domingo, 29 de novembro de 2009

Nostalgia

O romantismo está morto


Vi “Lua Nova”, a continuação de “Crespúsculo”. Virou mania internacional. No cinema, lotado de adolescentes com os hormônios à flor da pele, gritinhos histéricos pontuaram as cenas com os galãs sem camisa. Robert Pattinson, de fato, não é tão bonito assim. Charmoso, talvez. No quesito tórax, perde feio para o lobisomem vivido pelo garoto e novo símbolo sexual Taylor Lautner.
Mostrar belos torsos, claro, ajuda a vender ingressos. E os números não mentem. “Lua Nova” é a maior abertura do ano no Brasil. Com mais de 1,4 milhão de espectadores, o filme bateu o recorde em seu primeiro final de semana. A produção, que entrou em cartaz no dia 20 de novembro, em 650 salas, atingiu a marca de maior média de público entre todas as estreias de 2009. Também bateu recordes nos EUA e está entre as três maiores bilheterias de abertura, desbancando “Piratas do Caribe - O Baú da Morte” do terceiro lugar, atrás somente de “Batman - O Cavaleiro das Trevas” e “Homem-Aranha 3” .
O trunfo de “Lua Nova”, no entanto, não está no apelo sexy de seus protagonistas. Está, sim, no romantismo exacerbado, fantástico e inalcançável de sua história terrivelmente boba. Afinal, como tornar crível um triângulo amoroso entre um vampiro que caminha sob o Sol, uma garota assustadoramente inexpressiva e um menino-lobo musculoso? A resposta está em quem assiste.
A mistura de sangue, beijos e diálogos simplórios dá certo em “Lua Nova” por conta da predisposição da platéia em apostar todas as fichas num ideal romântico que já morreu. As declarações de amor, ali, soam descabidas e deslocadas. Principalmente as de Pattinson, que interpreta o que hoje poderia ser um Romeu fora de órbita. De ruborizar Shakespeare, tamanha a canastrice. O que ele diz, contudo, é exatamente o que querem ouvir todas as mulheres hoje acostumadas às cantadas baratas das rodas de pagode ou baladas eletrônicas. O sexo em “Lua Nova” não tem lugar nem nas entrelinhas. O olhar, o toque, as promessas, o cuidado e a expectativa fazem muito mais efeito.
A escritora Stephenie Meyer, autora da saga, foi hábil em jogar nas prateleiras, em plenos anos 2000, um amontoado de clichês nostálgicos capaz de conquistar até o mais cínico dos corações. Na era da transa descartável, em que podemos agendar o próximo parceiro numa sala de bate-papo pela internet, quem não sonha com um amor épico, daqueles em que o sexo é conseqüência de uma cadeia de eventos que leva ao inevitável, e por vezes nauseante, “felizes para sempre”? Quem não deseja experimentar uma história a dois de tirar o fôlego numa época em que o ápice do romantismo foi reduzido a oferecer o lugar no metrô? Quem não se encantaria por um vampiro que se recusa a tomar sangue e renuncia ao amor para proteger seu objeto de desejo? Numa análise mais elementar, quem não iria ao cinema para ver belos rapazes seminus brigando por uma jovem confusa?
“Lua Nova”, a propósito, transpira homoerotismo. O objetivo é agradar outra fatia nada desprezível do mercado, a dos gays. O elenco feminino, não por acaso, é praticamente assexuado. Enquanto os rapazes desfilam sua testosterona pela tela, a atriz Kristen Stewart, que ganhou notoriedade há alguns anos ao interpretar a filha de Jodie Foster em “O Quarto do Pânico”, se mostra, quadro a quadro, como a pior coisa do filme. Ela não só tem uma beleza discutível para esse tipo de produção como não convence fazendo a linha donzela. Sua personagem, Bella Swan, é uma gótica chata e sem graça. Bem diferente do que faz supor o livro. Kristen, porém, não tem o poder de fazer a receita desandar.
Assim como a febre “Harry Potter”, que entra em cartaz a cada dois anos e ganhou uma gama infinita de produtos, a saga de Meyer aposta na luta do bem contra o mal – e sobretudo do coração contra a opressão - para multiplicar as possibilidades e se tornar um marco na história da Hollywood água-com-açúcar. O intervalo entre os filmes será anual. Em 2010, sai “Eclipse”. E em 2011, “Amanhecer”. A expectativa é de que sejam arrecadados, só com as adaptações para o cinema, mais de dois bilhões de dólares no mundo. Tudo às custas de um público-alvo que não poderia ser maior nem mais certeiro: o de todos nós, bobocas, à espera de um Romeu ou uma Julieta prontos a nos fazer acreditar que o amor, com todos os seus altos e baixos, pode voltar a ser mágico.

5 comentários:

  1. Cada amor a seu modo, certo, Ro?
    Todo amor, mesmo com seus altos e baixos, é mágico. Se verdadeiro, dá-se os Romeus e as Julietas. Cada um a seu modo.

    Abraços.

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  2. Matheus, a magia é rara, acredite. Nem todos os amores são mágicos. Especialmente hoje, onde essa possibilidade acaba sobrepujada pelo descartável, pelo fácil. É justamente por isso que "Lua Nova" é um fenômeno. Porque mostra algo que está, infelizmente, ficando além do nosso alcance e, paradoxalmente, cada vez mais desejado. Reflexo dos novos tempos, meu caro. Mas continue assim, otimista. Eu também sou, apesar de já ter um pé fincado na realidade. Abraço e obrigado pelo comentário.

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  3. Rs...Rodrigo, com certeza os livros são muito melhores.. só me falta ler "Amanhecer"...rs. Os atores deveriam ser melhores, mais expressivos... Mas, viu...O Edward é um vampiro que pode tomar sol...ele brilha...rs. Ainda não vi o filme...vou ver semana que vem...mas o livro é mais completo. Mas...posso adiantar que nem em Eclipse Bella e Edward chegarão aos finalmentes...talvez em "Amanhecer". Quem sabe? As pessoas estão tão acostumadas com a rapidez e facilidade, que nos 3 livros de 500 páginas, mais ou menos, cada um...eu me perguntei em Eclipse,o último que li,se Edward não era gay...rs...porque a Bella até que tenta...mas nada dele querer...mas dizem que no Amanhecer ela engravida...capaz de Jacob chegar antes...rs. Beijos, Luciana.

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  4. Eu havia comprado no meio de alguns filmes, o tal filme "Crepúsculo" porém ficou rolando lá por casa um bom tempo até alguém( um de meus filhos colocar e gostar. Eu também gostei e baixei todos os livros da net e li (acredite em duas semanas).
    quando terminei de le o último livro, acabou o encantoe daí para todos os lugares que eu olhava, lá estava Edward,Bella, Jacob, livros e tudo que você puder imaginar sobre a tal saga.
    comecei a ter um olhar crítico em cima de tudo isso.
    Hoje tem duas coisas que odeio:
    meu ex-chefe e qualquer coisa que me lembre de Crepúsculo (inclusive seus atores).
    Gostei do seu blog...
    Me pergunto? como não consigo escrever tão bem assim???
    mas estou me esforçando
    um abraço.

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  5. Obrigado, Watts, pela visita e por ter se tornado seguidor. Obrigado também pelos elogios. Escrevo melhor quando fico puto, hehe. E adoro cinema, inclusive meter o pau quando necessário, então...
    Um abraço e apareça por aqui sempre, será um prazer.

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