terça-feira, 4 de setembro de 2012

Complicou

Sem vergonha

Você se lembra da vida sem sexo? De como era descomplicada? Eu me recordo dos bailinhos, das paqueras inocentes, dos beijos sem malícia e de como a vida a dois era uma ideia tão agradável quanto comer algodão doce na praça. Meu maior tesão era tomar sorvete. Aí veio o sexo. E quando esse tipo de tesão bate na porta, o bom-senso pode voar pela janela. 

Isso acontece porque ainda somos reféns de uma certa hipocrisia. Nos algemamos às convenções. Na cama, nos algemamos para outros fins. Quando o assunto é sexo, pinta vergonha, contradição. Sexo dá medo, enlouquece, eleva ou rebaixa. Haja equilíbrio.

Desde que vi o filme sobre Albert Kinsey, o maior pesquisador sobre o tema, constatei que a superfície raramente corresponde ao conteúdo. O filme, estrelado por Liam Nesson, é um retrato fiel da repressão à sexualidade humana. Em 1948, Kinsey abalou a conservadora sociedade norte-americana com o tratado "Sexual Behavior in the Human Male". A pesquisa concluiu que até os mais puritanos adoram uma putaria. 

Kinsey continua atualíssimo. De lá para cá, o maior desafio tem sido equacionar os desejos com uma vida social minimamente decente. Do contrário, é festa na roça, caos, o Cadinho e suas três mulheres na novela.

Desafio maior é moldar a libido a um relacionamento. Estamos fadados a um duelo infinito. O amor costuma ter dono. A atração sexual, nunca. Há uma indústria pornô criada a partir desses ímpetos que silenciamos. Com revistas e vídeos, calamos momentaneamente o nosso íntimo mais safado. 

O sexo complica tudo, porque abunda e frustra. As possibilidades jorram pela internet. Ninguém explica que é improvável encontrar gratificação física total em uma única pessoa. E que é preciso unir sabedoria, liberdade e honestidade na busca por um ou mais relacionamentos satisfatórios. Há outros corpos, bocas e personalidades interessantes por aí. 

A ânsia de experimentar é só mais um dos nossos muitos e elaborados instintos. Por outro lado, nos confortamos com a ideia de uma única companhia para o resto de nossas vidas. Libido, felicidade e segurança: uma trinca possível ou uma quimera?

O campo é minado até para os famosos. Gianecchini, por exemplo, alardeia o quanto ficou mais espiritualizado depois do câncer. Mas não abre mão das delícias carnais. O galã declarou a uma revista que poderia passar seis meses transando. Xuxa também ignora a autopreservação em nome das tentações. A eterna Rainha dos Baixinhos disse num programa de TV que, caso fosse anônima, enfiaria o pé na jaca com gosto. 

Anônimos ou não, buscamos o orgasmo. Não necessariamente filhos. Repito: é bom. E complicado.

A receita, em tese, é simples: viver as fantasias incluindo os parceiros oficiais. Além de usar e abusar das camisinhas. Sacanagem consentida tira o peso da culpa, esse ingrediente rodriguiano que muitos apreciam para apimentar a receita. Eu prefiro sem. 

Nelson Rodrigues, certamente, me desafiaria. Afinal, na prática, somos uma bagunça mesmo, vulneráveis à nossa natureza por vezes indomável. Entre fortes e fracos, puritanos e sem-vergonha, cada um acredita que leva a vida que escolhe. Na alcova, a vida acontece do jeito que precisa. 

5 comentários:

  1. "Sacanagem consentida tira o peso da culpa" – SEN-SA-CIO-NAL. Com "sabedoria, liberdade e honestidade", a coisa anda bem e o sexo é novo, mesmo entre duas pessoas que se conhecem há tempos.

    ;)

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  2. Os conservadores não sabem o que estão perdendo, e os "moderninhos", em geral, acham que tem o controle da brincadeira, mas raramente saem dela sem se machucar. Só prova a tese de que de "modernos" eles só tem a pose. O mundo vive em ciclos constantes. Sexualmente falando, caminhamos para a Roma Antiga, onde tudo era permitido e todo mundo era bissexual. Caminhamos pra lá, mas ainda estamos muito longe de chegar. Não sei se é bom ou se é ruim, mas quando estivermos lá, também não vamos estar satisfeitos.

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  3. Má, concordo com vc: a honestidade e a liberdade entre duas pessoas que se conhecem, sem hipocrisias, leva a uma vida sexual muito mais plena e excitante!

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    Ricardo, meu irmão, gostei da sua colocação, ponderada, sem se comprometer. Interessante observar de longe esse mundo dividido entre moderninhos e conservadores. Eu me considero no meio. Uma coisa é certa: a satisfação se traduz muito mais na busca do que na linha de chegada. Saudades de vc e da Ju! Forte abraço!

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  4. Oops! "...levam a uma vida mais plena e excitante". Agora já foi. Sorry.

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