terça-feira, 1 de abril de 2014

PrimaDona apresenta...

Procura-se uma aliança;
recompensa oferecida

Por Sandra Klinke

Não, este não é um anúncio à procura de uma aliança que já venha com o dedo do marido junto. Ao contrário, o dono da mesma parece estar desesperado para encontrar o objeto perdido. Um cartaz foi colocado hoje ali no poste. Mas está chovendo e, ao passar por ele, tenho a impressão de que as letras vão começar a borrar já já e a mensagem se perderá para sempre. Paro e leio o texto. Eric perdeu sua aliança de casamento no dia 29 de maio (duas semanas atrás… por que só hoje colocou o cartaz?) e agora oferece recompensa para quem a devolver. Não tinha foto do anel e, portanto, fez um desenho com a ajuda do computador e explicou o modelo.


Eric, não sei não, mas acho que você está em uma situação complicada. Será que por duas semanas sua esposa não percebeu que você não tem usado o símbolo de sua união e de seu amor? Ou será que ela está viajando e você tem que encontrar a aliança o mais rápido possível, antes que ela volte? E como você sabe que a perdeu exatamente no dia 29 de maio?

Conto a história para minha amiga Simone, que me olha com os olhos arregalados e diz: “Azar!”

Dou risada e falo: “Coitadinho, a gente podia ajudar o Eric a encontrar a aliança. Podíamos ligar pra ele e pedir mais detalhes. Explicamos que moramos perto do local e…”

"Nem morta, querida. Essa coisa de brincar com símbolo sagrado dá um azar desgraçado."

Olho com jeito de quem não entendeu nada e ela continua.

"A prima da minha vizinha estava noiva, já marcando o casamento. Um dia foi lavar as mãos e a aliança escorregou, caiu no ralo. Foi o maior alvoroço. Ninguém podia usar água na casa, chamaram o encanador que procurou nos tubos e acabou enroscando o dedo numa máquina e teve que cortar um pedacinho do dedo. Só um pedacinho, mas cortou. Bem, acharam a dita cuja, meio amassada e ela levou pra consertar. Quando foi buscar, não conseguiram encontrar na loja e acabaram dando uma novinha pra ela."

"Nossa, que azar mesmo!"

"Tem mais. No dia do casamento, o padre esqueceu de abrir a igreja. Ficou dormindo em casa, porque não era dia de missa. Estava chovendo e os convidados tiveram que ficar esperando do lado de fora. Um desastre. Bom, não precisa dizer que o casamento acabou depois de alguns anos. E, pra ser sincera, sinal de que ia dar errado é que não faltou, né?"

***

Mais tarde, resolvi ligar para o Eric sozinha, sem as superstições da Simone.

"Oi, meu nome é Glória. Estou ligando em relação à sua aliança…"

"Uhuhuh! Você encontrou. Me diz onde está que vou agora mesmo buscar."

"Ah, desculpe. Não achei não. É que eu moro perto de onde você pregou o cartaz, que aliás está derretendo lá na chuva, e queria mais informações. Quem sabe se dando uma boa procurada, eu não encontro. Vai que está no cantinho de um jardim."

Ouço um suspiro decepcionado.

"Esquece, Glória. Já procuramos e não está lá não. A essa altura, deve estar na vitrine de uma loja de penhor."

"Que mal lhe pergunte, porque você só colocou o cartaz depois de duas semanas de perder?"

Outro suspiro.

"Tivemos uma briga muito feia, eu e minha esposa. O auge de uma sequência de discussões que já durava um ano. Fui dormir aí na casa de um amigo e, no caminho, estava tão triste, irritado, sei lá, que atirei a aliança longe. Achei que meu casamento tinha acabado de vez. Por duas semanas, não pensei mais nisso. Mas…"

"Mas?", pergunto esperançosa.

"Ontem ela me ligou e quer me ver no domingo ao meio-dia, no restaurante em frente ao monumento do Jardim Botânico, onde nos conhecemos. Estava calma. Disse que quer conversar. Eu amo minha esposa, Glória. Quero tentar novamente. Liguei para o meu amigo, vasculhamos tudo na rua e nada da aliança. Se eu chegar no domingo sem essa aliança, o casamento acaba de vez."

Vários suspiros. Fico sem saber o que dizer.

"Bom, vou passear pela rua e, se der sorte e encontrar a aliança, volto a ligar."

"Obrigado, você foi a única pessoa que ligou mesmo."

***

Dei três voltas no local e desisti. A chuva aumentou e estava escurecendo. O cartaz já tinha desaparecido do poste. Pelo menos, minha intenção foi boa. A Simone riu da história e disse que o inferno está cheio de boas intenções.

No domingo, o assunto aliança tinha sido enterrado no fundo da minha mente, porque a lista de coisas a fazer tinha se multiplicado. Acordei e fui buscar um café na lanchonete da vila. Enquanto aguardava meu cappuccino, comecei a ler os cartazes colados no balcão (isso mesmo, sou viciada em ler cartazes). Meus olhos pararam em uma mensagem da direção da lanchonete: “Aliança encontrada nas proximidades. Se puder descrevê-la, acreditaremos que é sua e entregaremos a você.”

Chamo o gerente e explico que a aliança é do meu amigo Eric. Descrevo o anel conforme Eric me contou, mas eles só devolverão para o Eric. Tento ligar para ele. São 11h30, ele deve estar a caminho do Jardim Botânico e não atende. Tento novamente. Nada. Peço para tirar uma foto da aliança com meu telefone. O gerente concorda. Tiro a foto, digo a ele para defender esse anel com sua própria vida e saio correndo em direção à estação de trem. Com sorte, chego no restaurante a tempo de mostrar a foto ao Eric e à esposa, e garantir de que o símbolo de seu casamento está muito bem guardado.

Mas, como sorte eu não tenho mesmo, o trem atrasa e chego ao Jardim Botânico 15 minutos depois do meio-dia. Entro no restaurante e procuro um casal que se encaixe na imagem que faço de Eric e sua esposa. Aperto os olhos e, lá no fundo, no canto, vejo um rapaz sentado sozinho. Quem bom, ela ainda não chegou. Ando até lá e chamo: “Eric!”

"Você me conhece?", ele pergunta e me olha com os olhos vermelhos.

"Não, mas eu sou a Glória. Olha só, o pessoal da lanchonete está com sua aliança. Vê a foto aqui. É ela mesma, certo? Eu tentei pegar, expliquei a história toda. Porém, eles só entregarão para você pessoalmente."

Eric pega um papel da mesa e me mostra, dizendo: “Chegou tarde, Glória, a aliança não iria fazer nenhuma diferença mesmo; ela foi embora.”

No papel, leio ‘Pedido de Separação’…

***

Mais tarde, quando estou dividindo um sorvete com a Simone, conto toda a história para ela. Minha amiga responde novamente com uma só palavra: “Azar.”

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