quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Cinema

Se eu fosse você...
“Cala a boca, Helena!”. É assim, imperativa, que a atriz Glória Pires se dirige a Tony Ramos no hilário teaser de “Se eu fosse você 2”, em cartaz nos cinemas. No filme, com direção de Daniel Filho, marido e mulher trocam de corpo, mais uma vez. Deveria ser uma divertida incursão pelas circunstâncias da inversão de papéis. No entanto, se materializa como um pastiche tragicômico, envenenado por clichês e humor escatológico, na medida certa para agradar platéias com senso-crítico manco.
O melhor do filme são os atores. A dupla de protagonistas é eficiente, até mesmo nas interpretações mais caricatas. Por outro lado, é notável o desperdício de talento em uma obra que carece tanto de inteligência quanto de apuro técnico. Em algumas passagens, é possível perceber que os diálogos foram dublados, em estúdio, para tentar corrigir falhas de áudio da gravação original. O que evidencia, no mínimo, o quão longo ainda é o caminho a percorrer pelo cinema brasileiro.
“Se eu fosse você 2” não peca apenas pela previsibilidade e defeitos primários de filmagem. O filme é uma ode ao reacionarismo. Ali, na tela grande, em meio à sucessão de macaquices, a mensagem é a mesma de toda novela das oito: só é feliz quem se casa e tem filhos. O ideal diminuto e conservador de felicidade se torna ainda mais mesquinho e nocivo quando permeado pelo preconceito.
Tabus
Durante as quase duas horas de projeção, há uma intenção quase maquiavélica de sedimentar tabus, contrariando uma das premissas da sétima arte, a de fazer refletir. Os personagens centrais promovem, quadro a quadro, a eterna e ultrapassada guerra dos sexos, com papéis muito bem delimitados. Homens devem ganhar dinheiro, prover o lar, jogar futebol, tratar com desleixo a própria aparência e reafirmar a masculinidade com grosseria. Já as mulheres gozam do conforto proporcionado pelo macho, fazem ginástica, se depilam e engravidam, sem critério, como se o mundo já não sofresse o suficiente com a superpopulação.
O moralismo do filme não tem limites. Tony Ramos, agindo como mulher, ridiculariza qualquer possibilidade de delicadeza, gentileza e feminilidade. Já Glória Pires, em seus momentos mais parrudos, é a personificação do sarro em relação a todas aquelas que não se enquadram na moldura da frescura, da dependência ou do exagero. “Se eu fosse você 2” zomba das diferenças, quando deveria exaltá-las ou, no mínimo, respeitá-las.
O humor de baixo-calão é coroado com a presença de Chico Anísio. A certa altura, seu personagem se gaba do próprio filho, um adolescente que engravida a namorada. O descuido, que deveria ser alvo de críticas ou, na melhor das hipóteses, um trampolim para a reflexão sobre as conseqüências da impulsividade, é celebrado como prova irrefutável da heterossexualidade do rapaz, com direito a mais uma piadinha chula.
Saí desolado do cinema, com o perdão do exagero. Não dei uma risada sequer, o que pode parecer sintoma de rabugice aos desavisados. Esperava uma pitada de bom-senso e perspicácia de um filme que tinha tudo para cumprir uma função social, ainda que formatado como uma comédia-escracho. No fim das contas, presta um desserviço. E se disfarça de bem-intencionado, na medida em que pretende fazer rir. Só me provocou desapontamento.
A profusão de socos no estômago da sensatez, que pena, se converteu em sucesso de bilheteria, rumo aos três milhões de espectadores. O que só aumenta a certeza incômoda de que nós, homens e mulheres, temos uma tortuosa jornada se desenhando no horizonte. E o cinema, no caso de “Se eu fosse você 2”, não ajuda. Se eu fosse você, economizaria o dinheiro do ingresso.

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