sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Garganta profunda

Lovelace

Quando vi o trailler de "Lovelace", sobre a vida de Linda Lovelace, estrela de "Garganta Profunda", tive a impressão errada. Achei que veria uma obra que narra a clássica história da menina ousada do interior que conhece um bonitão, vai para a cidade grande e alça voo, até se dar conta de que a pornografia, a fama e o sucesso não eram bem o que ela imaginava. O trailler vendeu a ideia de como o mito foi construído. O filme, para meu prazer, é a desconstrução disso tudo.

Linda Boreman (seu nome verdadeiro) foi escrava sexual do marido e empresário, Chuck Traynor (impecavelmente interpretado por Peter Sarsgaard). A cena que a tornou imortal também fez de "Garganta Profunda" (o título dispensa explicações) o filme pornô mais lucrativo de todos os tempos. Linda, ao que parece, não gostava tanto assim de sexo. Foi brutalizada diariamente pelo companheiro. E prostituída por ele de todas as formas. Nem rica ficou. A coitada não viu um centavo da fortuna que ajudou a gerar, por injustiças contratuais.

Linda (vivida por Amanda Seyfried, digna de Oscar) conseguiu se libertar a tempo de escrever um livro, "Provação", e de encontrar alegria não no extraordinário, e sim na simplicidade do casamento com filhos. A morte veio cedo, aos 53, de acidente de trânsito.

Uma história tão trágica costuma ter várias explicações. Mas a principal delas - a exemplo do que já vimos em "Cisne Negro" - está na mãe de Linda, vivida por uma irreconhecível Sharon Stone, no melhor papel da carreira desde "Instinto Selvagem". Uma ex-pecadora que se transformou na esposa conformada de um policial inexpressivo e desconta as frustrações na filha, através da tirania, da religião e do falso moralismo. Linda Lovelace é, como qualquer um de nós, resultado das loucuras familiares e escolhas duvidosas. 

Rob Epstein, mais famoso por dirigir documentários, assina "Lovelace" com classe, embora um pouco aquém de outros filmes do gênero, como o sensacional "Booggie Nigths", de Paul Thomas Anderson. Ou mesmo "Tina", a autobiografia de Tina Turner, estrelada por uma visceral Angela Basset. Mesmo assim, vale por mostrar que o sucesso pode ser uma faca de dois gumes: corta quando entra e quando sai. E por reforçar a ideia de que a violência doméstica, especialmente a praticada contra as mulheres, é muito mais abominável do que qualquer pornô mal feito.   

4 comentários:

  1. Oiii Rodrigo!!!! Eis-me aqui passeando pelo seu blog!!! E adorando!!! alias saboreando cada frase, degustando cada palavra!!!!( vixe...adeus dieta kkkkk ) , o fato é que seus textos são ótimos, educativos, inteligentes, culturais e informativos!!! Adorooo!!! Lovelace : chamou-me atenção principalmente por Amanda Seyfried e Sharon Stone , sempre simpatizei com ambas e seus filmes!!!pelo que li no texto é um drama daqueles!!!!alias tava vendo o profissão repórter na Globo agora e o tema era sobre prostituição... a profissão mais antiga da historia, e também uma das partes cruciais da realidade social, esta em todos os países do mundo, triste...algo que se for para “destrinchar” o tema...aahhh vai longe hein!!! Mas voltando a Linda Lovelace e sua “nada mole vida”, você acredita que há muitos anos atrás eu quis assistir “Garganta Profunda” justamente pela curiosidade desse titulo!!! E não entendi ate hoje...e olha que sou a inteligência pura kkkkkkkkk( brincando, entendi sim!!!!! :) ). Fico imaginando a influência da mãe (Sharon) sobre a filha Linda, e ate as imagino como a Márcia e Valdirene ( personagens da novela das 21:00) , mas daí ate que esta somente na ficção é algo que não afeta tanto nossas vidas, opiniões, mentes...mas passa afetar quando percebemos que isso infelizmente acontece muito por esse mundão afora!!! Nossa meu comentário já ta ficando enorme!!!!melhor parar por aqui, senão daqui a pouco vira um livro kkkk!!!Rô querido, você é um cara dinâmico, inteligente, expressivo, autentico e cativante em seus textos!!! E nós leitores agradecemos!!!big bj

    ResponderExcluir
  2. Oi, Elaine! Ri alto - de novo - com seus comentários. Dinâmica é você, haha! Sabe que fiquei com vontade de ver "Garganta Profunda" depois de assistir a "Lovelace"? Só pra ter no currículo, rsrs.
    Você vai adorar o desempenho da Sharon Stone e da Amanda, elas estão sensacionais. E o filme é um soco no estômago, uma história realmente forte e impactante. Eu mesmo não sabia o que essa moça tinha passado, apenas que tinha estrelado o "Garganta..." e depois entrado numa cruzada contra o pornô. Em síntese, é sobre violência doméstica e prostituição, porém de uma forma muito mais realista do que a mostrada na novela. Tá mais para "Profissão Repórter" mesmo.
    Obrigado mais uma vez pela visita e pelos elogios, viu? Você é uma querida! Bjo.

    ResponderExcluir
  3. Zivi, perdoe-me se causo incômodo...
    A palavra para descrever o seu blog poderia ser “viciante”??? É... Porque já passam das 23 horas e que embora sabendo que o despertador vai dizer: “acorda!!!” (amanhã bem cedo), o desejo é de continuar lendo.
    As suas sacadas são muito legais e confesso que em algumas chorei de tanto rir.
    As suas opiniões me recordam o mar que por vezes é tranquilo como o ‘O velhinho da fila’, é profundo quando trata da vida em geral e diz: ‘vida que segue’, intenso quando diz o que pensa do ‘Velhinho fdp’ (risos...)(mais risos...), mas o que mais vale a pena é... Não sei se você já teve a oportunidade de visitar uma enseada onde a água é translucida e quando você mergulha se depara com um espetáculo de beleza... Assim é como eu vejo o que você escreve e... Caso você compile um livro, só queria deixar registrado que estarei na fila para pedir um autógrafo.
    Um carinhoso abraço!
    Sandra

    ResponderExcluir
  4. Incômodo nenhum, Sandra. Seja bem-vinda! Fiquei muito feliz com suas observações. E seu exemplar terá uma dedicatória especial. Obrigado pela amizade e carinho. Abração carinhoso em você também!

    ResponderExcluir