sábado, 6 de novembro de 2010

Jingle Bell

De saco cheio

Natal já deu no saco. E não é o do Papai Noel. A data me lembra três coisas: shopping lotado, pirralhos gritando em lojas de brinquedos e a parentada reunida em torno do rango, fingindo que se atura, em nome da tradição. Papai Noel não está em questão. O mais eficiente golpe publicitário da História não passa pela minha chaminé desde que me dei conta do engodo.
O Natal é das massas. É nos shoppings, antes templos da elite, que o povo comemora. Graças ao Papai Noel dos brasileiros, Lula. Com mais dinheiro no bolso, os pobres comem Big Mac, compram de tudo um pouco e vão ao cinema. A maioria com seus trezentos filhos a tira-colo. Sem preconceito, por favor. É fato: shopping é um tiro que saiu pela culatra. Arquitetado como uma réplica da cidade perfeita, virou feira livre e disputa com a praia o título de lugar mais democrático do planeta. De playboy a favelado, de pitboy a emo, de patricinha a faxineira, de héteros a trans, todo mundo ganhou o direito de passear e consumir. É bom, mas é ruim. O ar condicionado mal dá conta. Os banheiros estão sempre sujos. Estacionamento lotado. Fila até pra olhar vitrine. Barulheira na hora do filme. Tudo isso piora na época do Natal. Papai Noel, mais fake do que nunca, aproveita e se multiplica como mágica. Porteiros, zeladores, seguranças e aposentados aproveitam para fazer um bico. Ajeitam a barba de algodão, ensaiam o sorriso e ganham uns trocados para tirar aquelas fotos constrangedoras com a pivetada, mais interessada no último modelo de celular do que no trenó com o saco de presentes. 
O lado mais pernicioso do Natal, contudo, está em casa. A data vende a ilusão de que felicidade é necessariamente se cercar das pessoas que a biologia nos impõe como família. É uma equação absoluta: Jesus + presentes + um monte de criança chata + panetone + peru + o porre dos parentes + cartão de crédito estourado = missão cumprida. 
Eis o meu problema com o Natal. Não cola. É tão fake quanto a barba do porteiro que se traveste na frente da loja. Não tenho de cumprir missão alguma. Minhas equações são relativas. Nenhuma delas inclui um senhor da melhor idade com excesso de peso e que voa em um trenó puxado por renas pra lá de suspeitas. Não acho que Deus aprove Jesus como coadjuvante na campanha de marketing do bom velhinho. Além disso, venho de uma família que é o retrato de muitas: gente distante que simplesmente não se importa. E que, de repente, no dia 25 de dezembro, dá o ar da graça por telefone, ou por um cartão mal rabiscado, ou então resolve aparecer para filar a boia. Na boa? Exceto minha mãe, minha irmã, meu pincher, o morzão da minha vida e alguns pouquíssimos amigos, não faço questão de mais ninguém para dividir a uva-passa.   
O Natal mais feliz de que tenho lembrança foi no melhor estilo "Esqueceram de Mim", mas sem os assaltantes que atormentam o garoto Culkin. Passei com meu cachorro, deitado no sofá, vendo filme de terror e devorando um pote de sorvete com nozes. Sem obrigação social. Só eu e meus prazeres. E uma sensação de paz incrível. Que pude dividir, sem as cortinas da hipocrisia, com os meus queridos, assim que pisaram em casa. Este, sim, o verdadeiro sentido de um Natal sufocado pelo american way of life e pelo conservadorismo.
E só pra sacanear com o Papai Noel, já encomendei a ele meu presente: o DVD de "Natal Negro", slash movie de 2006 que mostra Santa Claus como um assassino serial em busca de uma família pra chamar de sua. A ironia é mesmo a minha melhor amiga. Vou passar a ceia com ela. Merry Christmas, everyone!

18 comentários:

  1. Rsrsrs... e esse filme? Eu colocaria para TODAS as crianças do mundo assistirem!!!

    Eu também sou muito mais o nosso
    "Natal não Natal"!

    E sua melhor amiga está COM TUDO nesse texto, heim? rsrsrs

    Bjo!

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  2. hahahah...é exatamente assim. Eu só acrescentaria o fato de, na maioria das vezes, ainda termos que trabalhar enquanto todo mundo aproveita a data para descansar!

    Beijos, Ro Revoltado Ziviani

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  3. É, Rodrigo...

    Sua revolta é a minha, é a de todos os que passarem por aqui e desfrutarem do prazer de ler seu texto.
    Eu já tenho fama de ser meio "revolts" e super sincera mesmo, então, vou exacerbar minhas emoções aqui... rs. Permita-me!

    Também não aturo essa hipocrisia.
    Daqui a pouco começarei a receber por email as mensagens natalinas daqueles que me esqueceram o ano todo. As simpáticas estrelinhas sorrindo pra mim e o bom velhinho cantarolando seu Rou-Rou-Rou. Aí sim, vou ficar muito brava... rs

    Para muita gente, viver o Natal todos os dias parece caretice. As pessoas preferem cumprir o protocolo para começar a mobilização (compra-compra) no momento em que o jornal regional anuncia a chegada do bom velhinho no shopping... É um desespero só! E é no desespero que elas se dizem envolvidas pelo espírito natalino. É um paradoxo, não?!

    A iluminação das casas parece disputa. Tudo fica bonito. E, na Noite de Natal, todos ficam alegres e "reunidos". As dondocas saem do regime, os chefes da casa se fartam de cerveja e a molecada começa a brigar pelo embrulho maior.

    E o convidado principal da festa?! Quem é mesmo??? Nem lembrado é...

    O que vejo, neste época, Rodrigo, é a magnitude da vida totalmente subvertida.
    Infelizmente é muito triste... Muito!

    Desculpe o desabafo!
    Abraços!

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  4. Pois é, Matheus. Vamos, então, lançar nossa campanha: "Por um Natal não Natal". Hehe.
    Lu, que bom ver vc por aqui. Tô sempre lá no seu "Cantinho", viu?
    Lucimara, seu comentário deu praticamente um outro texto, muito bem elaborado. Concordo em gênero, número e grau. Parabéns pelas palavras. E que bom que você é do clube "Revolts". Sou associado faz tempo, rsrs. Bjo em todo mundo.

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  5. Pra falar a verdade, todas as datas comemorativas são uma palhaçada. Dia das mães, das crianças, enfim...o comércio agradece. Geralmente, os que menos têm, endividam-se comprando presentes para toda parentada...que, como você bem escreveu, aparecem nessa data para "filar a boia". Mas, sabe, muitas pessoas pensam como você, eu sou uma delas, só que ainda existe muuuuita gente ignorante, sabe...e não entenda ignorância com pobreza...gente rica também adooora dar uma festa, fazer caras e bocas nestas datas, um fingimento só. Adorei esse filme...rs. Boa dica! Beijo, Luciana.

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  6. Rô, sou eu a Fá, desculpe minha ignorância, mas ainda não consigo postar comentários como uma pessoa normal rsrsr.
    Mas sobre o texto, concordo totalmente contigo, mas saiba que pode ficar ainda pior, imagina se a Lady Gaga, irmã do Marilyn Manson inventa de lançar um cd de Natal??? CREDOOOO !!!!!

    Bjus lindo...to com saudades de ti...aparece viu...

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  7. Oi !
    Eu concordo com tudo o que vc falou , ams pensa pelo lado bonitinho, vc tem suas escolhas pra dividir seu Natal , esntao um certo espirito Natalino vc tem rs !
    Eu tb nao gosto dessa coisa de Shoppings , compras, lugares lotados, mídia pra vendas e nem de ver gente que nao vi o ano inteiro mas que no fim do ano viram anjos rs !!!

    Mas tb tenho medo modo de passar o ano, emso com tanta relaçao meu coraçaozinho ainda enche de emoções Natalinas rs !!!
    Beijooosss

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  8. Credooooo eu bebi na última frase rs :
    Mas eu também tenho meu modo de passar o Natal com as pessoas que eu gosto , mesmo nao gostando de 1000 coisas que dizem sobre esse valor inventado do que é Natal !
    Meu coração ainda se enche de emoções Natalinas !!
    Pronto , traduzi rs
    Beijooooooos

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  9. Só passei para registrar que sempre paro toda a correria bem cedinho só pra ver seus links no Direto da Redação. E, Rô, saiba que vc não madruga sozinho, eu também entro às 5h aqui no Rio. Estou com o primeiro jornal local. Socoooorrrooo, eu adoro a noite!rs
    Como sempre, vc está mandando muito bem e continua elegantérrimo. Parabéns, lindão.
    Beijoca

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  10. Oi, Fá, logo apareço. Obrigado pela visita!! Pode comentar como anônima mesmo, sem problemas. Ana, meu espírito natalino é meio do avesso, mas existe! Rs. Lu, então estamos na madruga... A vantagem está na hora da saída, né? E vc ainda pode aproveitar a praia! Inveja boa! Hehe. Bjo.

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  11. Rodrigão, a vdd é que as pessoas nem sabem realmente para que serve o Natal ??? na vdd serve pra alguma coisa ??? Ah, sim !!! Para você comprar o que vc não quer, com o dinheiro que vc não tem, para agradar quem vc não gosta !!! Bom felizes mesmo ficam os lojistas quando veem o caixa no final do dia.

    Abraços.

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  12. É isso mesmo, Tiago. Vc resumiu bem a mensagem do meu texto. Obrigado pela visita. Ab!

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  13. Nossa amigo, depois do "devil drag", com rabo, plataforma e peruca loira, só mesmo esse texto pra me matar mais ainda de rir .... essa equação (Jesus + presentes + um monte de criança chata + panetone + peru + o porre dos parentes + cartão de crédito estourado = missão cumprida) foi a melhor. Sacaneando o espírito do natal assim não vai dar mesmo para ir para o céu. Vamos ter que nos contentar com os babados do inferno ... kkkkkkkkk

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  14. Karina!!! Hahahaha!!
    A Devil Drag é a melhor, kkkkkkkkk!
    Vamos chamar ela para o nosso próximo Natal? Vai ser tudo!
    Um beijo, linda, apareça sempre, inclusive aqui no meu ap. Te espero.

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  15. Adorei,você escreve muito bem, sabe que vendo o filme três vezes cheguei a uma conclusão, eu prefiro o cisne branco...mesmo que o fim seja certo, a morte! mas esperança é o que no mínimo nos mantém vivo!! forte abraço e sucesso! Gil.

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  16. E ai Zivi!! tudo certo por ai??? quanto tempo eim....pra que lado andas?? ando lendo seus textos!.... cara!... muito bom!!!....to acompanhando...Um Feliz Natal e um ótimo ano pra vc e sua familia!!! abração!!!!

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  17. Fala, Bove. Prazer imenso ter vc por aqui. Que bom que tem acompanhado. Um bom fim de ano, meu caro. Forte ab!

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