domingo, 6 de dezembro de 2009

Brasil

Lula e eu

Meu primeiro contato relevante com Lula foi durante a polêmica eleição de 1989. O barbudo concorria com Fernando Collor de Mello. Não gostava do Lula. Achava ele feio, antipático, ignorante e não conseguia imaginar o país, que naquela época era uma bomba-relógio, nas mãos de um sujeito sem um dedo e com um discurso tão proletário. Eu era um adolescente ingênuo, admito. 

Assim como boa parte do eleitorado adulto brasileiro. Não estávamos acostumados com o sórdido jogo do vale-tudo na política às vésperas de um pleito tão importante. O brasileiro se recuperava de um longo e traumático período ditatorial. E ainda comemorava, eufórico, o sucesso do movimento “Diretas Já!”.

Eu, a Rede Globo e todo o resto da elite tínhamos absoluto horror à idéia de Lula no poder. Arrogante, eu costumava repetir o discurso vigente, de que não me enxergava naquele operário de aspecto sujo e português violentado. Tendenciosa, a Globo editou o debate em favor do autoproclamado “caçador de marajás”, que ganhou. Alívio. O recado estava claro: Lula, nos deixe em paz.


A História se encarregou de nos lembrar duas lições importantes: a de que as aparências enganam e a de que cada povo tem o governo que merece. Com o tempo, Collor mostrou que o sorriso charmoso, a habilidade sobre o jet ski, a gramática ilibada e o jeitão de salvador da pátria funcionavam apenas como uma cortina de fumaça. O presidente com pinta de galã era, na verdade, um homem corrupto.


Vieram Itamar Franco, com seu topete engraçado, e Fernando Henrique Cardoso, meio pai, meio padrasto do Plano Real, que enterrou a inflação galopante. O milagroso ajuste econômico, após décadas de oscilação, rendeu a FHC oito anos no poder. Tínhamos, finalmente, um líder inteligente, reconhecido mundialmente por seus méritos acadêmicos, admirado pelos endinheirados e respeitado pelos mais simples. De um Fernando a outro, quanta diferença. Brasileiro cresce rápido.


A lógica apontava que FHC faria, fácil, seu sucessor. Com o apoio do mercado global, a estratégia de campanha foi norteada, novamente, pelo pânico. Tudo para não colocar em risco as suadas conquistas. O eleitor, no entanto, não era mais o mesmo de 1989. Estava mais esperto. Lula também. Contrariou a lógica, ganhou de lavada e se firmou como o mais popular dos presidentes da República. Sem jet ski, sem diplomas. Agora, até mesmo sem o PT, do qual se desvencilha a cada escândalo. Não é bobo. É carismático.


Já são quase oito anos. Lula, coitado, continua feio. Com a intervenção de Duda Mendonça, ficou simpático. Fala melhor. Quando viaja, leva um tradutor a tira-colo. Está longe de ser perfeito. Defendeu José Sarney no escândalo do Senado, mostrou os (novos) dentes para seu arquirrival Collor e sempre faz a "linha Kátia" quando o assunto é delicado. Não sabe de nada. Liso como um bagre. Como qualquer brasileiro.


Hoje, apesar de tudo, sou fã do Lulinha. Para mim, é quase um pai. Olho pra ele e me dá vontade de correr para um abraço. Lula conseguiu um feito inédito, entre tantos outros: transcendeu a figura de chefe de Estado e virou paizão do Brasil. Que erra. Que às vezes é injusto. Que também pode meter os pés pelas mãos. Querendo acertar. E acertou mais do que errou.


A solidificação do mito não se deu pelas mudanças que sofreu, mas pela essência que conservou. É verdade que, com a ajuda da competente assessoria, abandonou aquele ar de sapo-boi e adotou o de urso bonachão. O que de nada adiantaria se Lula não fosse também eficiente. Inteligente, à sua forma. Político brilhante. Nota 10 em jogo de cintura. E, o mais importante, um homem de resultados. 


Em última instância, o que dita a consagração de um líder é o bem-estar de seu povo. Bem-estar que se traduz em uma palavra mais abrangente do que se imagina: economia. E quem diria que Lula se tornaria quase um PHD no assunto?

Não vivemos no paraíso, eu sei. O Brasil continua sendo um enorme navio de carga, com furinhos no casco, em meio a um oceano turbulento. Pelo menos conseguimos uma direção. O capitão é gente como a gente, tem um sorriso maroto e, aos trancos e barrancos, agrada a quem tem mais e a quem tem menos. Não é uma unanimidade. Mas, reconheçamos, é o que mais se aproxima disso.

O filme sobre a trajetória de Lula já está pronto. Dirigido por Fábio Barreto, estreia em janeiro, com a promessa de quebrar recordes. Segundo uma prestigiosa revista de circulação semanal, é mais uma peça publicitária, com toques melodramáticos e até irreais, na tentativa de Lula fazer seu sucessor. Assim como FHC queria Serra, o atual governo quer a dama de ferro Dilma Rousseff. E assim como Serra perdeu para Lula, Dilma já sabe das probabilidades. 

Não temos outro Lula no páreo. O nosso próximo presidente é uma incógnita. Que comece mais um vale-tudo. No que depender de mim, o Brasil não sai dos trilhos. Já sei reconhecer os Collors e os despreparados. Lula é o que menos precisa se preocupar. Veio, insistiu, venceu, calou a minha boca e a de todo mundo com uma categoria digna de Getúlio e Kubitscheck. 

Mérito de uma política anterior ao barbudo, mas que se sedimentou com ele. De Obama a Chávez, todos fazem reverência ao nosso baixinho. Lula me conquistou. Vou ver o filme. Sem ingenuidade. Porque, afinal, a Dilma não tem a mínima chance comigo. Mas do meu paizão eu não deixo ninguém falar mal. Nunca mais.

4 comentários:

  1. Bem...não sou a melhor pessoa pra falar de política...deveria ser mais informada, confesso. Mas,com relação ao Lula, gosto muito da sua história como operário, porém, como presidente deixa muito a desejar...pois aí, já não é mais o Lula operário, mas uma persona...um homem que, como qualquer mortal, salvo raras exceções, quando chega no poder, se vislumbra, esquecendo-se da sua longa e suada trajetória, pior, esquecendo-se das pessoas que o colocaram lá...o povo, eu, você. Eu digo isso, enfocando na minha área, a educação. Ora, recentes pesquisas apontam uma melhora para a educação...que lugar que a educação pública está melhor? Por favor, alguém me avise. O que são 40 ou mais alunos dentro de uma sala...onde 10, ou menos, mostram-se interessados? O que é a inclusão no ensino público? A inclusão de um deficiente visual numa turma de 40 alunos, onde não existe um auxiliar pra esse deficiente, e que o professor na sua graduação não recebeu nenhuma formação pra trabalhar com esse aluno numa turma regular...isso é incluir? É...incluir mais um aluno: 40 mais 1...que beleza! Só quem está de perto pra ver que a inclusão é total exclusão...tenho pena desses alunos, dos pais e dos educadores, tb. É bonito falar em quantidade, em números, e a qualidade? Ah...deixa para os países cultos e desenvolvidos...aqui o pessoal se contenta com umas cestas básicas no final do mês. Luciana.

    ResponderExcluir
  2. Engraçado você escrever um textão desses, falando da própria experiência, do que considera um equívoco de avaliação, e no finzinho cravar: "Dilma não tem chance comigo".

    Confesso que sorri no fim.

    ResponderExcluir
  3. Luciana, sempre bom ver você por aqui. E sua opinião é válida, sim. Mas se olharmos para o Brasil de antes, podemos, certamente, concluir que o país de hoje tem mais qualidade. Ainda há um longo caminho a percorrer, é verdade, mas já melhoramos. Para o pobre que hoje consegue comer melhor no fim do dia, Lula sempre será o melhor presidente do mundo. Para o empresário que nunca ganhou tanto dinheiro em um governo, também. Não acho que o Lula se deslumbrou com o poder. Acho que ele fez o que pode e procurou aliar os interesses dele com os dos outros. Do contrário, seria impossível governar. Concorda?
    Ricardo, gostei do seu senso de ironia. Não acho que a Dilma seria uma presidente ruim. Só acho que, no caso dela, sobra "mão de ferro" e falta carisma. As razões pelas quais ela não tem chance comigo não são as mesmas que me fizeram votar em Collor nem as que me levaram a rejeitar Lula. Hoje, quero acreditar, sou menos ingênuo.
    Um forte abraço.

    ResponderExcluir
  4. Correção:

    "...quando chega no poder, se DESLUMBRA,..."

    Desculpe pelo erro...rs. Mas iria ficar muito vergonhoso para mim, ainda mais escrevendo sobre educação. rs

    Luciana

    ResponderExcluir