quinta-feira, 5 de março de 2009

Novos tempos


O cinema matou o casamento
Me lembro com riqueza de detalhes da época em que meus pais se separaram. Como se a adolescência já não fosse fardo suficiente, a vida ordenou que eu carregasse também o peso extra do amadurecimento precoce. Não me queixo. Costumo dizer que o divórcio, em minha trajetória, equivale ao Iluminismo na França do século 18.
Meu primeiro passo rumo ao esclarecimento foi questionar ferozmente o casamento e as razões que nos levam a ele. Descobri, graças a papai e mamãe, que não é preciso se casar para ser feliz. Amar, sim. E o cinema tem sido um excelente condutor dessa idéia.
“Beleza Americana” , de Sam Mendes, vencedor de cinco Oscars há oito anos, é o melhor exemplo que a sétima arte já conseguiu produzir no sentido de desmistificar a instituição do matrimônio. Ali, os personagens mergulhados na miserabilidade de uniões por conveniência percebem o erro tarde demais. E os “loucos”, invariavelmente incompreendidos, acabam se revelando mais sensatos, coerentes e, não por acaso, donos de uma felicidade mais palpável.
Sam Mendes repete a fórmula, embora de forma mais densa, em “Foi apenas um sonho” (distorção incompreensível do título original, "Revolutionary Road"). Para retratar a falência de um relacionamento, levado adiante por todas as razões erradas, ele escolheu uma dobradinha inusitada de atores: Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, que protagonizaram o água-com-açúcar “Titanic”. Só que, desta vez, o casal se engalfinha em diálogos de revirar o estômago sobre conformismo, comodismo e os falsos valores que brotam de um casamento de corpos, mas não de almas e corações.
Para os desavisados, “Foi apenas um sonho” pode ser uma experiência traumática. A história golpeia até mesmo a crença de que ter filhos é sempre uma experiência maravilhosa. April, a personagem de Kate Winslet, é, de longe, a mais perturbadora. Desapontada por não conseguir fazer deslanchar sua carreira de atriz, a esposa e mãe de dois filhos se vê presa na armadilha que criou para si mesma e cada vez mais longe da possibilidade de se libertar. Ela desmorona quando conclui que não se casou por amor, que pariu por uma mera obrigação social e que matou seus sonhos para corresponder ao que a sociedade esperava dela.
April espelha a história de muitas mulheres. Mesmo hoje, quando supomos ser mais fácil fazer frente a preconceitos tão antigos e maquiavélicos como os que norteiam o casamento. Afinal, por que casamos? Será que o simplório mandamento biológico que nos conduz ao crescimento, reprodução e morte vale realmente para todos? Ou alguns de nós estaríamos fadados a não nos resignar e tentar decifrar outro propósito?
Eu tive a sorte de pulverizar essas interrogações durante a separação dos meus pais. Ainda adolescente, me conheci como alguém que não é absolutamente contra o casamento, mas que tem ojeriza a dizer “sim, aceito”, na frente de um padre, sem se questionar. Assim, “Foi apenas um sonho”, mais do que a catarse perfeita, funcionou, para mim, como uma confirmação.
O verdadeiro tesouro
Se o cinema, frequentemente, se firma como um fio de esperança a quem olha com saudável cinismo aos valores pré-estabelecidos, a cultura pop, quase sempre, se presta ao papel inverso. A norte-americana Kate Perry, que no ano passado ficou famosa ao cantar que gostou de beijar outra garota, agora faz sucesso com o videoclipe ultraconservador da faixa “Hot N Cold”. Nele, a moça aparece vestida de noiva, perseguindo com desvairo bem-humorado o pretendente que hesita no altar de uma igreja lotada. O que deveria ser mais uma peça divertida e inofensiva da era MTV torna-se um retrato incômodo de uma realidade que parece não se enquadrar na moldura de seu próprio tempo. Kate Perry representa toda aquela que busca se casar a qualquer preço pra fugir da solidão e se encaixar no velho molde. Um contraste curioso com as balzaquianas descoladas da série televisiva “Sex And The City”, por exemplo, que parecem já ter descoberto que o casamento é mais um desfile de modas do que garantia de amor e plenitude. E que a pior solidão é aquela vivida a dois.
É justamente nesse embaraçado nicho de conceitos sobre os caminhos para a felicidade que “Quem quer ser um milionário” ("Slumdog Millionaire"), agraciado com oito Oscars, surge como um copo de limonada gelada num dia de verão. Dirigida pelo competente Danny Boyle, a saga do jovem indiano que fatura 20 milhões de rúpias num programa de perguntas e respostas é a mais perfeita metáfora sobre a única verdade à prova do tempo e da mudança de costumes: a de que só o amor vale a pena.
A mensagem do filme é muito clara: a fortuna, simbolizada pelo dinheiro, chega como prêmio ao pobre menino que sobreviveu às intempéries da vida e aprendeu com os traumas, erros e acertos. O genuíno tesouro, aquele que o torna de fato milionário e vencedor, é o grande amor que o destino lhe permite viver no final. Um amor raro e valioso como um diamante, porém sem preço. Um amor que todos buscamos, mas sorteado a poucos na insana loteria da vida. Um clichê tão reacionário e ilusório quanto o casamento às escuras. Mas necessário, para que, quem sabe um dia, sejamos capazes de torná-lo real e, enfim, vivermos felizes para sempre.

Um comentário:

  1. Os seus textos são como um diário de sobrevivência nesse nosso mundo.
    Meus sinceros cumprimentos pela clareza nas informações.
    Um forte abraço.

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