domingo, 7 de agosto de 2011

Plim-plim

Insensata agressão


Tenho uma relação de amor e ódio com as novelas da Globo. Admito que segui algumas e me diverti. Passam no horário do meu jantar, geralmente quando preciso ver algo que não exija muito dos meus neurônios, já cansados da ginástica intelectual diária.
"Insensato Coração", por exemplo, é tão mirabolante quanto interessante. De um capítulo para o outro, as pessoas se casam, morrem, ficam ricas, pobres, puras ou venenosas. O maniqueísmo grita. Difícil perceber alguma semelhança com a vida real, que está longe de ser "preto no branco", com uma crônica das nove. Quem dera pudéssemos identificar os mocinhos e os vilões tão facilmente. Mas é disso que o povo - e eu, às vezes - gosta: alienação travestida de realidade.
Sou fã das caricaturas e exageros típicos dos folhetins. Como todo bom jornalista, minha percepção é mais aguçada que a da dona-de-casa que se recusa a ver um beijo gay em horário nobre. Nas entrelinhas das novelas globais, há uma tendência conservadora que beira o maléfico. Em nome dos valores da família tradicional, a direção da emissora, que brada estar amparada em pesquisas, prefere mostrar socos, pontapés, sangue e muita verborragia a uma troca de carinhos entre dois machos. Acha menos agressivo. Pode matar. Beijar, jamais. Sim ao assassinato; não ao amor.
Não faço questão de ver dois caras roçando as barbas depois do Jornal Nacional. Nem acho que isso vai significar avanço. O problema é substituir um extremo pelo outro.
Na maioria das novelas em que ousou encaixar personagens homossexuais mais sérios, a Globo preferiu dar a eles um fim trágico ou indiferente. Isso ficou mais claro em "Torre de Babel", de 1998, quando, logo no começo da trama, o autor Sílvio de Abreu foi obrigado a "explodir" num shopping o casal lesbian chic, interpretado pelas belas Christiane Torloni e Silvia Pfeifer. A desculpa foi a mesma: o público não estava preparado para assistir a um romance gay bem-sucedido, livre dos estereótipos e das galhofas. Pode fazer piada. Mostrar a vida como ela é, e que as minorias só querem respeito e paz? Melhor não.
Nesse contexto, "Insensato" foi um irritante iô-iô. Deu vários passos à frente e muitos outros para trás. Avançou quando mostrou que os diferentes não são tão diferentes assim. Têm emprego, amigos, amores, desilusões, aflições e alegrias, como todo mundo. Alguns são bons, outros desnecessários, como todo mundo. A novela, então, retrocedeu, ao ceder de novo à agenda da "família brasileira", ultrapassada em forma e conteúdo, porém firme e forte como público-alvo da maior emissora do país. A mesma família que, até hoje, assiste, impávida, a personagens femininos insosssas, sem opinião, fracas, despidas de qualquer voz. A mesma família que, por muito tempo, não aceitou negros em papeis principais, só na senzala. Lázaro Ramos virou galã. Sinal de que podemos ter esperança.
Novela da Globo é igual ao "Fantástico". Através de um conteúdo tacanha, enfeitado de novidade, serve para difundir a estreita mentalidade da vovó. A Globo ama casamentos e contos de fada. Ama a Biologia. Ama Darwin. Se camufla de humana. A Globo ama mais ainda propagandear o ódio. É pura ciência hipócrita, misturada com catolicismo ortodoxo e raiva a quem desafia e incomoda a moralidade reinante. Uma moralidade que trava a engrenagem da existência, faz birra diante da evolução dos costumes. Assim, seguimos a passos de tartaruga. Devagar e sempre.
O que vi em "Insensato Coração" foi, ironicamente, uma demonstração de insensatez. Insensata e gratuita agressão. Não há, em hipótese alguma, um alerta sangrento contra a homofobia, como tentaram fazer crer seus autores irresponsáveis. A novela ainda é a escola mais frequentada do país. É com ela que grande parte de nós aprende a se vestir, a fazer piadinhas, copiar gírias e descobrir o novo. Com a novela, nadamos no raso e no fundo. Portanto, ela também ensina, incita. Num Brasil de incultos, mostrar violência desse jeito só ensina mais sobre ela. Novela da Globo, assim, é muito mais perversa e homofóbica do que os skinheads da Paulista. A novela mata mais e com crueldade extra. Continua matando. E vai matar quantos achar necessário, a fim de perpetuar aquilo em que acredita, apesar das falsas evidências em contrário: que o mundo é dos iguais.
Graças a Deus, minha vida não é novela. Agora, me dá licença, que "Insensato" tá pra começar. Amo. Odeio. Bye.   

6 comentários:

  1. Deus, obrigado por o roteiro da minha vida não depender de anunciantes para acontecer. AMÉM!

    Tô contigo e não abro, Ro: "A novela ainda é a escola mais frequentada do país".

    Muito bom. Bjo.

    Matheus

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  2. hahahaha. Seu louco. Noveleiro, então? Sabe o que tenho assistido loucamente? "O astro". Ahhh, lá tudo é happy end, as pessoas são lindas, tudo é possível, até tenho a impressão de que posso encontrar um astro daquele aqui na esquina de casa.hahaha
    Quanto as discussões polêmicas, Rô, nem todo mundo vê como uma forma de fomentar ainda mais o preconceito. Quem tem preguiça de pensar (eles que me desculpem) acredita que tais ilustrações desnecessárias nas novelas são positivas. Acham que é sim um avanço, uma conquista!
    Já percebeu que o assunto nunca é tratado com naturalidade? Os casais gays nunca são meros personagens comuns, sempre estão envolvidos em problemas, polêmicas, confusões. Uai, não existe gay feliz? Eu conheço váaarios! Será que os autores de novela vivem em que mundo?
    Torço para que essa hipocrisia termine logo. Ninguém deve ser julgado pela sexualidade. Se nem Deus faz diferença entre seus filhos, quem somos nós para fazê-lo, não é mesmo?
    Beijo bem grandão no seu coração!

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  3. Zivi, a vida é um surto !!! Quem tenta entender acaba como louco !!! O melhor é viver a vida do que compreende-la....afinal as camisas de força não estão na moda...kkkk
    Abs,
    Tiago

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  4. Valeu, Má, pela visita e pelo comentário. O fato da novela ser escola é muito preocupante nesse contexto.

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    Lu, sou e não sou noveleiro, né? Rsrsrsrs. Vamos aguardar o fim da novela pra ver se teremos uma boa surpresa. A pressão tá grande! Bjo!

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    Tiago, você disse algo muito sábio. Se procurássemos viver mais e entender menos, talvez fôssemos mais felizes. Grande abraço!

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  5. tô com uma raiva da Norma que vc nem imagina...rsss bjs

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  6. Ei, novelinha bendita. Acredita que acabei perdendo o capítulo de sexta? Rô, tenho uma novidade boooaaa. Vou escrever pra vc mais tarde!
    Logo logo apareço aí.
    Beijoooo

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