domingo, 11 de dezembro de 2011

Obra-prima

Nada é
indestrutível
 

Somos bons ou maus? A pergunta que atormenta filósofos, poetas, cineastas e artistas - de Nietzsche a Shakespeare, de Fernando Pessoa a Lars von Trier, de Madonna a Spielberg  - nunca encontrou resposta simples e direta. Mais da metade que votou na enquete do blog respondeu que somos bons, porém corrompidos pela sociedade. 
Friedrich Nietzsche talvez tenha sido o mais feliz até agora em suas observações, por vezes obscuras demais, sobre o mundo. É dele a sentença: "Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas". Dúvidas? 
O cinema é um eficaz laboratório na busca por uma solução ao enigma. Não é preciso ir longe. "Contágio", de Steve Soderbergh, chegou com elenco estelar (Kate Winslet, Gwyneth Paltrow, Laurence Fishburne, Marion Cotillard, Matt Damon e Jude Law) para entreter com o óbvio: o que faríamos diante de uma doença poderosa, com real ameaça de extermínio? No filme, salva-se quem pode, quem tem sorte, contato ou dinheiro. Não há solidariedade, apenas interesse. Inclusive da indústria farmacêutica. 
Em "O Nevoeiro", suspense baseado na obra de Stephen King, a embalagem é diferente, não o conteúdo. No filme, grupo preso em supermercado é obrigado a lidar com criaturas misteriosas. A espessa névoa que encobre tudo ao redor revela a provável natureza humana: má, crua, egoísta, impiedosa, narcisista. Estão lá a fanática religiosa sedenta por difundir sua distorcida visão sobre iluminados e pecadores; os fracos de espírito que mudam de lado conforme a conveniência; os metidos a heroi que acreditam na força e coragem burras como a melhor resposta ao medo e às ameaças; e os calados, que só observam e preferem esperar, apostando na paciência e num certo conformismo. Detalhe: entre mortos e feridos, nem todos se salvam.
Os cineastas mais ousados e inquietos são pessimistas. Almodovar, em "A pele que habito", repete a fórmula e sua mensagem predileta: somos esdrúxulos, anormais, famintos por satisfazer nossos próprios prazeres, seres nivelados por baixo, anestesiados pelo fato de que dominamos o planeta e, portanto, conquistamos o aval da estupidez sem consequência. Antonio Banderas, ótimo no papel de um cirurgião traumatizado pela traição da esposa e pela morte da filha, passa a se dedicar ao propósito de constranger, dominar, abusar, vingar e tentar aplacar a própria dor a qualquer custo, ainda que isso despedace qualquer noção de bom senso. Nietzsche, do alto do seu ceticismo, escreveu: "Torna-te aquilo que és". Evoluímos?
A arte, inclusive o próprio cinema, gosta dos contrários e das contradições. As comédias românticas partem do ingênuo princípio de que somos seres amorosos, confusos, em busca de alguém para compartilhar a vida. As atitudes paralelas, certas ou erradas, seriam frutos das tentativas de acerto. Na música talvez encontremos exemplos mais palpáveis de como exercitamos nossas tendências, inclusive para o amor. As pessoas se apaixonam. Isso, indiscutivelmente, faz maravilhas. Em alguns casos, produz hipocrisias. "Imagine", hino à paz, é de Lennon, que usava drogas e batia em Yoko Ono. Por outro lado, a mesma canção serve de trilha para incontáveis documentários sobre como podemos ser magnânimos em tempos de guerra e fome. Existe, portanto, a possibilidade, mesmo que paradoxal, de amar, ajudar, estender a mão. Ainda que numa análise mais triste, sejamos todos escravos dos instintos mais primários. Nietzsche concorda: "Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal". Quem somos?
Difícil saber se o ser humano é obra controlada pelo Estado, ou se encontra terreno fértil, na micro e na macroesfera, para desenvolver inclinações. Um meio-termo, será? Algumas meias-verdades, no entanto, se aplicam com ligeiro incômodo. Como a de que, para conhecer alguém de fato, basta proporcionar poder e liberdade. Ou impor a luta pela sobrevivência num quarto escuro, junto a outros semelhantes. O resultado pode ser imprevisível. Ou não. Como uma obra de arte. Afinal, como canta Madonna em "Masterpiece", nada é indestrutível. Nem o bem. Nem o mal. Algo ou alguém pode, de repente, transformar a escuridão em luz. Sim, prefiro ser cético, mas jamais perderia a esperança no poder que temos de nos elevar. Muitos estacionam. Poucos, pelos menos estes, alçam voo. Nietzsche concluiu: "Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar". Sabemos?

6 comentários:

  1. Ai cherri, só você mesmo pra conseguir fazer uma brilhante conexão entre Madonna e Nietzsche.
    O texto tá maravihoso, captou bem as nuances do discurso do Nietzsche. Pena que não pude abrir a música da Madonna, ela já foi retirada.
    Um beijo.

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  2. Muito obrigado! Sobre "masterpiece", calma, eu resolvo, rsrs. Ab!!

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  3. Deu até vontade de dividir essas "viagens" úteis com vc na mesa de um barzinho.
    Sábado que vem chego em Ribeirão. Vou escrever pra vc no meio da semana, mas te ligo pra combinarmos.
    Beijo e até loguinho!

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  4. Nossa, Lu, que boa notícia! Quero muito essa mesa de bar com vc, Hehe. Bjo.

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  5. o problema é que nossa essência se confunde às circunstâncias de um mundo onde nem toda linha é reta e nem toda regra se aplica ao todo.

    por isso, creio que seja tão difícil, se não, impossível, compreender a natureza humana mediante uma dualidade rígida.

    gostaria muito (muito mesmo) de acreditar que o homem é bom por natureza e abraçar de vez o mito do bom selvagem. mas, de qualquer forma, tenderia a me opor a rousseau por não acreditar que um ser provido de apenas bondade pudesse se deixar corromper por qualquer esfera social.

    não é de hoje que esse maniqueísmo esquisito me incomoda, por isso, adorei sua reflexão.



    ps: lennon batia na yoko? estou em choque! O.o

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  6. Concordo com você, Lívia, tanto que não cheguei a nenhuma conclusão. Mas tendo a acreditar que a natureza do ser humano não é lá essas coisas, rsrs. Sobre o Lennon, fiquei sabendo por alguns programas e biografias que o cara não era bem um exemplo de paz e harmonia. Coisas da vida. Bjo!

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