segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O casamento mata

Gone Girl
O novo sucesso do diretor David Fincher, "Gone Girl", pode ser visto de duas formas: um filme sobre psicopatia severa. Ou um retrato do casamento ordinário levado às últimas consequências.

Baseada no best-seller de Gyllian Flynn, a produção, batizada aqui no Brasil de "Garota Exemplar", é um exemplo do bom cinema que anda em falta nas telonas. Adorei.

Ben Affleck está bem como o marido charmoso, suspeito de sumir com o corpo da mulher. Mas a cereja do bolo é mesmo Rosamund Pike, a tal garota exemplar. Desde Sandra Bullock, em "Gravidade", uma atriz não me impressionava tanto. Sinal de que foi bem dirigida.

Fincher começou a carreira fazendo alguns dos melhores clipes de Madonna, como "Express Yourself e "Vogue". Depois, já como cineasta, estourou com o suspense "Seven" e engatou um sucesso atrás do outro: "Clube da Luta", "O Quarto do Pânico", "Benjamin Button", "A Rede Social" e "Millenium".

A noção de estética e movimento do ex-diretor de videoclipes está presente em cada cena de "Garota Exemplar", que já conquistou o posto de maior bilheteria de Fincher nos Estados Unidos e é sério candidato ao Oscar.

Não por acaso, o filme começa com takes rápidos de algumas paisagens urbanas. Em alguns deles, é possível ver o mandamento universal do capitalismo: "Beba Coca-Cola". Ou, então, o logo do Walmart. Introdução perfeita como metáfora para a maioria dos casamentos.

Afinal, somos induzidos a beber o refrigerante. Somos induzidos a comprar no tal mercado. E somos induzidos a nos casar, ignorando os riscos e as consequências de atos tão robotizados.

No contracapa do livro que inspirou o filme, a frase é aterradora: "O casamento mata". Não é necessariamente uma sentença de morte física. Assistindo à obra de Fincher, é possível concluir que o matrimônio depende de uma certa dinâmica incapaz de revelar quem, de fato, dorme ao nosso lado. E mortal para o amor.

"Garota Exemplar" bebe na fonte de outros sucessos, como "Dormindo com o Inimigo" e "Instinto Selvagem", porém consegue se sobressair pela superioridade do roteiro, que permite reviravoltas e revelações inteligentes. Também amplia o leque de reflexões. Não apenas sobre o casamento e a psicopatia, mas também sobre a mídia sensacionalista e a manipulação da opinião pública acerca de casos polêmicos.

Até onde as pessoas vão para manter as aparências? Como saber o que se passa na cabeça do outro? Há maneira de fugir da armadilha do tédio, da rejeição e da teia de interesses mesquinhos que se instala em casamentos longos? Quando o amor vira ódio? Quando tudo morre? Por que, muitas vezes, não conseguimos nos livrar de tudo isso?

"Garota Exemplar" mais pergunta que responde. E vale cada centavo do ingresso. 

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