sábado, 5 de setembro de 2009

Sai, cegonha!

Bebê a bordo


Outro dia, em frente à televisão, me deixei levar pelo enredo bobinho de um filme que mostrava uma mulher linda, loira, bem-sucedida no trabalho e em boa parte da vida pessoal. De repente, ficou desesperada para ter um filho. No final, pulava sobre a cama, com as mãos na barriga, rindo de orelha a orelha, após receber a confirmação da gravidez. Fui dormir com uma interrogação: ser mãe é mesmo padecer no paraíso?
O cinema e a TV sempre foram armas estratégicas em mãos conservadoras. “A escolha de Sofia”, que rendeu o primeiro de muitos Oscars a Meryl Streep em meados da década de 80, traz o clássico dilema: entre os filhos, qual escolher no caso de uma tragédia? “Bebê a Bordo”, novela de 1989, escrita por Carlos Lombardi, brincava com uma trama policial e o clichê de que todo recém-nascido é uma gracinha, com o poder de unir casais em crise. É como se houvesse um consenso de que não há nada que um “gugu-dadá” não resolva. De lá pra cá, pouca coisa mudou. O cinema, com raras exceções (como as obras densas de Sam Mendes, pai de “Beleza Amaericana”, de 1995, e “Foi apenas um sonho”, de 2008) continua perpetuando a mesma espécie de produção, com casais e bebês como retrato fiel e irretocável da felicidade. As novelas, idem. O reflexo está na vida real.
“Quero ter pelo menos um filho, porque não quero morrer sozinha”. Assim definiu seu anseio pela maternidade uma colega de trabalho. Muito querida, por sinal. Mas ingênua. Filho, algum dia, foi sinônimo de companheirismo até a morte? Sejamos realistas. A maioria, se não morre antes, põe os pais no asilo. Uma cena tão comum e difícil de digerir quanto a de mães que abandonam seus bebês em caixas de papelão ou latões de lixo.
No meu trabalho, quase todo mundo já tem filhos no currículo. Um rapaz de 24 anos, de uma empresa concorrente, já se casou e tem dois rebentos. O último acabou de nascer. Os dois por acidente. O casamento, claro, foi meio forçado. Aquela velha história...
Mesmo Michael Jackson, talvez o ser mais assexuado que o planeta já viu, tratou de garantir seus descendentes, sabe-se lá como. E para meu espanto, um amigo gay me revelou que, lá pelos seus 40 anos, vai querer um filho. De novo, sabe-se lá como. “Quero me sentir mais responsável por alguém e menos sozinho”, justificou, juntando-se ao coro universal. Sugestão, então: adote.
Minha única esperança era a protagonista da extinta série de TV “Sex And The City”, Carrie Bradshaw, interpretada pela charmosa Sarah Jassica Parker. Durante seis temporadas, Carrie, uma jornalista solteira e quase sempre bem resolvida, questionava os desígnios da maternidade e o casamento socialmente imposto. Para ela, gravidez e marido seriam os maiores inimigos da mulher moderna, que pode gastar muito melhor o dinheiro suado almoçando fora com as amigas e em sapatos da moda, sem culpa. Doce ilusão. Nem ela conseguiu resistir à tentação de procriar. No segundo longa-metragem da série, que chega aos cinemas em 2010, Carrie Bradshaw vai ser mãe. E, assim, de uma tacada só, trai todos os ideais do programa que inspirou uma geração de mulheres a descartar crianças e homens como o alimento da existência. Complementos, talvez.
Com isso, perdi não só a esperança, mas também a referência. Não há para onde correr. Estou cercado de bebês banguelas e pais pretensamente satisfeitos. Seria eu o único da espécie que não acha graça na idéia? Isso faz de mim alguém ruim?
Quero e não quero
Não quero mais gente no mundo. Não quero ter que levar criança em posto de saúde, escola, shopping, loja de brinquedos, cinema e lanchonete. Não quero aturar birra em local público. Não quero exibir filho em festa da empresa como troféu. Não quero decidir se o quarto do neném vai ser amarelo, azul ou rosa. Não quero perder minhas noites de sono nem minhas viagens. Não quero conversar com ninguém sobre camisinha, drogas e rock´n roll. Quero um sofá sem manchas de chocolate. Quero sexo só por prazer. Ouvir a música que eu gosto e ver filme até de madrugada. Quero arrumar as malas e pegar um ônibus amanhã, sem dar satisfação ou me sentir culpado. Quero chegar em casa depois do trabalho e ter silêncio pra jantar e assistir ao jornal. Quero minhas coisas no lugar, minhas paredes sem rabiscos e meus amigos pra uma cerveja, de vez em quando, sem ter hora pra chegar. Quero namorar pra sempre, sem casar. Quero envelhecer feliz, com todos os meus queridos e até seus filhos ao meu lado, mas sem a preocupação de que, um dia, coloquei alguém pra respirar sem questionar ou mesmo me responsabilizar totalmente pela sua caminhada. Quero outras responsabilidades. Quero cuidar melhor da minha vida, amar com mais maturidade, respeitar os animais, reciclar o lixo, gerar menos poluição.
Quero o bem de todas as crianças, não se engane. A maioria delas nem sabe que só estão aqui para aplacar os temores de seus pais egoístas. Acho até que daria um bom pai. Mas não sou como minha mãe, que sempre coloca um sorriso no rosto ao dizer que teria mais filhos se pudesse. Não nasci pra isso. E estou em paz com essa constatação.
Se um dia acabar num asilo, talvez seja o único a me gabar de que entrei ali por livre e espontânea vontade. Jamais colocado por um filho em quem depositei falsas e inocentes expectativas. Até lá, tenho tempo. Pra mudar de idéia, inclusive. Para isso, porém, vou precisar de um filme ou uma novela que me dê uma razão melhor que a perpetuação da espécie ou o fim ilusório da solidão. Aí, quem sabe, serei capaz de responder com mais propriedade aquela pergunta que todos os pais se fazem, sem coragem de verbalizar: Filhos... melhor não tê-los?

**Nota do autor: continuo achando a vida sem filhos simplesmente o MÁXIMO! E os caras mudaram o roteiro do segundo longa de "Sex and the City". Carrie e Big decidem passar a vida juntos, sem rebentos. Ufa! Ainda há esperança. Na vida real, Sarah Jessica Parker tem dois. Ninguém é perfeito.

4 comentários:

  1. Vinícius era sábio, meu irmão!

    Poema Enjoadinho

    Filhos... Filhos?
    Melhor não tê-los!
    Mas se não os temos
    Como sabê-lo?
    Se não os temos
    Que de consulta
    Quanto silêncio
    Como os queremos!
    Banho de mar
    Diz que é um porrete...
    Cônjuge voa
    Transpõe o espaço
    Engole água
    Fica salgada
    Se iodifica
    Depois, que boa
    Que morenaço
    Que a esposa fica!
    Resultado: filho.
    E então começa
    A aporrinhação:
    Cocô está branco
    Cocô está preto
    Bebe amoníaco
    Comeu botão.
    Filhos? Filhos
    Melhor não tê-los
    Noites de insônia
    Cãs prematuras
    Prantos convulsos
    Meu Deus, salvai-o!
    Filhos são o demo
    Melhor não tê-los...
    Mas se não os temos
    Como sabê-los?
    Como saber
    Que macieza
    Nos seus cabelos
    Que cheiro morno
    Na sua carne
    Que gosto doce
    Na sua boca!
    Chupam gilete
    Bebem shampoo
    Ateiam fogo
    No quarteirão
    Porém, que coisa
    Que coisa louca
    Que coisa linda
    Que os filhos são!

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  2. Tudo o que está escrito é o que pode, ou não acontecer! "Tudo é uma questão de ponto de vista"? Ter filho é uma opção, e, também, requer muita responsabilidade, sem dúvida. Acredito eu que, se em uma relação entre pais e filhos, quando há amor,respeito, cumplicidade, desde cedo, não há porque temer o futuro, pois desde cedo aquele ser aprende o que é respeitar não só o próximo, mas, principalmente a família. Digo isso me referindo ao "asilo". E também acho que não devemos nunca esperar nada de ninguém, não vou ter um filho para cobrar dele algo no futuro, mas vou criá-lo para ter princípios, para se tornar um ser humano digno, pois, desta forma, também estarei contribuindo para o mundo. Mas e se ele não for um ser humano digno? Mas...e se eu não tentar? Luciana

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  3. Ricardo e Luciana, que prazer ter vocês aqui!! Por favor, não é nada pessoal. Percebam como alguém que não quer ter filhos passa por arrogante, antipático ou desumano! Pois é!! Rsrsrs. Não sou contra ter filhos, e nem acho que o artigo se encaixa no caso de vocês. Sou contra aceitar as coisas como nos são impostas e simplesmente não questionar, muitas vezes abrindo mão de uma vida que queremos de outro jeito! Hoje, não quero filhos. Amanhã, tudo pode mudar. Mas pelo menos terei chegado a uma conclusão depois de muito dialogar com meu coração e minhas convicções. Por enquanto, minha vida, sem filhos, está maravilhosa. Mas a pressão existe, e por todos os lados, acreditem! Hehe. Um forte abraço a vocês e passem sempre por aqui. Ricardo, adooooro seu blog. Vou deixar recado lá, pode? Valeu.

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  4. Rô, essas dúvidas vão surgindo em algumas fases da nossa vida, depois deixam de ocupar nossos pensamentos e assim a gente vai tocando. Acho que o "segredo" é dar tempo ao tempo. Já ouviu falar da teoria do caos? Pois bem, hoje eu também acredito que não quero ter filhos, mas uma borboleta pode bater as asas do outro lado do mundo e fazer com que tudo mude!rs
    Ah, mudando completamente de assunto, já assistiu o filme "Equilibrium"? Se ainda não, acho que vai gostar.
    Adoro o seu blog, lindão.
    Beijoca

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