jogo do "felizes para sempre". Culpa da Disney? Dos casais fictícios da novela das nove? Dos programas para a família conservadora, tipo Fantástico?  


"O casamento é o fim do romance e o começo da história", proclamou Oscar Wilde. Que a gente, então, aprenda com os erros e faça do nosso jeito. Que seja novo.

Que a história não suplante o romance. E que, pelas barbas de Netuno, a humanidade entenda que relacionamento merece, sim, grande cota de atenção, mas não a aposta de todas as fichas, em nome do chão que dá sustentação a cada um.  

Que, sobretudo, haja coragem para vestir essa nova roupa. Longe da zona de conforto e da cobrança de uma sociedade que anda a passos curtos, que só evolui depois de cair no mesmo buraco, sabe-se lá quantas vezes.

Boa sorte ao meu colega recém-separado. Que, segundo o próprio, não se ancora em estatísticas nem na observação da vida de terceiros para decidir o que é melhor pra ele. Vai lá. Assina contrato de novo, vai pra debaixo do mesmo barraco, se joga no Shakespeare. Prove que estou errado. Até agora, ninguém conseguiu.

4 comentários:

  1. Tão bem comigo! Depois de um tempo é assim, nos redescobrimos. Amizade colorida, quem sabe, mas ainda não estou nessa fase. Amadurecendo a alma, pois o coração já aprendeu a lição.

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  2. Lindas palavras, Consuelo! Com o coração graduado e a alma madura, não há limites para a felicidade. Bjos e seja muito bem-vinda por aqui.

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  3. "A complexidade da coexistência social compulsória pode passar despercebida, mas é essa movimentação aleatória e casual que provoca ao indivíduo sua evolução pessoal na escala existencial. Essa evolução pessoal tem tomado aspecto individualista desde que as condições materiais, tecnológicas e econômicas vem permitindo que uma parte considerável dessa gente more sozinha em uma residência. Mesmo as famílias, que reduzem cada vez mais em número de pessoas pertencentes, já acostumam-se a ter espaços exclusivos para a solidão. Casais dormem em quartos separados e cada filho possui seu próprio espaço para desenvolver-se ali individualmente e sem interferências. O advento da internet acessível torna qualquer pessoa apta a leitura e bom entendimento “autossuficiente”, e assim o ato de conversar e até conviver com outras pessoas torna-se lentamente dispensável." (Sirina Wadud)

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    1. Não conheço essa Sirina, mas já tenho enorme simpatia por ela. Conforme evoluímos, vamos descobrindo que a convivência, pra ser boa e produtiva, tem limites. Gosto de estar perto dos meus queridos, mas não o tempo todo. Gosto de dormir sozinho quase sempre. Amo ir ao cinema só com a pipoca. Já viajar e sair pra baladinha, prefiro acompanhado. Enfim, a gente vai se ajeitando e descobrindo o que nos faz feliz. A medida certa sempre está no equilíbrio. Obrigado, Ju, por mais uma visita e um comentário com conteúdo. Beijão.

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