quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Prateleira de romances

Vermelho-sangue

http://tiagovchaves.blogspot.com.br/2012/01/vermelho-puro.html

Está difícil arrumar namorado, certo? Errado. Na verdade, nunca esteve tão fácil. A gente nota isso de diversas maneiras. Todo mundo tem uma amiga desgrenhada que, por milagre, conquistou seu par.

A prateleira dos romances está farta. Tem pra todos os gostos. Mas é notório que quando há quantidade, falta qualidade. Sobram amores fáceis, rápidos e desesperados. Já aquele tal, de balançar as estruturas e mudar o curso da vida, bem...Aí, a história é outra.

Na falta do terremoto característico dos amores épicos, muita gente tem se contentado com o amor delicinha. Quem nunca? Eu já. E você, confessa, também.

O amor delicinha é aquele que conforta. É o amor seguro, da estabilidade, sem os altos e baixos das histórias muitas vezes tumultuadas e cinematográficas dos casais apaixonados. O amor delicinha é o mar tranquilo, a certeza, o sexo frequente e correto, o abraço e a sopinha na hora da gripe, o aconchego do fim de semana depois de dias de trabalho extenuante.

Amor delicinha, também conhecido como amor genérico, não dá trabalho. As briguinhas são bobas, não justificam rompimentos de partir o coração. Amor delicinha também é bom. A gente pode focar no trabalho, em outros projetos, sem estresse, porque sabe que, no fim das contas, tudo o que a gente precisa vai estar lá: o sorriso, o colo quentinho, o cheiro familiar, o jantar. Dá pra planejar a vida, sem sustos.

Falando assim, até parece que não existe nada melhor que o amor delicinha. Querer mais que isso é bobagem, certo? Errado, de novo. Ah, como seria maravilhoso se cabeça e coração andassem de mãos dadas!

Nessas horas, não há o que aplaque o desejo de um coração sedento por emoção de verdade. O amor, aquele vermelho-sangue, é raro. Raríssimo. Um sopro de vida. De quebra, melhora a pele e faz o mundo brilhar numa aquarela fluorescente. Esse tipo de amor não dá garantias. Por vezes, pode provocar sofrimento. É o alfa e o ômega, o gelo e o fogo, falta o ar.

Viver um amor vermelho-sangue é como praticar "slackline" sobre um penhasco, é dar vários tiros no escuro, é se jogar no mar revolto e aprender a surfar nas ondas gigantes. É se sentir parte de algo maior, é quando tudo, mesmo que por momentos, faz um sentido absurdo. Amor assim vale a briga, as idas e vindas, os escorregões. Porque o beijo é uma explosão. O sexo é transcendental. E o simples "estar junto", mesmo que não seja tão frequente, é de uma proporção que o amor delicinha, com toda a sua constância, jamais vai alcançar. 

Ivan Martins, cronista que já entrou para o rol dos meus favoritos, escreveu: "Se você levanta, vai trabalhar e tem um dia tranquilo, não pode estar amando, certo?". Certo, Ivan. Ao contrário do que acontece no universo dos medicamentos, aqui, no campo dos sentimentos, os genéricos ficam devendo aos de marca. Os efeitos são diferentes. É como ter que escolher entre refrigerantes. Vai o original, ou o "pode ser"?

Esse é o ponto crucial. O amor delicinha é amor mesmo? O fato é que nunca será um vermelho-sangue. Já a recíproca é falsa. Um vermelho-sangue, com o passar dos anos, pode se transformar num delicinha diferenciado, por honra ao mérito, pelo teste de sobrevivência, pela persistência dos que ousaram não abrir mão de algo tão sublime e selvagem. Sem prejuízo da sua essência, de como tudo começou: um terremoto.

Antes de alguém me acusar de plágio, já li sobre esse assunto em outros blogs e livros. Rende polêmica. O que me inspirou a escrever a minha versão foi "Only You", comédia romântica dos anos 90 que vi na TV paga noite dessas, enquanto me recuperava de uma virose. 

Já no trailer (clique aqui para assistir), uma frase de efeito: "O destino sempre acreditou em romances". 

No filme, os personagens de Marisa Tomei e Robert Downey Jr. vivem um amor de cinema, na Itália (melhor cenário não há). Ela, de casamento marcado com o amor delicinha, um médico norte-americano. Quando percebe a diferença entre um e outro, não hesita em trocar o certo pelo duvidoso. O coração, na ficção ou na realidade, tem vida própria e um fraco pelo incerto.

Pra fechar: tá difícil arrumar namorado? Mais uma vez: não. De jeito nenhum. Tem candidato às pencas pra todo mundo aí fora. Só não namora quem não quer. O amor delicinha se multiplicou pelos cantos. Bom pra passar o tempo. Bom até pra gente achar que ama, que é amado. Mas quem quer o vermelho-sangue, bem...aí, a história é outra.

Canta aí, Selena. Bem romântica, bem cafona, bem melosa. Tô precisando.

8 comentários:

  1. Uau!!! Muito lúcido seu texto, Rodrigo! Grandes verdades, medos e anseios diversos! Respostas? Quem tem? O caminho é manter-se de olhos abertos ao "vermelho" de verdade! Parabéns pelo texto!!! Grande abraço!!!
    Ciro.

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  2. Que bom ver vc por aqui, Ciro. Obrigado pela visita e pelo comentário. Engraçado como os melhores textos são produtos dos momentos de maior confusão. Desde que saibamos nos guiar pelas dúvidas. Afinal, como vc mesmo disse, ninguém tem as respostas. Abraçao!

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  3. Mais uma vez acertando nas palavras, pensamentos e reflexões Rodrigo.
    O difícil é se contentar com o "delicinha" e não sonhar com o "vermelho-sangue", vivendo na grande expectativa por ele. É o mal (ou não) dos sonhadores com fortes emoções rs... Parabéns pelo texto, por mais esse.
    Beijão.

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  4. Então, Flavinha, no filme que cito no texto isso é muito palpável. Mesmo com o casamento marcado e sem ter conhecido o vermelho-sangue, a personagem tem essa expectativa, de que algo aconteça, que a tire do marasmo do "delicinha" que, depois de um tempo, cansa, vira só hábito e se torna incapaz de tirar da gente aquele sorriso que vem do fundo da alma. Obrigado pela visita! Bjos.

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  5. Tem razão. Muitas vezes preferimos viver o cômodo ou, pelo menos, o mais próximo do que nos arriscar. Mas ás vezes a vida que nos faz calejar de tantas coisas ruins pode nos causar certo medo. Talvez esse seja o problema da maioria das pessoas. Parabéns pelo blog!

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  6. Verdade, anônimo. Concordo que, em certos momentos, o que buscamos é colo, carinho, conforto, segurança. O que não é ruim, de forma alguma. Amor delicinha também é bom. Só não é TUUUUDO aquilo, entende? Obrigado pela visita e, se quiser, identifique-se da próxima vez. Abraços.

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  7. Ai, ai. Como eu queria me contentar com genéricos na veia.rs
    Beijo, gatinho

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    1. Né, Lu? Estamos vivendo no Paraguai dos relacionamentos, hahaha! Ou na 25 de Março? Ou made in China? Whatever... Sempre bom ter vc por aqui. Bjos de marca pra vc. :)

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