segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Revolta

Os últimos passos de um homem


Em “Os últimos passos de um homem”, filme dirigido por Tim Robbins em 1995, uma freira de Louisiana, nos Estados Unidos, passa a ser guia espiritual de um acusado de estupro e assassinato. Convencida de que não há provas suficientes para a condenação, ela luta para livrá-lo da pena de morte. Susan Sarandon, que interpreta a freira, levou o Oscar. Sean Penn, que dá vida ao criminoso, também impressiona com uma atuação irretocável, nesta obra que teve como alicerce o livro de Helen Pejean. O drama deixa no final uma interrogação: há algo de bom no fundo da alma dos homens mais sombrios?
Hector Babenco, que em 2003 dirigiu “Carandiru”, baseado nas impressões de Dráusio Varella, respondeu a pergunta de uma maneira que agradou em cheio aos defensores dos direitos humanos. Ao retratar o massacre, aparentemente injusto, dos milhares que lotavam o presídio mais famoso de São Paulo, levantou bandeira com uma mensagem polêmica: no frigir dos ovos, criminoso também é ser humano e merece ser tratado com um mínimo de dignidade.
Olhei para essa bandeira com indiferença por tempo demais. Por nunca ter sido vítima de crime, não me dava ao trabalho de responder a perguntas tão perniciosas. Até que, no último Dia dos Pais, meu privilégio chegou ao fim. Furtaram meu carro e a moto do meu irmão. De dentro da casa da minha família, em Batatais. “Na maciota”, como dizem os malandros. Os ladrões entraram a pé e saíram motorizados, sem que ninguém os notasse. Coisa de profissional. Poderia ter sido pior. Deus, obrigado. Foi ali, naquele momento de instantâneo desespero, que pulverizei as minhas dúvidas sobre o destino dos infratores.
Primeiro, a ironia: em Ribeirão Preto, onde moro há dois anos, nunca me furtaram uma caneta. Deixei a Califórnia Brasileira para passar um domingo na nossa querida cidade-dormitório, onde todos, inclusive eu, se vangloriam da tranqüilidade. Pronto. Levam meu carro. Debaixo do meu nariz. A polícia, numa demonstração de admirável eficiência, conseguiu recuperá-lo cerca de meia hora depois. A moto também. Prenderam dois dos salafrários. O maior tinha arma e drogas dentro de casa. O menor logo estará nas ruas novamente. Deus, nos proteja.
Não estou munido de estatísticas oficiais que me possibilitem afirmar que Batatais está mais violenta e insegura com o passar dos anos. Nem ouso dizer que a terra da Festa do Leite, proporcionalmente ao número de habitantes, pode estar mais perigosa que Ribeirão. Porém, o fato de ter sido assaltado aqui, e não lá, mostra que as coisas mudaram. Hoje, o crime não escolhe endereço. Muros mais altos, cercas elétricas, câmeras, cães ferozes. Somos prisioneiros, em nossos próprios lares, na tentativa de manter a paz que antes não custava mais do que uma porta bem fechada.
Sem compaixão
Fiquei transtornado não só pelo ineditismo do acontecido e por terem tirado de mim, ainda que por pouco tempo, o meio de transporte que me possibilita trabalhar para pagar as contas, ser um cidadão de bem e visitar amigos e familiares. Levaram algo que me custa caro em distintos níveis. Que comprei com o suor do meu trabalho. Que me dá uma satisfação que vai muito além de manter o tanque cheio e os impostos em dia. Meu carro, no fim das contas, é um retrato fiel do meu esforço e merecimento. Ao tirá-lo de mim, levaram junto, e sem volta aparente, a compaixão que achei que tivesse por quem comete delitos. Quem me furtou, para favorecer a negra cadeia que abastece o tráfico de drogas, não é digno da minha consideração em nenhum aspecto.
No curso de Direito, aprendi a enxergar a sociedade com olhos mais técnicos. Aprendi que a pena de morte, por exemplo, não funcionaria num país como o Brasil, que tem o Judiciário complexo e vulnerável. Aprendi que ter arma de fogo em casa não garante a segurança de ninguém. E que, pelo menos em tese, as cadeias devem servir para que os condenados sejam recuperados e saiam delas aptos a ganhar a vida honestamente.
Com o furto do meu carro, descobri o que eu acho, à parte das lições absorvidas na faculdade. Acho que bandido é safado e só quer saber de vida fácil. Que na cadeia tem que trabalhar, comer, tomar banho e dormir, sem regalias. Acho que se tivesse um revólver e flagrasse um vagabundo em casa, que pudesse fazer mal a mim, a meus queridos e ainda levar alguma coisa embora, provavelmente atiraria nele. Acho que não há salvação para a maioria dos criminosos. E que a morte deles, pensando bem, não é uma solução tão absurda. Acho que a polícia é paciente demais. Que até eu, se agraciado pelo poder de uma farda e um cacetete, desceria o braço nesse bando de desocupados. Acho que não vejo mais o massacre do Carandiru do mesmo jeito. Acho que os policiais, diferente do que Babenco e Varella nos fazem crer, não são os vilões. Chega de achar que bandido é coitado, vítima da má-distribuição de renda e outras mazelas. Coitados somos nós, atrás das grades que erguemos em nossas casas, temendo o pior. Acho que ladrão, assassino, estuprador, estelionatário e traficante escolhem o próprio caminho e não podem se esgueirar das consequências. Assim como nós escolhemos o nosso, de estudar, correr atrás de trabalho e ganhar dinheiro sem prejudicar os outros.
Hoje, frente à criminalidade que beliscou meu calcanhar, posso encher o peito e gritar com certeza: tolerância zero! Foi só assim, com essa política controversa de enfiar o porrete sem dó e prender até ladrão de galinha, que o então prefeito Rudolph Giuliani livrou Nova York da insígnia de uma das cidades mais violentas do mundo, em meados dos anos 90. Enquanto não vemos isso acontecer por aqui, nos resta o inconformismo.
Assim como o personagem de Sean Penn, em “Os últimos passos de um homem”, caminhou, arrependido, rumo à injeção letal que livrou o mundo de sua desnecessária presença, também dou meus últimos passos, através destas linhas nervosas. Meus últimos passos como possível defensor dos falsos oprimidos. Arrependido por um dia ter acreditado que ladrãozinho, e toda a estirpe que se desenha a partir dele, merece algum tipo de comiseração. Nunca mais. Hollywood que me desculpe.

2 comentários:

  1. A questão, meu irmão, não é o que merecem os bandidos, mas quem são os bandidos que merecem o nosso ódio. Todo mundo erra na vida um dia, de uma forma ou de outra. Mas, citando o exemplo de Carandiru, muitos dos que foram mortos, nem ali deveriam estar. Não acho que a polícia aja errado ao "descer o porrete" nos bandidos. O errado é que, nem sempre, quem apanha é bandido. Se a estratégia for: na dúvida, desce a borracha, o risco de se cometer injustiças é enorme. Quem já tomou revista na rua, como eu, nos meus tempos de adolescente, sabe do que estou falando. Eu não sou bandido, nunca fui, nunca fui infrator, nem vândalo. Mas já levei porrada da polícia, já fui xingado em blitz de trânsito, já fui humilhado diante de outras pessoas.
    Eu não tô nem aí com o tratamento cruel que se dá a bandidos. Mas estou preocupado com o tratamento cruel que se dá a quem não e bandido, mas está na hora e lugares errados.

    Abraço

    Ricardo Mello. http://vidadeumreporter.blogspot.com

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  2. Certo, Ricardo. Vc abordou um ponto que preferi ignorar no meu texto, mas tem razão. A polícia não é perfeita e, por vezes, também age como bandida. Mas essa é outra história...

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