sábado, 21 de março de 2009

Assuntos do coração


Um beijo roubado
Em um de meus artigos mais intimistas, abri meu coração: estava apaixonado e sofrendo por ter abandonado um amor maduro. Não sofro mais. O coração já respira, aliviado. Porém, ando meio bobo. Tolices. Como disse Thomas Fuller, “quando a paixão entra pela porta principal, a sensatez foge pelos fundos”.
Pois a falta de sensatez me levou ao cinema por um motivo inédito: queria ver na tela grande uma história de amor com todas as suas nuances: auge e decadência, dor e redenção, começo e fim.
Na verdade, histórias de amor sempre me comoveram, principalmente as inusitadas, que começam sem querer, por uma pirraça do destino. E o cinema, que elegi como minha principal válvula de escape desde a adolescência, é mestre na arte de mostrar como esse sentimento é poderoso, a ponto de alterar o rumo da vida. Não raramente, somos desviados do caminho que escolhemos pelo sofrimento. Às vezes, pelo prazer. Porém, uma coisa é certa: vale a pena, seja como for. Dolorosa, ou não, a caminhada ditada pelas batidas do coração nos ensina lições impagáveis e, invariavelmente, nos fortalece.
“Um beijo roubado”, obra-de-arte dirigida delicadamente por Wong Kar-Wai, é um retrato fiel da montanha-russa que nos leva pelos trilhos da vida. Uma vida que pode ser cruel e maravilhosa. Norah Jones, a angelical cantora de pop-jazz, faz aqui sua estréia como atriz. Surpreende pela naturalidade, suavidade e, por vezes, intensidade de sua personagem, que sofre por ser traída e sai em busca de si mesma.
A trajetória dela, guardadas as devidas proporções, é a mesma de todos nós. Não importa onde estejamos, com quem nos relacionemos, que trabalho escolhamos pra fazer, se ainda não encontramos o principal: a chave para a porta da alma.
“Um beijo roubado” é feliz ao fazer um paralelo metafórico entre as chaves que buscamos, as que abandonamos, as portas que fechamos, as que queremos abrir e tudo aquilo que, por escolha ou imposição, deixamos para trás para poder sobreviver no campo minado da existência. E é impiedoso ao solidificar a idéia de como impedimos a entrada do coração para uns, liberamos para outros e, quase sempre, nos esquecemos de deixá-la só encostada, sem trancas, apenas por precaução.
Contido para os padrões açucarados de Hollywood, o filme me causou forte impacto. Saí da sala de projeção com a certeza de que, no que se refere aos assuntos do peito, nada podemos fazer para evitar que os eventos, entre eles um beijo ternamente roubado, tomem forma. O que sentimos é involuntário. Se, por um lado, algumas pessoas conquistam lugar no nosso coração com serenidade, pedindo licença, outras derrubam o nosso escudo, nos desafiando a colocar em prática a teoria, muitas vezes impraticável, da inteligência emocional.
Moral da história: se apaixonar é bom. Amar é melhor ainda. Ser amado de volta não tem preço. Só que não há porto tão seguro, monumental e tranqüilizante quanto o amor próprio, alcançado através do autoconhecimento. Equilibrar tudo isso na balança da razão e da emoção é que são elas. Esse segredo nenhum filme conseguiu desvendar. Ainda que sejamos os autores de nossas próprias vidas, o coração não tem chefe.
Nelson Rodrigues já escreveu, com sua peculiar ironia: “Sem paixão, não dá nem pra chupar um picolé”. Mas foi Voltaire que melhor desenvolveu o conceito, e é com este pensamento, tão próprio para o meu momento, que encerro este capítulo.
“Paixão é uma infinidade de ilusões que servem de analgésico para a alma. As paixões são como ventanias que enfurnam as velas dos navios, fazendo-os navegar; outras vezes, podem fazê-los naufragar, mas se não fossem elas, não existiriam viagens, aventuras e descobertas”.

2 comentários:

  1. Como sempre Rodrigo você foi ímpar nas colocações sobre amor, paixão, escolhas...
    É a eterna busca do ser humano pela tal felicidade, momentânea ou não, devemos sempre contar com um único ser: o nosso próprio.

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  2. Você escreve muito bem. Adorei.

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