domingo, 11 de abril de 2010

Recital

A poesia da vida


Nunca fui fã de poesia. Desde as aulas de Literatura no colégio, não via muita graça em versos e rimas. Não me identificava com um tipo tão transbordante de sensibilidade. Para mim, poeta era aquele cara chato, sem muito o que fazer, que se trancava no quarto e ficava choramingando a vida por meio de rabiscos.
Depois das aulas sobre o assunto na pós-graduação, abstraí o tema e, para meu alívio, a poesia se tornou menos enfadonha. Passei a enxergá-la em tudo.
No cinema, ela é onipresente. Em “Simplesmente Amor” (“Love, Actually”, com o nosso Rodrigo Santoro), minha comédia romântica preferida, a poesia pulsa. Descontados alguns clichês do gênero, sobram no filme diálogos e pensamentos de uma simplicidade maravilhosamente poética.
“O que você faria se descobrisse que seu marido deu uma jóia para outra pessoa? Será que é só sexo? Será que é amor? Será que pode ser amor e sexo? Você manteria o casamento? Ou cairia fora dele, mesmo sabendo que a vida seria um pouco pior?”, pergunta a personagem de Emma Thompson ao seu parceiro infiel. Poesia.
Outro dia, me peguei cantarolando uma música da Cher, a Lady Gaga das antigas. Em “If I Could Turn Back Time”, sucesso de 89, ela diz, abusando do famoso tom grave:
“Se eu pudesse voltar no tempo
Se eu pudesse achar um jeito
Eu pegaria de volta todas as palavras que te machucaram
E você ficaria”.
A rima, claro, é suplantada pela tradução. Mas a música, mesmo brega, tem lá sua poesia. Até em eventos motivacionais ela pode ser notada. Em um dos mais recentes, a que assisti por força do trabalho, o palestrante, num rompante poético, disparou, lá pelas tantas: “Só não consegue quem tem medo”.
Shakespeare, por sua vez, conseguiu unir a poesia do povo a devaneios que beiram a incompreensão. É dele, contudo, a seguinte pérola da obviedade: "Não é digno de saborear o mel aquele que se afasta da colméia, com medo das picadelas das abelhas".
A série do momento na TV americana, “Glee”, também se vale da poesia cotidiana. Os episódios misturam comédia, drama e música. Usando o consagrado pop de Tina Turner, Madonna, Sting, Cindy Lauper e Pretenders como pano de fundo para os personagens, “Glee” foi premiada com o Globo de Ouro e segue firme rumo a pelo menos mais três temporadas. O tema do programa é “Don´t Stop Believing”, hit de Journey, banda-relâmpago dos anos 80. “Não deixe de acreditar”. Em uma frase, quanta poesia.
Aos poetas por definição, minha reverência. Logo eu, que considerava desnecessário o universo dos que recitam a existência, hoje não consigo enxergar a vida sem eles. A gente muda. Afinal, de uma forma ou de outra, não somos todos poetas?
Deixo o desfecho para Drummond, mestre em poetizar o amor.
“Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários”.

9 comentários:

  1. Sim, poetas
    Todos somos
    Se não somos, nos tornamos
    Sempre fomos
    Em amores ou em abandonos
    Se assim não pensamos
    É porque com carinho não olhamos
    Sim, poetas somos

    Nossa, me surpreendi agora! hehehe... Arrisquei e saiu! Diz bem o que penso sobre a poesia: pode ser um porre ou não, percebida ou não.
    A certeza é que ela existe e é sim, onipresente. Da mesma forma com que sempre, sempre mesmo, envolve um forte sentimento.

    Gostei do tema, Ro!

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  2. É, Rodrigo...
    A gente muda e que bom que a vida nos oferece oportunidade de sermos melhores a cada dia.
    É simplesmente emoção sentir a totalidade do mundo pela poesia...
    Parabéns pela postagem!
    Grande abraço,
    Lu
    www.textos-e-reflexoes.blogspot.com

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  3. Nossa, Má, que talento! Já eu me saio melhor com a música da Cher mesmo, rs.
    Luciamara, obrigado por sempre passar por aqui. Já passei lá pelo seu também.
    Abraço.

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  4. Bem...já que o assunto é poesia e, atualmente, não ando lá muito romântica...escolhi uma de Manuel Bandeira que, apesar de curta, transmite uma mensagem de como não devemos encarar a vida, ou não deveríamos. O título é "Andorinha":

    "Andorinha lá fora está dizendo:
    - "Passei o dia à toa, à toa!"

    Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
    Passei a vida à toa, à toa..."

    Bjs...Luciana.

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Realmente a Luciana tem razão, como é bom termos essa oportunidade de mudarmos,de sermos pessoas melhores....
    Como Deus é maravilhoso... Ele nos dá todos os dias essa chance,de apreciarmos, usufruirmos de tudo que Ele criou e com tudo que vivemos (e aprendemos) sermos pessoas melhores..sempre.

    A poesia...sempre presente,em todos os momentos,em um simples amanhecer ou em um lindo céu estrelado...na lágrima que cái por uma dor ou em um lindo sorriso de uma criança.
    Ela sempre está lá...no canto dos pássaros... no silencio de uma doce brisa que toca seu rosto tão suavemente...
    Tudo se torna uma poesia...a dor de uma traição, a alegria de uma conquista,a esperança de um novo amanhã...

    Para mim,as mais belas poesias são as que falam de sentimentos...quaisquer que sejam.
    Através delas conseguimos usar palavras que dizem exatamente o que sentimos mas de uma forma mais suave e ao mesmo tempo intensa... verdadeira...
    Como um abraço bem apertado que vem acompanhado de um afago...

    Escolhi essa letra para postar aqui...uma linda poesia...

    FILOSOFIA DO AMOR

    Quem por mêdo do amor que morre
    Na hora que o amor percorre
    Recua, se afasta e corre
    Ouça o conselho que eu lhe dou
    É só você morrer de amor
    Que a chama do amor não morre

    Quem por mágoa de amor se abate
    Por medo que o amor maltrate
    Ao invés de se dar combate
    Ouça o conselho que eu lhe dou
    É muito mais cruel a dor
    Na casa que o amor não bate

    Filosofia de amor não é rei nem doutor
    Quem aprende
    Só vai sair vencedor de um combate de amor
    Quem se rende
    Filosofia de amor só não é sabedor
    Quem renega
    Só vai prender seu amor e virar seu senhor
    Aquele que se entrega

    E o poeta é o professor
    Que ensina todo dia
    Filosofia de amor!...

    (Jota Maranhão)

    *** Parabéns Rodrigo, suas palavras nos fazem despertar para sentimentos e pensamentos a muito tempo guardados ***.
    Como sempre te digo " Que Deus o abençoe e te faça ainda mais capaz de usar esse seu maravilhoso don,o don da PALAVRA".

    Grande abraço...

    Meire.

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  7. Zivi, saudades à parte, vc escreveu sobre algo q tenho buscado. Seria um longo papo. Sempre gostei de poucos poetas, entre os poucos, o meu preferido: Augusto dos Anjos.
    Notícias cotidianas: estou na Pós(a mesma sua); vc nos deve um encontro; e aproveito para propagar q minha esposa está firme e forte dando aula de Yoga pra valer. E com blog e tudo sobre o tema(sem ser catequisador!): minutoyoga.blogspot.com
    Bj., João

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  8. Eu às vezes sou muito poética. Involuntariamente. Assim como as vezes me pego filosofando sobre as coisas mais irrelevantes. Meus amigos me chamam de autista. XD
    Apesar da 'pouca idade', como minhas professoras dizem, eu tenho uma facilidade com a poesia e a filosofia que às vezes surpreende até a mim.
    Vai entender.

    Gostei muito do seus textos. Me identifiquei bastante com seu jeito de escrever e de falar de cinema. Tô acompanhando. (:
    Beijo.

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  9. Pois é Rô, quem me dera a poesia entrasse um pouco em minha vida, e me tirasse dessa melancolia, mas quem disse que poesia é sempre de alegria, é muitas vezes tristeza disfaçada em rimas e palavras bonitinhas.
    Adorei esse texto como todos os outros, to com saudades viu, acabei de te ligar e você estava fora de área.


    Beijos e aparece

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